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quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Retomada. Mudanças. Nova Vida.

Olá, queridos leitores, escritores e internautas que passam metade do dia e da noite antenados a este mundo tecnológico. (isso soou muito nerd, não?)
Como estão? Como passaram o reveillon? Comeram bastante peru? Encheram a cara de vinho, champagne e  vodka misturada com aquele suquinho que estava guardado o ano inteiro na prateleira? Se sim, então 'toca aqui', porque eu também fiz tudo isso. E com razão!

O meu ano de 2014 foi incrivelmente inusitado, ao ponto de chegar a ser assustador. Eis alguns fatores listados como parte da aventura que tive para buscar uma condição e qualidade de vida melhor em nome do amor e do meu futuro:

  • Sair da casa da mamãe;
  • Morar na Penha, Zona Leste;
  • Iniciar o curso de Marketing;
  • Abandonar o emprego da cidade Natal por causa da mudança de localidade;
  • Encontrar um novo emprego para pagar os 30% da faculdade, pois ganhara 70% de bolsa;
  • Dar continuidade ao hobbie de escrever histórias inventadas e vividas por minha pessoa (sem sucesso, e sem inspirações suficientes);
  • Me adaptar ao novo ambiente de São Paulo, incluindo o "confortável" metrô da linha vermelha (choro e vaias para essa citação);
  • Me adaptar a vida de casal (algo completamente novo para mim);
  • Adaptar a diversas refeições-não-preparadas pela minha querida mamãe (essa foi difícil);
  • Conviver longe do meu pai e meus irmãos;
  • Conviver longe da minha mãe (particularmente, essa ainda é uma etapa a ser vencida);
  • Conseguir um emprego, e alguns meses depois sair por motivo de stress e para buscar nova oportunidade dentro da área de estudo;
  • Conseguir um outro emprego, mas ter de trancar a faculdade por causa dos horários que não batiam;
  • Largar o emprego e conseguir outro em uma instituição cultural do governo;
  • Me mudar para a Zona Norte de São Paulo e começar tudo do zero novamente.

E a lista, aparentemente, não termina...

Mas, resumindo ainda mais, o ano de 2014 foi aquele em que eu prometi tudo, e não fiz nada. Foi o ano em que decidi que ia retomar minha vida como escritor, mas só me distanciei ainda mais do objetivo. Foi o ano em que prometi crescer profissionalmente, mas até agora não firmei nenhum emprego fixo. Foi o ano da graduação, que foi trancada no segundo semestre. Enfim... Foi um ano difícil.

Apesar de tudo, também foi o ano das escolhas. Muitas escolhas difíceis, como deixar a casa dos meus pais e criar uma nova expectativa de vida, em um novo lar que não era meu. Foi o ano da adaptação, de novos ares... E um novo amor que - hoje - me acompanha nessa jornada em busca da felicidade.
 
Não vou dar muitos detalhes sobre minha vida amorosa. Na verdade, nada além do que já escrevi acima. Porém, posso dizer com todo o meu coração que todas as minhas atitudes até aqui, incluindo os fracassos, as decepções e todas as dificuldades passadas em 2014 valeram a pena. Porque hoje eu estou aqui, com o amor da minha vida, que - querendo ou não - se tornou inspiração para os meus objetivos. 

E se 2014 pareceu dar tudo errado em minha vida, 2015 começou com o pé mais direito que as leis do brasil (irônico. Mas muito mais direito!). Se o meu objetivo, desde criança, como está descrito no logo do blog, era me tornar um escritor reconhecido, hoje eu posso bater palmas e erguer as mãos para o céu. Porque, depois de tantos anos escrevendo, parando, voltando, perdendo e ganhando inspirações... Esse ano eu finalmente inciarei o curso que tanto desejei na vida, mas que nunca tive coragem de fazer. Ouvi tanto que não era um curso viável, que não me daria oportunidades no mercado de trabalho, que não era bem visto pelas empresas...
Ouvi muito disso.
Mas, eu peço perdão à minha própria pessoa por só perceber agora - em 2015 - o quanto eu fui idiota por dar ouvido àqueles que não queriam a minha felicidade, e sim, a minha prosperidade profissional.
Queridos, por mais que suas intenções tenham sido as melhores possíveis, ai vai uma dica que há tempos eu deveria ter aprendido:
Antes de qualquer tipo de objetivo em sua mente, realize sempre o primeiro e o mais importante de todos: Ser feliz.
E eu só serei feliz exercendo a minha função de escritor, seja em um jornal, seja como professor de português, seja como um crítico de cinema, resenhista, ou um simples contador de histórias. Então, hoje, eu me sinto confiante de que esse será o ano das grandes realizações em minha vida. Estou sentindo a auto-estima banhar o meu corpo e alma, as grandes expectativas, a vontade de ser quem eu era quando mais jovem: Um sonhador.

Em fevereiro, darei início às minhas aulas de graduação em Letras - Português e Inglês - na Universidade Cruzeiro do Sul, com direito à licenciatura. 
Pronto, destino. Fiz o que meu coração pediu. Agora é com você!

E, consequentemente, estou de volta às origens do lugar que abriu os meus olhos para o mundo da escrita.

Quem disse que eu abandonei o blog? E quem disse que vou abandonar?
Queridos, essa é a nossa vida: As inspirações vem e vão, assim como o vento sempre muda de direção. Mas as idéias estão sempre em nossa mente. Basta ajustar a bússola da felicidade para que todas as coisas deem certo.

Por um segundo, pensei em excluir este lugar. Criar algo novo. Mas, por respeito a quem me conhece, e a eu mesmo, continuarei o meu trabalho aqui. Este é o meu cantinho, e este será o meu legado um dia.

Mais uma vez, obrigado pela força que sempre me deram. Espero que eu possa resgatar aqueles que um dia passaram por aqui. Porque novidades não vão faltar este ano, eu prometo!
Aos poucos, vou reformular o cantinho. Deixá-lo mais moderno, mais interativo. Mas sempre terá essa aparência humilde e simples, porque o que realmente interessa é o conteúdo, não?

Essa é a minha deixa, ou a introdução para o meu retorno. É como se eu estivesse criando o blog agora. Fiquem por aqui. Ou levem-me comigo em seus celulares, tablets e notebooks. 
Aproveitem para me seguir nas redes sociais. Os links estão no blog. Nunca pensei em parcerias, mas "nunca diga nunca", não é mesmo?


Obrigado, amigos.
Até a próxima.

Novo ano. Nova vida. Mesma meta: Ser feliz.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

IRMÃ MAIS VELHA E SEU ANIVERSÁRIO

Boa tarde, queridos amigos!
Ontem, dia 06/10/2014 foi uma data muito especial para a minha família. Foi o aniversário da minha querida maninha, Tânia Luciano, que completou 29 anos - com cara de 25 -. Enfim, como sou o melhor irmão do mundo para ela (só que jamais!), fiz essa pequena homenagem de pouco mais de 4 minutos, de uma forma cômica e descontraída...

Espero que gostem!

Te amo, irmãzinha. Sua chata!


segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Mudanças e as Estrelas, As



