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sábado, 26 de fevereiro de 2011

Quer Teclar Comigo Novamente? (2)

Capítulo 2:

                Jéssica teclava no Messenger através da internet. Seus exatos quinze anos eram camuflados veementes em suas fotografias quase eróticas, postadas em sites de relacionamentos e redes sociais. Seus pais não sabiam dessa sua façanha e ela estaria disposta a jamais contar.
                Além de estar conversando com amigos – e desconhecidos – no MSN, observava discretamente as fotos de seus contatos no Orkut – um site de relacionamentos gratuito que oferece ao internauta a chance de conhecer novas amizades através de fotografias, mensagens... É um espaço aberto principalmente a todos os que se sentem solitários no cotidiano e precisam se juntar a outros solitários, e assim tornam-se amigos – mesmo que, aparentemente, nunca tenham se encontrado frente a frente.
                Graças as suas fotografias de biquíni e sutiã publicadas no site, muitas pessoas – homens na maioria, mas havia algumas mulheres que também apreciaram suas fotos – enviavam-lhe convites para que ela os adicionasse como amigos e fizessem parte de sua rede.
                Mediante tantos internautas, ela escolheu apenas um que lhe chamou grandemente a atenção: Davis Hoffman – um garoto de aproximadamente dezoito anos, cabelos longos e louros, a pele branca e lisa como seda, olhos perfeitamente coloridos num tom azulado como o céu e um sorriso exuberantemente branco, com dentes enfileirados perfeitamente. Um Modelo? Um artista?
                - Uau! – Jéssica não conseguia acreditar que aquele garoto teve interesse em adicioná-la. Um modelo, aparentemente, ou um artista... Será que já o vi na TV?
                Jéssica sentiu-se importante e demasiadamente linda, pois um menino daqueles jamais adicionaria uma feiosa - pelo menos, ela se sentia assim -. O interesse bateu forte em sua mente e seus olhos queriam, mas queriam muito ver as outras 42 fotos dele que estavam aparentemente bloqueadas, sendo que somente as pessoas que o tivessem como amigos poderiam vê-las.
                Ela não pensou duas vezes: Clicou em Adicioná-lo como amigo e contemplou as 42 fotografias vaidosas, sexy e que a deixava quase excitada. Será que é ele mesmo? Perguntava-se Jéssica, até duvidando da identidade daquele contato. Era muito perfeito para ser real.
                Perfeito demais.
                “Está aceita amor. Bem vinda ao meu Orkut”, a mensagem notificou-a: Era Davis.
                Ele respondeu, ele RESPONDEU, dizia a mente de Jéssica totalmente feliz. Ele estava online e ela teria a oportunidade de conhecê-lo melhor e, quem sabe, iniciar um grande relacionamento – até mais do que uma simples amizade...
                Ela, então, iniciou a conversa:
Jéssica: Ah, obrigada amor.
Davis: E aí, você me conhece? Por que me adicionou?
Jéssica: Não, na verdade nem conheço =/... Mas achei você muito, muito lindo e resolvi te adicionar *--*... Algum problema?
Davis: Claro que não. Ao contrário, estou muito feliz de ter uma garota linda como você entre os meus contatos. ;D
                Ao ler aquela resposta Jéssica sentiu-se automaticamente uma princesa. Elogios eram bem vindos a ela, ainda mais de um garoto como aquele.
                Ela sorriu. Já se sentia a melhor amiga dele. Porém, ela queria mais... Algo mais do que uma simples amizade.
Jéssica: Ah, que lindo amor! Obrigada! Mas e então, está aonde?
                A resposta demorou a surgir. Talvez a conexão estivesse sendo interrompida por alguns instantes. A paciência de Jéssica não era seu forte e ela já começava a dar sinais de ansiedade: Batia os pés no chão freneticamente, suspirava muitas e muitas vezes... Já estava completamente impaciente.
                Porém, a resposta logo veio... Mas não era a resposta que Jéssica esperava receber:
Davis: Eu estou perto...
                Jéssica engoliu em seco. Não entendeu muito a resposta, mas sentiu um frio na barriga. Ela tentou esclarecer as coisas:
Jéssica: Como? Não entendi amor. Está perto? De onde ? :S
                A resposta demorou, mas, minutos depois, surgiu com palavras que intrigaram a garota:
Davis: Estou perto de você, Jéssica... Perto de sua casa... Estou te observando. Você é muito linda mesmo, até mais do que na foto. Mas infelizmente não se valoriza...
                O frio na barriga voltou ainda mais agonizante. Os