                Deitei sobre o gramado verde, que logo no início já me dava indícios de que no final eu sairia com bastante coceira e alergia. Mas, mesmo assim, valeria a pena sofrer um pouco apenas para avistar o marinho daquele céu de noite, com brilhantes estrelas que aparentavam ser de prata, e piscavam como luminárias.
                O tempo passou, pensei. E realmente havia passado: Lá estava eu, com os meus vinte e um anos, com duas faculdades trancadas, um emprego de contrato temporário, mudando-se de casa em casa, fugindo da calmaria de uma cidade interiorana para o bate cabeças que era o centro de São Paulo. Deixei mãe, pai, irmãos, Kyara – minha cadela – e todos os meus amigos de infância. Os melhores, os piores, os meios-termos, as amizades coloridas, as preto e branco, o cabelereiro da esquina, o campinho de futebol, a quadra da escola – e a escola onde estudei... Enfim, deixei a minha infância. Minha vida.
                Enquanto observava as estrelas, as mais brilhantes, vagava no tempo e espaço procurando uma resposta para muitas das minhas decepções: As histórias, os contos, os romances que antes escrevia, e as ideias que antes eu tinha, haviam se dissipado. Talvez devessem estar no espaço, perto das estrelas. Mas eu não as culpava.
                Eu também não me culpava. Fazia tempo que não assistia mais a filmes de terror. Os meus livros estavam guardados a sete chaves, como se fossem tão importantes para mim que nem mesmo eu pudesse deixá-los a solta. Mas qual valor eu estava dando para aqueles montes de papel impresso? Eu não estava lendo! Muito menos escrevendo!
                Ah, Deus! Que frustração. Esse era o meu dom. Um dom que muitos adorariam ter, mas eu era um dos poucos ao meu redor que tinha. E por falar em Deus, onde estava o Valdir saxofonista? O Valdir Violinista? Que tantos dons desperdiçados eram esses?!
                Chorei, pela primeira vez, em muito tempo. Chorei enquanto observava que aquelas estrelas me encaravam como se eu fosse um estranho, uma aberração da natureza. Um jovem exilado que não deu valor aos conhecimentos que adquiriu, às capacidades ganhas, à inteligência considerável, aos amigos mais queridos, e a família única nesse mundo.
                O que eu havia me tornado?
                O que eu me tornei hoje?
                Obras inacabadas, instrumentos embaixo da cama, amizades longínquas e família decepcionada. E o que restou de mim? O que me restou?
                Parece que perdi a fé. Eu não sei muito sobre o significado dessa palavra, mas sinto que a perdi. E não vejo um futuro brilhante. Ao contrário, vejo as poucas luzes ao meu redor se apagarem tão lentamente como as de um abajur, e uma tremenda escuridão no horizonte. Será esse o meu destino?
                O que estou sentindo neste exato momento? Digam-me, estrelas! Porque se eu disser que estou triste, estarei mentindo. Mas se disser que estou feliz, continuarei mentindo. Então, sendo assim, não sou eu o dono da minha própria razão!
                De repente, pude ver as estrelas ficando maiores: Estavam se aproximando da terra. Começaram a cair na velocidade de asteroides. Quando tocaram o solo, explodiram em milhares de pequenas partículas brilhantes, como se fossem purpurinas jogadas ao ar por crianças do ensino fundamental. E o brilho começou a tomar toda aquela área na qual estava. Os gramados se transformaram em nada. Eu já não os via mais. O ambiente ao meu redor havia desaparecido. Agora eu estava em pé, flutuando, e a escuridão absoluta me rodeava. Olhei da direita à esquerda, de cima abaixo, e não conseguia ver um horizonte, um fim para aquela imensidão infinita. Tudo o que eu podia avistar eram pequenas partículas brilhantes passando por mim. O silêncio era ensurdecedor.
                Eu estava no meio do espaço. Sem capacete, roupas de astronauta ou qualquer vestimenta adequada para a ocasião. Continuava a respirar como se o oxigênio das plantas e algas ainda estivesse por perto. Me sentia só. E, de certa forma, estava. Mas não por muito tempo.
                Percebi que constelações começaram a se aproximar de mim de forma lenta – suas figuras eram semelhantes àquelas que conhecemos em revistas e livros, ou desenhos animados -. Uma a uma, cada estrela se transformou em um ser humano: Mulheres, homens, crianças... Eles pareciam estar dormindo, com os olhos fechados. Na verdade, era como se estivessem sonhando profundamente, e não queriam acordar.
                Pude reconhecer o Guilherme, amigo desde a quarta série do ensino fundamental. Ao seu redor, a sua irmã Isabela, sua mãe, seu pai, seus avós... Em uma outra constelação, consegui avistar Rodrigo, meu vizinho e amigo desde a infância, sua irmã e seus pais...
                Nos outros grupos ao meu redor, pude ver a imagem do Ronaldo, Fabinho, da Bia e sua família. Da Aline, Cláudia, Elaine, Thalita... Da Andréia, da Regina, do Fernando, do Noé e sua esposa...
                Comecei a perceber que eram todos os meus amigos, conhecidos, colegas da escola, professores e diretores. Eram todas as pessoas que pela minha vida passaram e, em algum momento, conseguiram marcar suas principais participações, e no que elas me influenciaram a ser quem sou hoje.
                Comecei a sorrir. Aquilo parecia ser um sonho, e com certeza era. Era muito surreal para ser verdade. Mas conseguia passar algo que me fazia refletir, mesmo sem saber sobre o quê.
                - A sua estrela não apagou – a voz atrás de mim disse de modo suave – Você mudou e não é mais o menino que já foi antes. Mas continua sendo o meu filho, e eu sei que você tem um brilho radiante e esplendoroso dentro do seu coração.
                - Maninho – a outra voz disse do meu lado direito – Você tem muitos dons que pessoas da sua idade não possuem. Eles não se foram. Estão ai dentro de você. Basta fazer essa luz brilhar.
                - E ai, tampinha – a voz masculina soou do lado esquerdo – Eu te ensinei muitas coisas sobre a música, mas o dom já estava em você.  E ainda está.
                - Filho – O homem à minha frente disse – Eu já te privei de muitas coisas na vida. Mas todas elas foram para o seu bem. Os seus dons, ninguém irá lhe arrancar. Eu estou aqui. Eu te entendo e, acredite, eu tenho muito orgulho de você.
                Assim como os quatro elementos da natureza, que precisam se unir para manter o controle sobre a terra, as quatro pessoas mais importantes no mundo para mim estavam ali, unidas. Algumas não aceitavam minhas escolhas, outras talvez não acreditassem nas minhas expectativas... Mas todos eles me amavam, e tinham certeza que eu tinha uma luz tão forte quanto a minha determinação, e que eu precisava o quanto antes expulsá-la para fora e fazê-la explodir em inúmeros raios que trariam de volta os meus dons, as minhas virtudes, as minhas vontades, e a minha felicidade.
                - Eu te amo.
                - Eu te amo.
                - Eu te amo.
                - Eu te amo.
                - Você não tem uma estrela, Valdir – uma outra voz soou, mas não pude enxergar sua face – Você é uma estrela, e vai brilhar no momento certo, assim como todos os seus amigos e familiares também hão de brilhar...
                Um vasto clarão tomou aquele imenso infinito. Parecia que cada um estava indo para um lugar diferente: Os seus próprios caminhos.
                As pessoas dizem que cada um tem uma estrela que brilha no céu por nós. Mas, na verdade, nós somos a estrela. Precisamos aprender a fazê-la brilhar, e mesmo que saibamos, ela só irá brilhar no momento certo.
                Os nossos dons não se foram. Eles ainda estão lá dentro, esperando o melhor momento para ser revelados. As nossas escolhas, por mais difíceis e árduas que - muita das vezes – sejam, nos levarão para os nossos devidos propósitos. Algumas pessoas não vão te aceitar, ou criticarão suas determinações. Mas, saiba que somente as suas escolhas, suas determinações e sua aceitação consigo mesmo te levarão a brilhar como uma estrela. E, por fim, você vai sorrir de verdade. E entenderá que temos apenas uma vida para vivermos, e uma vida para sermos felizes.
                O escritor que eu fui ontem, ainda está aqui. O músico que eu fui ontem, ainda está aqui. Posso sentir, eles estão ansiosos para mostrar o quanto amadureceram. Mas eu esperarei o tempo certo para invoca-los. E o tempo certo não é o tempo dos outros...
                É o meu tempo.
                Na verdade, eu não estava deitado sobre o perfeito gramado, nem observando as estrelas brilharem como incríveis luminárias... Eu estava aqui, sentado o tempo todo sobre a cadeira, pensando que já fazia tempo que não escrevia algo, e precisava escrever.
                Então eu comecei, e neste momento, percebo que o tempo que tanto aguardava chegou: O tempo de brilhar novamente.
                E o seu tempo? Chegou?


Fim.


Valdir Luciano, 29/09/2014

terça-feira, 18 de março de 2014

(Conto) Morte Demoníaca

Morte Demoníaca

                Josh abriu os olhos de repente: Um forte ruído havia ecoado sobre aquele pequeno e abafado quarto de madeira, dentro da velha cabana perdida no meio da floresta de Black Hills.
                Seus olhos enxergavam o teto mofado, prestes a despencar, enquanto sua mão esquerda vasculhava aquilo que deveria estar ao seu lado, cobrindo a outra metade da cama.
                - Rose – ele sussurrou, enquanto tentava tocar em seu corpo. Não queria acordá-la, mas precisava ter a certeza de que ela estaria ali. Então, lentamente, ele girou sua cabeça noventa graus para a esquerda:
                Rose havia sumido.
                Incrédulo do que estava presenciando, Josh inclinou seu corpo para cima e observou a luminosidade afora através da janela fechada por grades de ferro: Ainda era noite, o que o deixou completamente intrigado.
                - Rose! – agora ele exclamou com firmeza. Rapidamente, pensou nas possibilidades dela ter se levantado para fazer suas necessidades, beber um copo d’água, ou escovar os dentes. Mas ele estava claramente certo de que sua namorada não teria coragem de sair da cama e caminhar sozinha em direção ao banheiro. Ele a conhecia bem. Muito bem.
                De repente, uma leve e estranha brisa soprou ao redor do quarto. Ao mesmo tempo, o som de papel fino ecoou aos ouvidos de Josh. Ao inclinar sua cabeça para o chão, deparou-se com um velho livro aberto, cujas folhas dançavam da direita para a esquerda através do vento.
                - Mas que porra é essa? – ele questionou em voz alta. Lembrou-se rapidamente daquele livro. Porém, não se recordava de tê-lo trazido até o quarto. Antes de dormir, o deixara em cima da mesa, na cozinha.
                Seus olhos encararam aquele livro. As folhas trocavam de página, uma a uma, movida por uma força além de sua compreensão. Movida por algo, alguém...
                O coração de Josh começou a palpitar fortemente. O frio em seu estômago revelava a insegurança, a desconfiança e o sentimento de medo que estava sentindo ao olhar para aquele objeto jogado no chão. Ele não o havia lido, mas lembrou-se da capa que estampava através de uma tinta vermelha, fresca... :
“ Invoque”
                Outro ruído ecoou aos seus ouvidos, desta vez vindo de fora do quarto.
                 Rose, ele pensou e então caminhou rapidamente em direção a saída do local: Deparou-se com a escura e pacata cozinha, onde havia apenas uma mesa de madeira com duas cadeiras. A única claridade era a do luar, o que não era o suficiente para iluminar a cabana. As velas expostas sobre a mesa estavam quase gastas. O medo começou a tomar conta de Josh.
                O homem girou sua cabeça para a esquerda, deparando-se com um estreito e assustador corredor. No final do mesmo, uma fraca luz refletia uma sombra que dançava lentamente sobre as paredes do lugar.
                Os passos de Josh eram lentos. O ranger da madeira sendo pisoteada podia ser ouvido, e cada vez mais a angustia daquele homem era evidente. Onde estaria sua namorada? Que sons eram aqueles? Por que o livro estava jogado em seu quarto?
                Eram mais e mais questões sem qualquer resposta concreta. E quanto mais ele se aproximava do destino, mais perguntas surgiam.
                O vento soprava incessante sobre a cabana. Os pés eram colocados um à frente do outro em passos curtos, cautelosos. Logo, Josh estava no corredor e conseguia avistar uma única porta semiaberta, de onde vinha a fraca luz.
                Ao aproximar-se do destino, Josh elevou sua mão direita em direção a fechadura: Ele a empurrou e, de repente, deparou-se com a silhueta de um corpo parado em pé, virado de frente para seus olhos. As vestes brancas cobriam aquela pessoa. Os cabelos morenos e longos do ser estavam umedecidos pelo suor. A vela em suas mãos estava prestes a se apagar.
                Josh suspirou. Seu coração quase saiu pela garganta. Aquela era Rose, sua namorada, Finalmente, havia aparecido, mesmo que naquele estado.
                - Rose, o que aconteceu? Por que acordou no meio da noite?
                A chama da vela, de repente, dançou som o soprar de uma frisa brisa. Rose estava calada, quieta, não tinha expressão no rosto.
                - Rose! – Josh exclamou, agora assustado pelo comportamento da garota.
                Por fim, ela respondeu em voz baixa, sussurrante:
                - Eu... Precisava... Eu Prec... Perdi o sono...
                - Você perdeu o sono? Mas como? Você estava morta de sono agora a pouco.
                - Tive pesadelos...
                Josh rapidamente lembrou-se do livro que haviam encontrado naquela cabana. Logo se deu conta de que o motivo para ela estar acordada fora aquele maldito artefato, cujas escritas a fizeram acordar.
                - Eu disse para você não ler aquele livro – ele resmungou – Eu não sei qual era o gênero daquela merda, mas com certeza não era coisa boa... Não sei por que meu pai resolveu deixar esse livro aqui, mas eu vou dar um fim nele. Agora, vamos para a cama. Devemos dormir. Amanhã voltaremos para a cidade.
                Josh elevou suas mãos em direção a Rose. Porém, ao tocá-la, avistou os olhos amarelados, tomados por um fúria, cujas veias circulavam nas pupilas.
                De repente, a vela se apagou.
                - Deus! – Josh gritou, pasmo. A escuridão caiu sobre aquele corredor – Rose, o que houve?!
                Silêncio.
                A respiração de Josh podia ser ouvida. Ele não queria falar, pois estava esperando pela reação de sua namorada. Porém, ela permanecia dentro daquele banheiro, quieta, silenciosa, estranha...
                Ruídos.
                Josh começou a ouvir novos ruídos, vindo daquele banheiro, da direção de Rose. Eram sons semelhantes a cortes, como se algo estivesse sendo raspado...
                Desesperado, o homem pegou o celular, acendeu a lanterna e mirou em direção à garota. No mesmo instante, deu passos para trás.
                O sangue escorria das pernas de Rose, tocando o chão.
                Os cortes continuavam.
                Os olhos de Josh cintilaram e ele se apoiou na parede do corredor, incrédulo do que estava presenciando:
                As afiadas navalhas eram cravadas sobre a vagina da garota, sendo repuxadas da direita para esquerda, de cima para baixo. O líquido ferroso escorria em profusão. O sorriso demoníaco estampado em Rose incomodava a quem olhasse: Um sorriso forçado, furioso e ao mesmo tempo alegre...
                - Jesus... – Josh sussurrou, levantando-se e correndo em direção a saída da cabana. Porém, ao tentar puxar a fechadura da porta da cozinha, percebeu que a mesma estava trancafiada. Ele tentou procurar as chaves em seu bolso, mas não as encontrou.
                Olhou para trás e avistou a silhueta demoníaca daquela que já não era mais a sua namorada caminhando lentamente em sua direção.
                - Volte, amor. VAMOS TRANSAR! – a aberração disse, agora com uma voz grave e distorcida – ME DEIXA SENTAR EM CIMA DO SEU PAU, SEU VIADINHO!
                Por onde a mulher passava, o caminho de sangue era criado.
                Desesperado, Josh começou a chutar a porta brutalmente, tentando arrombá-la para fugir daquele inferno o mais depressa possível. A garota estava cada vez mais próxima e ele já estava ficando sem opções.
                De repente, olhou para a janela ao lado da porta. Sem pensar, socou a vidraça da mesma, fazendo os cacos de vidro rasgar suas mãos. Josh estava fazendo de tudo para fugir, achar uma saída.
                Ele colocou as duas mãos para o lado de fora, através da janela, empurrando seu corpo para frente. Porém, a mão da garota já o havia alcançado, puxando-o para trás com uma força incontrolável, não humana: O homem caiu por sobre o chão, enquanto Rose – já em aparência petrificada – sentou em seu colo forçadamente, esfregando-se de forma sensual. O sangue manchava as vestes do homem, que tentava se desprender. Porém, era impossível.
                - ME DEIXA SAIR, FILHA DA PUTA! ME SOLTA! – ele gritou, retorcendo-se bruscamente.
                - AGORA VOCÊ VAI LAMBER, AMOR!
                De repente, o corpo possuído levantou-se com movimentos semelhantes a de marionetes, caminhou centímetros a frente. Josh conseguia enxergar a vagina da garota sangrando em seu rosto. E então, o corpo sentou brutalmente em cima da face do homem. O órgão sexual era esfregado impiedosamente entre a boca e o nariz de Josh, fazendo-o engolir sangue.
                - LAMBE, FILHO DA PUTA! LAMBE!  - o demônio gritava, aparentando estar sentindo prazer.
                Josh se retorcia, agonizando, quase se sufocando. De repente, uma de suas mãos sentiu tocar em um artefato jogado sobre o chão: Uma navalha – a mesma ao qual Rose cortara a vagina -. Rapidamente, ele a cravou sobre o estômago da criatura, fazendo-a cair.
                Desesperado, ele se levantou e, através de uma força que jamais imaginaria ter, arrombou a porta da casa, saindo, deparando-se com uma extensa floresta tomada por um nevoeiro típico de madrugada.
                Ruídos começaram a soar de dentro da cabana. Um estranho e irreconhecível linguajar também podia ser ouvido.
                Josh começou a correr floresta afora, ansioso para encontrar uma saída. Enquanto corria, lembrou-se de que deixara seu carro ao lado da cabana. Porém, era tarde demais. Ele não voltaria àquele inferno. Ainda não conseguia entender como tudo aquilo havia acontecido. O que mais estava concreto em sua mente era a salvação: Sair vivo daquele lugar. O resto ele poderia deduzir depois.
                A floresta parecia não ter fim. Os galhos das árvores batiam em seu rosto, e ele se sentia cada vez mais perdido. O nevoeiro parecia mais denso e o desespero era evidente em seus olhos lacrimejantes.
                Aos poucos, Josh podia ver luzes enfileiradas, separadas por metros de distância. Postes que sustentavam os fios de telefone e energia elétrica.  A pista que cortava a mata...
                O alívio começou a florescer em seu peito. O arfar era de satisfação.
                Ele finalmente estava a salvo.
                Ao mesmo tempo, uma forte luz vinha em direção à pista, mirando em Josh: Era um carro.
                - Graças a Deus – ele disse, arfando de felicidade.
                Rapidamente, foi para o meio da pista e fez o comum gesto de pedir carona.
                O carro correspondeu, parando e diminuindo a luz do farol.
                Josh aproximou-se do carro, sem pensar em pedir qualquer favor: Abriu a porta do mesmo e adentrou, em total desespero.
                - Por favor, me tira daqui – ele disse, quase sem fôlego.
                Não houve resposta.
                De repente, Josh olhou para cima e avistou um chaveiro pendurado, dançando sob o automóvel...
                Um chaveiro com um nome escrito:
“Josh”.
                Aquele era o seu carro.
                Ao mesmo tempo, as luzes dos postes começaram a se apagar, uma por uma, até que a escuridão tomou aquela pista.
                De repente, a voz ao seu lado disse aos sussurros:
                - Você ainda não leu aquele livro, meu amor...
                Josh, pasmo, virou lentamente sua cabeça.
                Rose o atacou com os dentes.
                De longe, podia-se avistar o sangue espirrando sobre as vidraças do automóvel, junto dos berros ensurdecedores de Josh.
                O demônio estava a solto.
                Mas até quando?


Fim.
Valdir Luciano, 2014



Introdução ao Conto "Morte Demoníaca"

Saudações, queridos leitores, escritores e internautas!

Como prometido, darei início às postagens contínuas deste blog. Pretendo atualizá-lo sempre que puder, ou sempre que houver qualquer novidade.

E a novidade da vez é um novo conto que há pouco tempo que escrevi - e, claro, é de terror. Os meus amigos e seguidores já me conhecem o suficiente para ter ciência de que é de gore que eu gosto, e nada melhor do que compartilhar os meus medos e inspirações literárias.

A história da vez é bastante curta. Posso nomeá-la uma Homenagem a um filme bastante popular, sucesso de bilheteria e que custou muito, mas muito pouco. Dirigido por Sam Raimi, autor dos três primeiros filmes do Homem Aranha, este longa poderia ter se tornado um fracasso no cinema, devido ser classificado como Trash na época em que foi criado. Mas, contrariando as críticas de plantão, tornou-se um sucesso cultuado.

The Evil Dead - mais conhecido no Brasil como A Morte do Demônio (tradução tosca!), foi criado em 1981, e narra a simples história de cinco jovens aventureiros que vão passar um fim de semana em uma cabana isolada no meio de uma densa floresta. O macabro se manifesta quando um deles toca um antigo gravador encontrado dentro da casa, despertando todos os demônios ocultos no lugar. Logo, todos eles são possuídos um a um. Antigamente, o terror realmente assustava. Hoje, se formos re-assistir, daremos boas gargalhadas com o extremo gore e tom de comédia que o filme passa. Ressaltando que há pouco tempo foi lançado um remake, basicamente tratando da mesma história do original.

Mas, voltando ao conto mencionado no início da postagem, a história é extremamente baseada no filme. Para quem assistiu, vai se lembrar de muitas cenas e o momento será nostálgico. Para os que não assistiram, creio que irão se impressionar com a extrema violência que acrescentei na história. Realmente, eu queria causar impacto neste conto.

Não vou detalhar absolutamente nada sobre o mesmo. Até porque ele é bastante curto, e ai eu poderia soltar algun spoiler. Portanto, tratem de lê-lo do início ao fim.

É isso. Postarei em seguida. Espero que gostem, ou apreciem,  ou se assustem...

Qualquer sensação que sentirem ao ler o conto será gratificante para mim.

Obrigado.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Valdir Luciano (O Retorno)

Saudações, leitores!

Basicamente, faz anos que não passo por aqui... Peço desculpas a todos vocês. Devido a inúmeros contratempos, envolvendo faculdade e trabalho, raramente conseguia me concentrar para postar algo por aqui. E convenhamos que quando criei este blog ainda era um jovenzinho que não fazia nada da vida :P além de permanecer o dia inteiro escrevendo posts para publicar aqui. Mas a gente cresce, as pessoas mudam, o carneirinho que amanhã será boi..., como diz o saudoso Seu Madruga.

Enfim, estou de volta! (palmas e assovios)
Existem muitas histórias aqui para finalizarmos, não? Prometo que farei todo o possível para retomar o rumo que havia pausado. Mas, como passamos tanto tempo assim distantes, nada melhor do que publicar uma breve biografia sobre a minha vida, desde o meu nascimento. E em seguida, no decorrer dos dias, continuarem a postar contos, crônicas, romances e confissões.

Gostaria de ressaltar que fiz algumas mudanças no visual do blog. Nada demais, nada extravagante e nem tecnológico - até porque eu sou um pereba em questão de HTML. Caso alguma alma viva queira posteriormente me ajudar a inovar o tema do site, por favor manifeste-se!

Muito obrigado por esse reencontro. É nostálgico, e muito importante para mim.

Lets GO! (novamente rs)


Nascimento
Valdir Luciano nasceu em 07 de Maio de 1993, no bairro do Jardim Paineira, cidade de Itaquaquecetuba, grande São Paulo. De família humilde, Valdir ingressou seus estudos em escola estadual. Finalizou-os no ano de 2010, mas fora em 2009 que adquiriu o interesse pela escrita, compartilhando com os amantes da leitura.
                Eu gostava muito de escrever, desde pequeno. Quando não estava na escola e não podia sair para brincar, sentava-me no sofá, pegava um caderno velho e começava a descrever as minhas aventuras, os meus medos, as minhas confissões, os meus desejos... Era uma espécie de diário. Quanto mais eu escrevia, mais idéias surgiam em minha mente: Personagens, cenários, aventuras... E foi assim que, então, decidi que começaria a deixar de contar histórias, mas, sim, “criar”.
                Minha primeira história escrita e finalizada foi intitulada “7º A”, que narrava as desventuras dentro da escola na qual eu estudava. É claro que o enredo era baseado em minha vida, mas os dramas eram totalmente imaginários. As diferentes histórias eram dividias por longos capítulos, como se fossem episódios de um seriado ou telenovela. Era muito divertido! Foi a partir da 7° série que comecei a perceber que minha vida podia se tornar uma história a ser contada. Porém, naquela época, eu só contava para o meu subconsciente – comentou o jovem, sorridente ao se lembrar de sua infância.

Primeira Publicação
                 No ano de 2011, aos dezoito anos, Valdir conseguiu publicar dois de seus contos: “O açougueiro” e “O Zelador” em uma coletânea de histórias de suspense e terror, organizado pela Andross Editora.
                Essa foi a confirmação de que meu trabalho estava sendo reconhecido. Foi, certamente, o dia mais feliz da minha vida. Quando eu abri aquele livro e comecei a ler um conto que eu mesmo havia escrito, não consegui conter as lágrimas. Meus amigos e familiares estavam lá para me parabenizar pela vitória conquistada. Mas devo tudo isso primeiramente a Deus, segundo ao meu caro professor de português Noé Amós Guieiro – também escritor -, que sempre me incentivou nos tempos de escola, e descobriu o escritor dentro de mim.
                Em 2012, houve sua segunda participação em livros de terror, com o bem elogiado conto “Ceia de Natal”. Através das redes sociais, Valdir sempre divulgou suas histórias aos leitores, assim adquirindo uma boa reputação de admiradores do seu trabalho, até se tornarem seus fãs.

Hoje
Atualmente, Valdir Luciano mantém o blog “confissoesdeumescritor.blogspot.com”,  lugar onde posta os mais variados contos e as mais inusitadas histórias, dos gêneros terror/suspense e drama. Nos tempos vagos, dá continuidade ao seu maior trabalho, baseado em sua carreira: “Confissões de um Escritor”, biografia que narra os caminhos por ele traçado até se tornar um escritor reconhecido. A obra ainda não possui data de lançamento.

Hobbies
Além de escritor, Valdir também é músico.
Quando você escreve por prazer, assopra um saxofone e arranha as cordas de um violino você percebe que a vida não é tão ruim assim. Que tudo fica mais fácil quando você faz aquilo que gosta. E o melhor de tudo é ser reconhecido pelas pessoas ao redor. Essas são situações que nos fazem sentir vivos e valorizados.
Futuro
Eu ainda tenho vinte anos. Pareço novo, mas já vivenciei muita coisa. Estou cursando Marketing e atuando na mesma área, profissionalmente. Estão sendo dias cansativos. É difícil estudar e trabalhar, pois precisamos separar o tempo das atividades. Dessa forma, não sobra muito tempo para escrever. Mas isso não quer dizer que eu vá parar de criar histórias. Creio que faz parte do processo de crescimento do ser humano: A gente nasce, engatinha, cresce, vai para a escola, se forma, consegue um emprego e vai para a faculdade. Entre essas etapas, descobrimos aquilo que queremos ser. Aí damos uma pausa no objetivo para nos dedicarmos ao trabalho e estudo. Mas lá na frente, o objetivo ainda está intacto... E então podemos traçar os caminhos para, por fim, poder concretizá-lo.
Ainda tenho muitas histórias a contar. O fim da carreira de um escritor é a sua própria morte. E mesmo após, sua vida terá se tornado uma trajetória a ser contada, e repassada por anos e anos.


Contato com o autor:
99620-7050 (vivo)



                

segunda-feira, 5 de março de 2012

Sucessos e Fracassos - Capítulo 2

Sucessos e Fracassos


               Se tiver as coisas realizadas da forma como você quer...
For à medida para uma vida de sucesso...
Então, alguns diriam que eu sou um fracasso.
A coisa mais importante...
É não se amargar pelas decepções da vida.
Aprender a deixar o passado para trás.
Eu reconheço, que nem todo dia... Será ensolarado.
Mas quando você se encontrar perdido na escuridão e no desespero...
Lembre-se...
É somente na escuridão da noite, que podemos ver as estrelas.
E nenhuma estrela... O guiará de volta para casa.
Então não tenha medo de cometer erros.
Ou de tropeçar e cair.
Pois na maioria das vezes...
Os melhores prêmios vêm quando se faz àquilo que você mais teme.
Talvez você consiga tudo o que deseja...
Talvez, você consiga mais do que jamais tenha imaginado...
Quem sabe onde a vida te levará?
A estrada é longa.

E no fim...
A jornada é o destino.


Primeira Parte -                

- Como está se sentindo? – Ronaldo perguntou a Valdir, enquanto os dois permaneciam sentados sobre um morro totalmente gramado e com a paisagem do pôr do sol – Está melhor?
                O silêncio pairou por alguns segundos, e então Valdir respondeu num ar triste:
                - Você faz falta, Roni. Lembro de você todos os dias da minha vida.
                 - Faça isso – Ronaldo disse com um grandioso sorriso, tocando os ombros de seu amigo – Mas lembre-se apenas das coisas boas que passamos juntos, eu, você, o Guilherme e todo o pessoal da escola. Torne-me uma boa lembrança, parceiro. Eu sempre vou estar contigo.
                - Obrigado.
                - Está na hora.
                De repente, a luz fraca do sol reverteu-se em um brilho incomparável e forte. O branco tomou conta daquele mundo...
                E então Valdir acordou, abriu os olhos e sorriu num ar confortante: Estava se sentindo melhor, muito melhor. A saudade do falecido amigo ainda batia em seu coração, mas as memórias boas ainda estavam lá. Memórias inesquecíveis que o tempo jamais apagaria.
                Levantou-se e olhou para o relógio-despertador: Eram 06h30min. Estava na hora.
                A hora de ir para a escola.


               
 A cozinha não era muito grande, mas o espaço era confortável. As paredes eram brancas com decorações douradas. Maria, mãe de Valdir, preparava os famosos ovos mexidos que seu filho tanto gostava, enquanto Paulo, o pai, lia o jornal sentado de pernas cruzadas sobre a mesa. Estava trajado a um terno escuro colocado sobre a camisa social azul clara. Tinha os cabelos escuros, lisos e relaxados. Parecia um roqueiro, mas era apenas um pai de família.
                Paulo trabalhava no famoso Terraço Itália, localizado no centro de São Paulo. Era um dos maiores prédios do Estado, com uma vista esplendida da grande metrópole. Paulo era um cozinheiro-nato, mas apenas exercia sua função fora de casa, pois jamais gostaria de abaixar a auto-estima de sua esposa.
                Maria, por sua vez, era a típica mãe de família: Aquela que cozinha, que lava roupas, que passa pano... Mas que também aconselha, abraça, ama...
                Tinha uma altura mediana, os cabelos eram curtos, até o pescoço, e eram escuros. O rosto era claro e sempre muito bem maquiado. Era bastante vaidosa, mesmo que não saísse de casa.
                E lá estava vindo Valdir Luciano, o filho dos pais que o amava. Surgira com olhos brilhantes e um sorriso exuberantemente branco. Todas as vezes que encontrava os pais era como se estivessem longe um do outro por muito tempo. Luciano amava aquela família, e não era para menos, eles eram bastante carinhosos com ele, o mimavam bastante. Mas, acima de tudo, davam-lhe o ícone mais necessário por todos os filhos:
                Amor.
                - Bom dia, meu gatão – Maria saudou com ênfase, dando uma leve tapa no bumbum do garoto – Como dormiu ontem?
                - Até que dormi bem – ele respondeu enquanto sentava-se à mesa e observava os ovos mexidos caírem lentamente sobre o prato – Estou melhor do que poderia estar.
                - Isso aí, filhão – Paulo disse, sorrindo – Não e atrase para a escola. E tente não paquerar muitas garotas ao mesmo tempo, hehe...
                - Paulo! – Maria exclamou atordoada – É isso que os pais ensinam aos filhos?!
                - Valeu pai – Valdir disse – Vou tentar não paquerar tantas assim.
                - Valdir! – Agora os olhos da mulher não sabiam quem encarar e dar a bronca.
                E, como se não houvesse escolhas, todos começaram a rir.




                E.E. Kakunosuke Hasegawa. Uma escola especializada em Nerds, Emos e muitas outras espécies de alunos. Era localizada próximo ao Ibirapuera e às vezes os alunos fugiam para ficar no parque.
                Não era uma instituição para ricos e poderosos, mas para todas as classes sociais possíveis – desde que tenham R$350,00 por mês reservados à mensalidade dos estudos.
                O lugar era grande e espaçoso. Tinha as quadras esportivas, com lugares específicos para se jogar futsal, vôlei e até mesmo basquete. Os professores eram totalmente exemplares e não criavam muitos afetos com os alunos, o que ajudava bastante na concentração dos mesmos a estudarem ainda mais.
                O Chevette cinza de Paulo parou em frente à entrada do colégio, Valdir abriu a porta e levantou-se. O vento tocou seus cabelos e rosto e ele sentiu aquele ar, o ar de estudo, professores, amigos...
                Os alunos que passavam naquele momento pela calçada certamente riam do automóvel do pai do garoto, pois não era aquele típico carrão que um pai de aluno que estuda em escola particular deveria ter. Mas isso não abalava Valdir. Ele já estava acostumado e, mesmo que não fosse das mais altas classes sociais, já ganhara vários amigos com sua nobre humildade.
                - Valeu pai – Valdir agradeceu, enquanto apertava a mão de Paulo – Bom trabalho.
                - Bons estudos, até mais – Paulo fechou a porta do carro e o mesmo partiu rapidamente de volta a pista.
                Por alguns segundos o garoto ficou parado, observando toda aquela imensidão de escola.


                Todos os dias encaramos a mesma realidade. Que o nosso tempo aqui é curto. E para honrar os que já foram, temos que viver as nossas vidas bem. Devemos perdoar quando podemos e permitir que as nossas leis comuns nos reúnam.
                Escola.
                A melhor parte da vida adolescente.


                E então, Valdir puxou a correia da mochila e foi em direção a entrada.




                Você já estudou? Ou estuda?
                Então deve saber como é bom estar dentro de um lugar onde só há pessoas da sua idade, que pensam como você, que entendem seus sentimentos, que sabem como é ser adolescente.
                Escola. É um lugar especial, onde criamos amizades que, às vezes, nos acompanharão para sempre. É onde conhecemos o nosso primeiro amor, talvez onde damos nosso primeiro beijo, onde brigamos, onde respondemos a alguém, onde aprendemos a respeitar os mais velhos, onde aprendemos cada dia um pouco mais. Um lugar onde não aprendemos apenas a ler e escrever, mas a viver.




                O corredor era longo, tão longo quanto os de supermercados e shoppings. Às diretas e esquerdas podiam-se avistar os inúmeros armários de ferro, trancados com cadeado, guardando cadernos, livros, vidas, segredos...
                Os pés eram colocados um na frente do outro a cada passo, e, do passo, um sorriso forçado tomava a aparência de Valdir Luciano, que caminhava não muito lentamente sobre a escola, procurando por sua sala.
                Talvez fosse diferente aquele ano. Talvez todas as pessoas começassem a gostar dele, vê-lo de outra forma além de um pobre coitado. Talvez ele conseguisse uma namorada aquele ano, talvez uma ficante, talvez apenas um beijo. Talvez colocasse mais amigos na sua lista, talvez amigas. Talvez não apanhasse tanto quanto apanhava ano passado. Talvez os valentões o deixassem em paz.
                Talvez. Talvez. Talvez.
                Porque ele não tinha certeza do que estava pensando. Porque sabia que as coisas nunca eram como ele desejava, e por que haveriam de ser naquele ano. A tendência era piorar ainda mais: Os valentões estavam ainda mais fortes, as garotas estavam se tornando mulheres cada vez mais exigentes e os caras não queriam ter como amigo um pobre coitado cheio de espinhas no rosto, mal vestido e medroso.
                Talvez ele estivesse completamente errado, absorto. Talvez tudo o que pensara fora nada mais do que um palpite idiota, que não levaria a lugar algum. Talvez ele devesse estar conformado com a vida difícil. Talvez devesse se conformar de que jamais seria popular, jamais conseguiria uma namorada, um beijo de alguém naquela escola...
                Enquanto pensava e caminhava distraidamente, fora barrado por Danilo e Sérgio – dois garotos totalmente fortes, tatuados, folgados, chatos...
                Valentões.
                - Olha só quem é – Danilo palpitou ao empurrar Valdir contra um dos armários, fazendo as pessoas ao redor afastarem-se amedrontadas – O pobretão do ano passado, e do retrasado...
                - Você cresceu em, guri – Sérgio disse enquanto tomava os livros das mãos do garoto – Mas a pobreza continua a mesma. Tão escroto e tão bobão... Isso me deixa com mais vontade de te dar uma surra...
                Valdir não conseguia dizer absolutamente nada. Estava atordoado e, ao mesmo tempo, conformado de ser um saco de pancadas escroto.
                Porém, antes que os valentões fizessem algo pior, Joyce apareceu e os empurrou com toda a força que tinha.
                - SAIAM DAQUI, SEUS IDIOTAS! – ela exclamou com verdadeiros olhos de coruja, encarando-os seriamente – DEIXEM-O EM PAZ. E DEVOLVAM OS LIVROS DELE!
                - Quem você pensa que é, Joyce?! – Sérgio disse com raiva na voz e aproximou-se dela.
                - Eu não tenho medo de você, Sérgio – ela disse com autoconfiança – Sei de muitos segredos seus que a escola poderia saber e sua reputação cairia a zero. Quer mesmo que eles fiquem sabendo?
                O corpo de Sérgio congelou-se. Ele sabia que tinha segredos terríveis que não poderiam ser revelados. E sabia que Joyce não teria problema nenhum em espalhá-los por ai. Então resolveu ficar calado, devolvendo os livros de Valdir da maneira mais educada possível:
                Jogando-os no chão.
                - O ano está apenas começando, frangote  - Sérgio disse e olhou seriamente para Joyce.
                E então, os dois valentões saíram de perto e continuaram a caminhar pelos corredores em busca de outra isca.

                - Você está bem? – perguntou Joyce, olhando tristemente para Valdir.
                 - Estou – ele disse num ar seco, sem expressão e sentimentos.
                Pegou os livros do chão, pôs sobre os braços e continuou a caminhar pelo corredor, deixando Joyce sozinha, observando-o a sair. Ela sabia que não estava tudo bem. Sabia que ele ainda estava tentando se recuperar da morte de Ronaldo e que estava sendo difícil estudar em um lugar onde muitos o desprezam.
                Naquele momento, Joyce sentiu pena. O sinal tocou e ela percebeu que já estava na hora de ir para a sua sala.
               

                - Bom dia, alunos da E.E Kakunosuke Hasegawa – disse a professora Inez Dias aos jovens que ali estavam – Hoje é o meu primeiro dia de aula com vocês e espero que possam se acostumar às minhas normas, regras e à minha forma de ensinar.
                A sala estava cheia, com quase quarenta alunos sentados em suas cadeiras. Entre eles estava Valdir Luciano, que aparentava não estar totalmente focado à aula. Seus olhos observavam a lousa verde, mas estavam vidrados e na verdade observavam o interior de sua mente.
                Estava pensando nas vezes em que ficava conversando com Ronaldo e Guilherme no meio da sala de aula. Os professores sempre lhe chamavam a atenção, mas eles não davam a mínima atenção. Também se lembrou das vezes e quem eles sentavam nos fundos e começavam a atirar bolinhas de papel à frente. Foram muitos risos e sorrisos...
                E agora tudo aquilo fazia falta. Muita falta.
                -... É melhor voltar para a Terra antes que a professora te leve para o planeta chamado ‘diretoria’ – disse a voz ao seu lado, fazendo-o despertar.
                Era uma suave e linda voz, de mulher. Por mais que ele estivesse triste naquele momento, sentiu um pingo de felicidade ao ouvir tal voz.
                E foi quando ele virou-se para o lado esquerdo e encontrou os olhos. Aqueles olhos...
                Olhos castanho-claros, a pele moreno-clara e um sorriso extremamente branco e perfeito. Perfeito. Muito, muito perfeito.
                Ao olhar para tal imagem divina, uma música tocou nos ouvidos de Luciano, como uma trilha sonora de amor. E então seu coração acelerou-se e ele foi contagiado por aquele sorriso... Sorrindo também.
                Linda, tão linda...
                Aquela era Cláudia Lino, a garota com quem Valdir Luciano estudou desde a quinta série, e a garota a quem ele se apaixonou secretamente. Por mais próximos que eram um do outro, por mais amigos que fossem, ele nunca tivera coragem de dizer-lhe o que sentia, porque eles eram muito amigos, e as pessoas dizem que amigos não podem namorar...
                Mas o motivo pelo qual ele jamais revelara seus verdadeiros sentimentos tinha um nome:
                Ricardo Oliveira, mais conhecido como Rick...
                Mais conhecido como: O namorado de Cláudia Lino.
                Por esse importante motivo, o amor de Valdir por Cláudia permaneceria escondido para sempre. Mas ele não se importava, porque ter aquela amizade era o bastante, e extremamente necessário.
                Enquanto fossem amigos, Valdir continuaria feliz.
                - Desculpe – ele sussurrou envergonhado, mas mantendo o sorriso – Eu não estava em mim.
                - Sinto muito pelo Ronaldo – Cláudia disse – Ele era muito amigo seu, não?
                - Sim, ele era – ele pensou por alguns momentos, mas rapidamente voltou a si – Você não foi ao enterro, não é?
                - Fui sim, com o Rick.
                 - Ah...
                Valdir sentiu-se ainda mais envergonhado. O sorriso já não estava mais exposto e ele certamente não desejara ter ouvido o nome ‘Rick’.
                 - Com licença – a professora disse em voz alta, encarando-os – Creio que vocês já conhecem as normas da escola, que proíbe o relacionamento íntimo entre alunos. Ou vocês não sabiam?
                A classe inteira começou a rir em baixas gargalhadas, enquanto Cláudia e Valdir sorriam um ao outro, claramente envergonhados por aquela situação.

               



                As horas se passaram e o sinal tocou:
                Era hora do intervalo.
                Todos os alunos começaram a sair de suas salas, caminhando pelos corredores e indo em direção ao pátio escolar.
                O corredor estava lotado, alguns jovens guardavam seus cadernos nos armários. Um deles era Valdir, que limpava sua mão ao colocar os livros que já usara dentro do armário.
                Ao fechá-lo, deparou-se com Guilherme surgindo entre a multidão, vindo em sua direção. Então, ele esperou que seu amigo parasse à sua frente. Porém, isso não aconteceu.
                Guilherme passou direto, sem olhar aos arredores. Estava com a aparência bastante séria e triste por sinal.
                - Ei, GUILHERME! – Valdir gritou, chamando a atenção de seu amigo que, envergonhado, parou e olhou seriamente para ele.
                Valdir aproximou-se dele e começou:
                - Olha, eu sei que está sendo difícil pra você. Também está sendo difícil pra mim. Mas eu não...
                - Já te chamaram de assassino?! – Guilherme interrompeu com olhos lacrimejantes e cheios de ódio – PORQUE ELES JÁ ME CHAMARAM DE ASSASSINO! TODOS ELES!
                Valdir arregalou os olhos ao ouvir tais palavras. Não era possível que a impertinência dos alunos estava chegando tal nível.
                - Eu não acredito! – Valdir exclamou – Não pode ser!
                De repente, Danilo e Sérgio apareceram passando pelo corredor, gritando indiretamente para Guilherme:
                - ASSASSINO! HÁ UM ASSASSINO ESTUDANDO ENTRE NÓS, GALERA! ASSASSINO! ASSASSINO!
                Ao chegarem bem próximos de Guilherme, eles apontaram os dedos e gritaram mais alto:
                - ASSASSINO!
                Em alguns segundos, metade dos alunos do corredor começou a gritar a mesma palavra, e então Guilherme olhou para Valdir e disse desesperadamente:
                - NÃO AGUENTO MAIS! NÃO AGUENTO MAIS ISSO!
                E então ele saiu correndo, esbarrando-se em vários alunos que gritavam em seus ouvidos.
                - Esses trouxas gostam de provocar – Joyce disse enquanto aproximava-se de Valdir.
               
                - É. Vamos ver até quando isso vai durar.
                - Vamos para o refeitório. Estou morrendo de fome.
                Valdir assentiu e, em meio todo aquele alvoroço, saíram em direção ao refeitório
               
                O lugar era totalmente espaçoso, como uma praça de alimentação de um shopping Center. A faladeira era tamanha que assemelhava a zumbido de abelhas em uma colméia. Os alunos iam e voltavam, alguns permaneciam sentados e outros de pé. As vestes que alguns usavam eram veementes caras e de grife, certamente compradas em lojas conhecidas e freqüentadas por famosos da atualidade. Tinha desde a patricinha ignorante até o playboy arrogante que, como muitos outros, usava uma jaqueta do time de futsal.
                Em meio todos aqueles seres misturados, Valdir estava sentado junto a Joyce. Estavam lanchando um hambúrguer e tomando leite integral.
                - Dia chato... – Joyce comentou enquanto tomava o leite com um canudo – Eu pensei que os primeiros dias de aula seriam empolgantes, mas...
                - Não estão sendo como planejávamos – Valdir concluiu, perfurando o pão com o garfo – Se eu pudesse ficaria em casa o resto da semana. Mas meu pai paga muito caro por isso...
                - Eu que o diga. Minha mãe trabalha até nos finais de semana para que eu continue aqui. A vida é difícil.
                De repente, toda aquela multidão calou-se com a chegada de três garotas. Os passos eram totalmente sincronizados e elas andavam como se estivessem desfilando na passarela. As vestes eram branca e rosa e por cima uma jaqueta totalmente branca com um emblema: Tigres Brancos FC.
                - Lá vem – Joyce debochou a Valdir enquanto observava o aproximar delas – Odeio elas!
                A loira era Nicole Figueiredo, a morena se chamava Cintia Sales e a ruiva era a Carla Sandoval. Ambas eram totalmente lindas e possuíam um corpo de dar inveja a muitas atrizes e modelos famosas. Elas eram classificadas pelos garotos como: Modelos Teens.
                - Adoro elas – Valdir sussurrou ao comê-las com os olhos.
                Todos, praticamente todos os homens que ali estavam não desgrudavam, não piscavam os olhos daquelas três tigresas. E elas sabiam disso e faziam questão de ficarem sensuais, jogando o cabelo para o lado, sorrindo e cruzando as pernas como se estivessem em um camarim de fotografia.
                O lugar ficou totalmente em silêncio e, então, uma delas começou:
                - PESSOAS – disse Nicole - ESTAMOS AQUI PARA CONVIDÁ-LOS A ASSISTIR NOSSO ENSAIO DE COLEOGRAFIA. O JOGO DOS TIGRES CONTRA OS URSOS É AMANHà E HOJE É O ÚLTIMO DIA DE ENSAIO. E EU SEI QUE OS GAROTOS NÃO VÃO PERDER A OPORTUNIDADE DE NOS VEREM QUASE NUAS... PROMETO QUE FAREI UM SORTEIO DE QUEM VAI GANHAR MEU SUTIÃ. SE AS GAROTAS QUISEREM, PODEM IR. MAS NÃO VÃO FAZER FALTA! É ISSO! TCHAU, FAVELADOS!
                E elas saíram da mesma forma que entraram: Desfilando.
                Em alguns segundos, a faladeira voltou.
                - Elas se acham as ‘tops da escola’! – exclamou Joyce com um pingo de inveja – Ah, EU ODEIO ESSAS VAGABUNDAS!
                - Bem, elas são ricas – disse Valdir, sorrindo e bebendo o leite – Elas podem fazer e ser o que quiserem. E elas são particularmente lindas...
                O encarar de Joyce era tão intimidador quanto os olhos de uma coruja.
                - Se você não percebeu... Você está conversando com uma mulher e não com um homem, Valdir... Então, por favor, não comente sobre mulheres quando eu estiver por perto!
                Valdir riu. Mas aquele sorriso durou pouco quando ele viu, pela porta da entrada, aqueles três garotos se aproximando.
                Seus olhos fecharam-se, ele bateu o copo de leite com força na mesa e exclamou:
                - Ah, não!
                - Ah, sim! – Joyce replicou com ênfase e um sorriso no rosto – Achou que só as garotas são gostosas aqui? Pois se enganou. Os meninos também são muito GOSTOSOS!
                Joyce estava se referindo exatamente aos três garotos que caminhavam lentamente e em conjunto em direção a eles. Ambos estavam trajados a uma jaqueta de couro preta com a etiqueta: TIGRES BRANCOS FC.
                Rodrigo, Bruno e Lucas eram as versões masculinas de modelos. Rodrigo era moreno-claro, um rosto completamente liso e perfeito, seus olhos eram castanhos e sua boca era formada por uma linha reta. O cabelo era curto, pois o que se destacava na verdade eram os músculos fortes de seu braço.
                Bruno era o mais alto, porém também era totalmente definido. Tinha o cabeço extenso e liso – de dar inveja a muitas garotas -. Era branco, quase americano, e seus olhos eram verdes. Ele usava aparelho, mas não era um problema e acabava dando ainda mais charme às garotas.
                Lucas era o tipo que não se destacava. Não era de boa aparência, mas se vestia bem. Seu cabelo era curto e seu tom de pele era pardo. Tinha algumas espinhas, mas nada que um bom dinheiro não resolvesse. Mesmo sendo o mais feio dos três, era o garoto mais rico da escola. E por isso ganhava todos os créditos possíveis, contando com a popularidade entre as garotas.
                Os três eram jogadores de futsal dos Tigres e eram como policiais dentro da escola: Tinham toda a autoridade possível.
                Em alguns segundos, os gritos e berros começaram a ecoar pelo refeitório. As meninas não resistiram e começaram a se levantar e correrem em direção a eles. Porém, eles não permitiam que ninguém os tocasse, somente os que eles fossem com a cara.
                - ESCUTA AÍ, GALERA – gritou Lucas - AMANHÃ VAI COMEÇAR O CAMPEONATO LOCAL! E OS TIGRES VÃO GANHAR! VÃO GANHAR!
                As pessoas acenavam para ele como se estivessem em um show do U2.
                - EU QUERO VER TODO MUNDO LÁ, POBRES E RICOS, BONITOS E FEIOS... TODO MUNDO! VAMOS TORCER, VAMOS VENCER ESSE JOGO! É ISSO QUE EU QUERO DE VOCÊS! AMANHÃ É O DIA! DIA DA GLÓRIA!!
                E os aplausos, gritos e pulos eram vistos e ouvidos por Valdir Luciano, que apenas observava paralisado àquela cena. Enquanto, ao seu lado, Joyce entrava no ritmo e gritava também.
                - Era só o que me faltava... – ele debochou.


               
 Quando tantas pessoas estão solitárias o quanto parecem, seria imperdoavelmente egoísta se sentir solitário sozinho...


                Os fones de ouvido estavam plugados entre as ouvidos de Guilherme Nascimento. Seus olhos observavam o aparelho de mp3. Estava escutando uma série de músicas. Músicas que Ronaldo costumava ouvir quando estavam em sua casa. As músicas eram pesadas com um tremendo rock pesado. Porém, o sentimento que Guilherme tinha era uma nobre nostalgia, não da música, mas de seu amigo.
                Ele estava sentado sobre as escadarias da escola: Um lugar que sempre ficava vazio e era ideal para quem quisesse expandir a mente, pensar e refletir. Enquanto todos estavam no refeitório, Guilherme permanecia encolhido no canto dos degraus, escutando músicas que não eram sentimentalistas, mas que o faziam querer chorar.
                De repente, pés começaram a descer as escadas e se aproximarem dele até pararem.
                Era Valdir que, ao perceber o estado de seu amigo, sentou-se ao lado e o observou por alguns segundos. E naqueles segundos pudera perceber o quão ele estava sofrendo. Parecia que Ronaldo morrera ontem, há algumas horas, minutos, segundos, naquele exato momento...  Guilherme podia sentir a batida do carro com o ônibus, o airbag salvá-lo do impacto e Ronaldo bater a cabeça fortemente contra a vidraça da janela, machucando- o e provocando um trauma cerebral.
                Ronaldo Nunes estava morto. Guilherme também estava, mas por dentro. Já não sentia mais prazer na vida, não queria mais se divertir como antes. Já não tinha todo aquele espírito de adolescente rebelde. Sentia-se sozinho, solitário num mundo obscuro sem luz, esperanças...
                De repente, sentiu uma mão tocar seu ombro e levantou sua cabeça. Percebeu que Valdir estava ali e aos poucos percebeu que não estava completamente sozinho. E não estava.
                Ao olhar para seu melhor amigo, sentiu uma luz acender e resplandecer em seu coração. E então sentiu um conforto jamais sentido antes, um calor cômodo, esperançoso...
                Sim.
                Ele sentiu que ainda havia esperança. Esperança de ser feliz, viver bem e fazer o melhor. E ele faria isso, em memória de seu grande amigo.
                -... Você não está sozinho, Guilherme. Nunca esteve, não está e jamais estará – Valdir disse suavemente,com olhos brilhantes – Eu estou contigo, Deus está contigo, seus amigos estão contigo...
                Os olhos de Guilherme se encheram...
                - ... Ronaldo está contigo...
                E então, as lágrimas escorreram em profusão e o abraço dos dois amigos foi forte e prolongado.
                - Obrigado, cara – Guilherme disse aos soluços – Você é um grande amigo!
                - Você também é – disse Valdir sorrindo.
                E então, Guilherme emprestou um fone de ouvido a Valdir e os dois permaneceram aquele fim de intervalo escutando as melhores músicas do mundo: Aquelas que o faziam lembrar-se de Ronaldo Nunes.


                O mundo está repleto de pessoas que se amam...
               
                O intervalo havia acabado e Valdir estava voltando para a sua sala. Passando pelo corredor, ele se deparou com Cláudia Lino sozinha, mexendo em seu armário. Por um momento, ele pensou em falar com ela...

                Há aquelas pessoas que nasceram prontamente para se amar umas às outras...

                Valdir abriu um largo sorriso e, antes que se aproximasse de Cláudia, foi surpreendido pelo surgimento de Rick – o namorado dela. E o sorriso sumiu automaticamente.

                E há aquelas que precisam das mãos do destino para poderem perceber que tem algo em comum, e assim se amarem...

                Rick e Cláudia se beijaram prolongadamente, enquanto uma lágrima escorreu do olhos esquerdo de Valdir, que se virou e foi embora.

                Não importa quanto tempo dure, quantas pessoas passem perto de você, quantas pessoas te beijem...
                No final, somente uma pessoa será a certa...
                E só ela poderá te amar...



Segunda Parte -
                Se você ficar procurando razões pra não ficar com alguém, você sempre vai encontrá-las, às vezes é preciso deixar as coisas fluírem por um momento e dar ao seu coração o que ele merece.
                Eu não sei se amo Cláudia Lino. Às vezes parece que sim, que todas as vezes que a vejo sinto como se ela olhasse para mim, prestes a correr em meus braços e me beijar, e me dizer:
                - É você, Valdir, a pessoa com quem eu quero estar!
                Mas então o Rick, seu namorado, surge e a beija... E então eu percebo que talvez ela não seja, jamais será a pessoa certa para mim.
                Então, qual seria a pessoa certa para mim?
                Qual a pessoa certa para você neste momento?
                Ela é próxima a você? São muito amigos?
                Se você não tem certeza, deixe o tempo lhe dizer. Mas vai uma dica:
                Às vezes, a pessoa certa pode estar bem ao nosso lado... E, cegos que somos, não percebemos...


                - Pronto! – gritou Joyce a Valdir e jogando o lápis por sobre o caderno aberto – Terminei! Viu, senhor espertinho, eu sou muito mais estudiosa do que você...
                Aos risos e conformado pela derrota, Valdir fechou seu caderno e disse:
                - Você sabia que ganharia de mim, professora Joyce. Afinal, eu sou péssimo em matemática.
                - É péssimo, mas não burro. Se estudar bastante, vai conseguir.
                - Bom, eu sou um péssimo estudioso. Ainda mais quando estou sozinho. Não consigo me concentrar.
                Os olhos de Joyce se fecharam e ela pensou por alguns segundos. Depois disse:
                - Okay, burrinho, eu vou me certificar de que você não perca a concentração.
                Valdir rapidamente olhou para os seios cobertos pela blusinha de Joyce e disse num tom sarcástico:
                - Bem, eu acho que vai ser muito difícil com esses dois amiguinhos grandes olhando para mim enquanto estudo.
                - Ah, que ousadia – disse Joyce num tom calmo, dando um leve empurrão em seu amigo – Como pode falar assim com uma garota?
                - Eu tenho créditos com você. Somos velhos amigos. Esqueceu que já nadamos juntos e nus na piscina da sua tia quando éramos pequenos?
                - Poupe-me dessa lembrança... Ainda me lembro do seu júnior urinando dentro da água enquanto eu nadava...
                Valdir ficou calado, imaginando aquela nostálgica época, depois riu e disse:
                - Bons tempos, não?
                - Sim, nojentos... Mas foram bons tempos... Agora, vamos. Esqueceu que estuda em uma escola de ricos? Temos que ser pontuais!
                - Certo.
                Os dois se levantaram das cadeiras da cozinha na casa de Valdir. Enquanto Joyce andava à sua frente, ele a observava com olhos brilhantes e um sorriso estampado no rosto. Estava feliz por ainda ter uma boa amizade contigo.

                
Às vezes, a pessoa certa pode estar bem ao seu lado...


                O andar era semelhante ao de modelos desfilando a passarela do Fashion Week. Elas se sentiam como se a estivessem fotografando-as, como se sentisse o flash tocar seus rostos, como se as luzes deslumbrantes estivessem focadas em seus corpos...
                Mas, obviamente, tudo aquilo era uma pura ilusão das meninas de quinze e dezesseis anos. Quando realmente voltavam a si, percebiam que estavam apenas andando pelos corredores do colégio Kakunosuke Hasegawa. Estavam bem vestidas, na verdade uniformizadas com o conjunto dos TIGRES BRANCOS – o time de futsal da escola.
                As saias eram completamente curtas, bastando apenas ajoelhar-se para enxergar tudo – tudo mesmo -. As blusinhas eram exageradamente justas e já faziam o busto jovem sobrepor e aparecer com tamanha exclusividade.
                Nicole e suas amigas – Cintia e Carla – definitivamente não estavam dando a mínima com o futuro placar do jogo contra os URSOS, contanto que toda a torcida – e até jogadores – estivesse prestando atenção em seus decotes.
                Enquanto continuavam a andar pelos corredores, o charme fazia com que os garotos parassem seus afazeres e ficassem boquiabertos com tanta beleza em conjunto, enquanto as garotas mordiam os lábios e invejavam toda aquela popularidade juvenil.
                - Ah, não tem ninguém bonito e bem vestido por aqui! – exclamou Cintia Sales, demonstrando em seu rosto moreno uma expressão enojada – Não sei porque ainda estudamos aqui!
                - Tantas pessoas feias assim só nos faz ainda mais populares e únicas aqui, amiga – Carla disse, enquanto jogava os cabelos em ambos os lados – Nós somos as únicas gostosas dessa escola e ganhamos todos os créditos. Esse é o motivo pelo qual continuamos aqui: Somos a atenção do Kaku.
                - Não – Nicole discordou ao ouvir o que suas amigas disseram – Eu sou a atenção da escola, e a mais gostosa também! Vocês duas são apenas acompanhantes que acham que ficarão populares... Na verdade são, mas não tanto quanto eu. Conformem-se com isso.
                Cintia e Carla se olharam e depois encararam Nicole com desdém. Ela, por sua vez, avistou um garoto aproximando-se e disse indiretamente:
                - Até que enfim eu encontrei alguém bonito, bem vestido e gostoso que não seja eu...
                A pessoa a quem estava se referindo era Lucas Souza, o capitão do time de futsal e garoto mais rico da escola. A popularidade dele era tamanha que era respeitado até pelos professores. Ele estudava quando queria, fazia o que dava na telha, contanto que ganhasse todos os jogos do campeonato – o que ultimamente estava dando certo.
                - Oi, meu atleta – Nicole disse sensualmente ao pará-lo no meio do caminho, deslizando suas mãos em sua blusa do time – Está pronto para hoje?
                Com um sorriso aberto, o garoto rico de pele parda respondeu:
                - Estou. Vamos ganhar o jogo hoje, não se preocupe. Espero que torça por nós.
                Com um olhar sarcástico e os dentes mordendo os lábios, Nicole disse em seus ouvidos:
                - Eu não estava falando do jogo... Se é que você me entende...
                Lucas riu e ficou cara a cara com ela, com os lábios quase se tocando um ao outro:
                - Eu entendi completamente... Depois do jogo, então, porque se for antes... Eu vou acabar ficando exausto para jogar...
                - Okay...
                Antes que ele tentasse beijá-la, ela se desviou e disse:
                - Até mais, meu Christiano Ronaldo das quadras...
                E então, Lucas riu mais ainda. Certamente, ela o estava provocando.
               

                A porta de ferro daquele armário fora fechada fortemente e, ao fechar, Valdir deparou-se com a aparência um tanto irritada de Joyce.
                - Posso saber o que houve? – ele perguntou um tanto curioso.
                - Eu NÃO ACREDITO que as aulas foram canceladas para que TODOS possam assistir a um maldito de um jogo idiota! – ela respondeu com quase toda a raiva que continha por dentro.
                Valdir a tocou de leve nos ombros e disse com um meio sorriso:
                - Calma...
                E, então, ela finalmente despejou toda a sua raiva de uma só vez:
                - CALMA O CARAMBA! EU ODEIO FUTEBOL! ODEIO! ODEEIO! E NO DIA EM QUE EU ESTUDEI PARA FAZER UMA MERDA DE UMA PROVA , NÃO... EU TENHO QUE ASSISTIR A UM JOGO CHEIO DE PIVETES CORRENDO DE LÁ PRA CÁ, SUANDO COMO MACACOS FEDORENTOS! AAAAARGH!
                - Pensei que gostasse de vê-los jogando...
                - Eu gosto – Joyce disse com desdém – Mas eu tenho muitos trabalhos a entregar e assistir a um jogo, enquanto eu poderia estar terminando meus afazeres, me deixa completamente maluca. Não acredito que estou pagando tão caro para ver uma bola indo pra lá e pra cá...
                Valdir a envolveu em seus braços e disse num ar confortante:
                - Relaxa... É porque hoje é a estréia. Até que cheguemos à final, se chegarmos... Os próximos jogos não serão obrigatórios de se assistir. E você vai ver o jogo comigo, vamos nos divertir muito. Há tempos não fazemos isso...
                Ao ouvir tais palavras, a garota sorriu novamente e teve nostalgia dos velhos tempos.
                - É verdade... – ela disse – Vai ser bom a gente se divertir novamente. Só espero que você não urine na quadra, como fez na piscina...
                Valdir riu e disse:
                - Claro que não. Não deixaria os outros me verem fazer xixi em público. Só você pode me ver fazendo.
                - Ah, seu...
                - Brincadeira! Agora vamos para a quadra, antes que fique lotada e tenhamos que ficar de pé.
                - Tudo bem, senhor mijão!
                E então, Joyce e Valdir saíram juntos, abraçados, em direção a quadra estudantil.


              
  A multidão era grande, enorme. O barulho era ensurdecedor. Os alunos que estavam na arquibancada pulavam, gritavam e batiam palmas. Os berros e reverências eram direcionados ao time de futsal da E.E.Kakunosuke Hasegawa.
                - TIGRES! TIGRES! TIGRES! – gritava a multidão, com bandeiras azuis e brancas indo e vindo, sendo erguidas pela pequena brisa.
                A quadra era enorme e tinha todo o espaço necessário para todos os alunos da escola adentrar e se acomodarem. Claro que eles nem sequer permaneciam sentados. A energia era grande e era a única coisa que os jogadores do time pediam à torcida. De um lado, havia as pessoas que torciam pelos TIGRES. Do outro, a pequena – quase nula – multidão que torcia pelos URSOS.
                Valdir e Joyce gritavam arduamente, com toda a voz, o nome do time. Estavam exatamente a poucos centímetros da quadra, que era rodeada por grades de ferro, o que não importava, pois a multidão as empurrava com toda a força. Não seria surpresa se a qualquer momento as grades fossem desabadas e a boiada entrasse quadra adentro.
                - VAI, TIGREEEES! – Valdir gritou com toda ênfase possível, erguendo a bandeira do time – ACABEM COM ESSES MALDITOS URSOS!
                - ACABA COM ELES, DROGA!
                Ao ouvir tais gritos conhecidos, Valdir virou-se para o lado e avistou sua amiga Joyce. Surpreendeu-se. Há pouco ela estava totalmente calada, quieta, enraivada por estar no meio de toda aquela multidão louca por futsal, e agora estava berrando com todo coração, quase estourando as cordas vocais, o nome do time que tanto odiava.
                - Quer dizer então que a menina que odeia o time está torcendo e gritando por ele... – Valdir sussurrou aos ouvidos da garota, sorrindo.
                Joyce contagiou-se com o sorriso e acabou rindo, gritando:
                - EU NÃO ESTOU OUVINDO NADA! NADA! SÓ QUERO QUE OS TIGRES VENÇAM HOJE! VAI, TIGRES! TIGRES! TIGRES!
                A energia entrara em seu corpo como um demônio que só sai através de exorcismo. Seus braços dançavam e batiam em todos que estivessem ao redor, inclusive Valdir Luciano, que afastou-se para não ser mais atingido no estômago.
                Em poucos segundos, Joyce virou-se para o resto da torcida e gritou:
                - VAMOS, SEUS LERDOS, GRITEM O NOME DO TIME DE VOCÊS! GRITEM! TIGRES, TIGRES,TIGREEES!
                E, então, toda a platéia entrou no ritmo e começaram a gritar conforme a regência da garota.
                Dentro da quadra, as líderes de torcida dançavam em sincronia, fazendo acrobacias e coreografias espetaculares – sensuais. A líder, Nicole, estava com o vestido mais curto do mundo, quase nua: Um saia tão justa que quase terminava na cintura, uma blusinha curta e apertada para mostrar o corpo desenvolvido da garota e o cabelo hidratado totalmente solto, dançando com o vento.
                Ela comandava a coreografia e, mediante suas regências, Cintia, Carla e as outras dançavam e gritavam em uma única voz:
                - O-MAIOR-DE-TODOS-OS-TIMES...VAAAAIIII-TIGREEESS!!!!
                As garotas dançavam discretamente, porém Nicole fazia questão de mostrar seu corpo sensualmente, abusadamente, rebolando mais do que deveria para ouvir os altos gritos e as palmas dos marmanjos que estavam na arquibancada.
                - Ah, que vadia! – Joyce exclamou ao observar tal cena que inundou seus olhos – Ela não está nem aí pro jogo. Só quer mostrar seu corpo aos caras. Que galinha... Você não acha, Valdir? Valdir?... Val-dir!
                Ao virar-se para gritar com seu amigo, percebeu que os olhos dele estavam inteiramente direcionados às ‘coreografias’ de Nicole. Não era de menos, Joyce podia jurar que aquela era a primeira e única vez em que ele vira uma garota ficar quase nua à sua frente. Aquelas coreografias estavam quase se tornando um famoso striptease.
                - Ah, Deus, tenha de piedade... – Joyce sussurrou.

                De repente, todas as atenções da platéia se direcionaram para os corredores de entrada. As luzes focaram as portas e o locutor gritou:
                - VOCÊS ESTÃO PRONTOS? ESTÃO REALMENTE PRONTOS PARA ASSISTIREM A UM JOGO ESPETACULAR?!
                - SIIIIMMM... – a platéia respondeu com toda a energia.
                - HOJE É O INÍCIO DO CAMPEONATO LOCAL E O PRIMEIRO JOGO DOS TIGRES CONTRA OS URSOS! OS TIGRES VIERAM DE MUITAS VITÓRIAS E GLÓRIAS, ENQUANTO OS URSOS AINDA ESTÃO LUTANDO PARA MANTEREM A INTEGRIDADE E O RESPEITO ENTRE OS TORCEDORES! SENHORAS E SENHORES, ALUNOS E ALUNAS, PROFESSORES, DIRETORES... A ESCOLA KAKUNOSUKE HASEGAWA TEM O PRAZER DE APRESENTAR O TIME CANDIDATO Á CAMPEÃO DESSA TEMPORADA...
                ‘COM VOCÊS: os TIGRES BRANCOS!!

                Ao pronunciar tal nome, a quadra foi tomada pela gritaria, aplausos, agitação de todos os alunos e professores que ali estavam. A escola tremeu como se houvesse um terremoto. Muitos ficaram surdos, outros ficaram sem voz... Mas mesmo assim, reuniram forças para gritar com todo o coração pelo time daquela escola, um time de tradição, que era mais do que favorito para vencer aquela temporada. E certamente venceriam através de tantos votos de confiança...
                - TIGRES! TIGRES! TIGRES! – a platéia continuava a gritar incansavelmente.
                Em seguida, um a um, os jogadores apareceram uniformizados com camisas brancas com bordas azuis, calções brancos, meias brancas e chuteiras brancas. Tudo era praticamente branco naquelas vestes. Afinal, eles eram os TIGRES BRANCOS.
                Entre os onze jogadores que entravam por aquele corredor estava Rodrigo, Bruno e o capitão Lucas Souza, que, ao surgir, foi elogiado e aplaudido com pulos e berros de garotas desesperadamente apaixonadas e enlouquecidas pelo garoto rico e popular.
                - LINDO, TESÃO, BONITO-E-GOSTOSÃO! – as meninas gritaram, além de alguns homossexuais. Joyce também entrara no embalo – LINDO, TESÃO, BONITO-E-GOSTOSÃO!!
                E mesmo com os ouvidos quase estourando pela gritaria não só de todos, mas principalmente de Joyce, Valdir estava feliz. Aquele momento estava sendo divertido e bastante descontraído. Depois de tudo o que passara, era umas das melhores coisas que haviam ocorrido.
                Porém, enquanto se sentia inteiramente feliz, rapidamente lembrou-se de Guilherme Teixeira – seu bom e velho amigo -. Onde estaria ele? Será que estava no meio daquela multidão?
                Ou, então, estaria num dos corredores vazios e frios da escola, pensando na tragédia que acontecera há alguns dias. Ou, talvez, nem viera à escola. Talvez nem viria mais... Talvez ficaria preso dentro de casa, abalado, pensando em como pode perder uma vida tão próxima a ele... A vida de um amigo...
                Rapidamente, Valdir retirou o celular do bolso e discou os dígitos do celular de Guilherme. Porém, o telefone apenas chamava e seu amigo não estava atendendo.
                Naquele momento, o garoto sentiu tristeza e remorso de saber onde poderia estar ele. E como não conseguia contatá-lo, decidiu enviar-lhe uma mensagem:
                “GUILHERME, ONDE VC ESTÁ?
                APARECE, VEM AQUI NA QUADRA. O JOGO ESTÁ PRESTES A COMEÇAR. NÃO SOME, MANO. ABRAÇ – VAL.”

                E, então, ele pressionou a opção ‘Enviar’ e guardou o aparelho. Olhou para a quadra, mas seus pensamentos estavam direcionados ao seu amigo, preocupado e angustiado de como ele poderia estar.

            
    Não há desespero tão absoluto como aquele que vem com os primeiros momentos de nossa primeira grande tristeza. Quando ainda não sabemos o que é ter sofrido e tiver se curado. 
Ter se desesperado e recuperado a esperança.
               

                O celular vibrou fortemente, emitindo um abafado som. O aparelho estava no chão e Guilherme pudera ver as ligações perdidas de Valdir, além da última mensagem. Porém, ele não dava à mínima, não se importava com as mensagens e ligações no celular. Sua mente estava distante, seus olhos decaídos estavam vidrados e sua cabeça encostada sobre seu armário escolar. O corredor estava totalmente vazio, apenas com o ecoar dos gritos vindos da quadra. O brilho do sol penetrava as janelas de vidro e tocavam seu rosto, queimavam seus olhos, mas eles não piscavam. Pareciam não se importar com aquele imenso brilho.
                Seus amigos já haviam tentado reanimá-lo, mas só ele sabia o que estava sentindo. Por mais palavras bonitas de consolo que Valdir e os outros lhe disseram, seus pensamentos o acusavam de ser um assassino, de tirar a vida de uma pessoa, ainda mais um amigo seu. Fazia dias que Ronald Nunes morrera, mas as imagens ainda estavam frescas em sua memória.
                Ele olhou para o teto em um leve movimento. Estava procurando por algo, por alguém...
                - Ronaldo... – ele sussurrava, de olhos fechados e um meio sorriso – Onde você está...?
                A água cristalina das lágrimas misturou-se com o brilho do sol, tornando-se um choro brilhoso... Os lábios dele começaram a tremer, seus dentes rangiam...
                - Você precisa voltar, Roni... – sussurrou novamente, agora com dor nas palavras.
                O celular voltou a vibrar: Era Valdir ligando novamente, preocupado. Guilherme ignorou, levantando-se aos poucos, enfraquecido, se apoiando nos armários.
                Pegou aquele celular, o observou por alguns segundos, pensou em atender à ligação... Mas não estava disposto a fazê-lo.
                - Você sempre foi um bom amigo – ele disse enquanto observava o nome de Valdir exposto no aparelho – E eu nunca te escutei... Minha culpa... Por tudo...
                Em um ato repentino, Guilherme atirou o celular contra as janelas, quebrando as vidraças, emitindo um alto barulho de cacos de vidro caindo ao chão. A raiva, o desespero, o medo, a dor... Todos os maus sentimentos estavam reunidos no coração de Guilherme, e apenas lhe pediam uma única coisa. Algo que acabaria de vez com todo aquele sofrimento... Que talvez o levasse até Ronaldo novamente...
                E Guilherme, desesperado, estava disposto a fazê-lo...


               
 As palmas ainda eram evidentes, mas a torcida agora havia se acalmado para assistir ao início do jogo, que era em alguns minutos. Valdir desligou definitivamente o celular, após tantas tentativas de contatar seu amigo.
               
 - Droga – Valdir disse a Joyce, com ar de preocupação – Acho que o Guilherme não veio.
                Joyce sequer escutou o que seu amigo dissera. Seus olhos e energia estavam interligados ao jogo que estava prestes a começar.
                Os gritos estavam ficando cada vez mais altos. Todos estavam chamando pelo nome do time. Porém, Valdir era o único que, cada vez mais, estava se distanciando daquela multidão unida e apenas concentrando-se no medo e receio de onde Guilherme poderia estar e o que estaria fazendo. Sua intuição dizia que algo muito ruim estava prestes a acontecer e, mesmo que não soubesse o que era, já era motivo para deixá-lo quase abismado.
                Mesmo sabendo que Joyce não escutaria, pois estava concentrada ao jogo, Valdir disse:
                - Joyce, eu vou sair um pouco. Logo mais eu volto.
                E depois saiu em meio àquelas pessoas aglomeradas.

                O juiz entrou ao centro da quadra, cumprimento os capitães de ambos os times, observou o tempo, ativou o cronômetro...
                O silêncio pairou por alguns segundos naquele lugar...
                E então...
                O apito foi assoprado a toda força.
                - COMEEEÇA O JOGOOO!  - anunciou o locutor, e então o time dos TIGRES iniciaram o toque de bola, em meio a gritos e vaias das torcidas.
                - VAAAI TIGRESSS! – Joyce gritou e, ao olhar para o lado, percebeu a ausência de seu amigo – Valdir?
                Lucas estava com a posse de bola. Olhou à sua frente e notou a aproximação do adversário, que estava com a intenção de tomar-lhe a bola. Rapidamente, ele tocou para o companheiro mais próximo: Rodrigo, que protegeu-se com estendendo os braços para que nenhum jogador adversário pudesse se aproximar.
                O apoio da torcida continuava energeticamente forte. A bola era passada de pé em pé pelos jogadores dos TIGRES F.C, cautelosamente, não permitindo que o adversário pudesse tomá-la de seus pés.
                Ao mesmo tempo, os passos de Valdir eram lentos e ele caminhava por um corredor quase sem fim da escola. Seu coração batia fortemente, junto com o medo e apreensão do que poderia acontecer, acontecido, ou estar acontecendo com seu amigo. Seus olhos observavam o local vazio e cheio de armários.
                De repente, parou exatamente de frente para as janelas quebradas, onde o brilho do sol entrava. Observou os cacos e vidro jogados ao chão, junto de um objeto preto, um aparelho, celular...
                O celular de Guilherme...
                Ao pegá-lo, percebeu que só havia mensagens e ligações suas que seu amigo não respondera. Percebeu aquelas vidraças destruídas e o celular jogado e deu-se conta de que Guilherme havia estado ali, e que fizera algo repentino, por impulso... Algo por motivos tristes...
                Guilherme estava fora de si, Valdir podia deduzir, e só Deus sabia o que ele poderia fazer naquele estado depressivo...
                Porém, a questão maior era:
                Onde Guilherme poderia estar?
               
               
A vida vem a nós saindo da escuridão e existem momentos em que você deve ir atrás dos medos e enfrentá-la... 

Rodrigo estava com a bola de frente para o gol adversário. A platéia ficou em silêncio, esperando o melhor acontecer. Porém, antes que pudesse chutar, Rodrigo fora atingido por um dos jogadores adversários, sendo brutalmente derrubado ao chão, fazendo toda a torcida gritar, vaiando o time contra...

         
Uma vida pode surgir em você de fora da escuridão, quem você ira escolher para encarar isso,poderia ser uma pessoa que você confia,ou ser sábio, e o amor que eles tem por você ajudará a te guaiar até a luz, ou então você se perdera nessa escuridão, será que te darão escolhas nobres?


Valdir corria desesperadamente pelo corredor central do colégio, com a respiração forçada, arfando, desesperado...

 
         
Ou será que essa pessoa é alguém que está testando, alguem novo. 

A vida exige que você saia para fora da escuridão,quando sairmos, existe uma pessoa na sua vida com quem você pode contar. 


Lucas estava com a bola em posse. A torcida elevou o tom de gritaria. Joyce já não estava tão interada ao jogo, perguntando-se onde Valdir poderia estar. Então, desviou-se dos alunos, subiu as escadas e foi em direção a saída da quadra para procurar por seu amigo...

Alguém estará te observando quando você tropeçar e cair...


Valdir já estava na saída da escola... Então, observou tal cena... Parou, dilatou os olhos, a boca se abriu num ar de medo e desespero. Elevou suas mãos à cabeça e gritou:
- NÃO!!
Um carro estava parado em meio à calçada, com manchas de sangue na frente. O motorista estava apavorado e pedia por ajuda. Abaixo do carro... Os braços e pernas de alguém que Valdir conhecia...
Era Guilherme...


E nesse momento, te dará força para encarar seus medos sozinho.
            

    Lucas estava frente a frente com o goleiro adversário...

                Valdir ajoelhou-se...

                A torcida ficou em silêncio...

                Joyce encontrou Valdir e deparou-se com tal horrível cena...

                Lucas chutou fortemente a bola...

                Joyce puxou Valdir para trás, impedindo-o de aproximar-se do local do acidente...

                A bola entrou... A platéia foi à loucura...

                ... E, então, enquanto uma multidão gritava de alegria, apenas um ser solitário gritava de dor e desespero:
                

- GUILHERMEEEE!! - gritou Valdir Luciano.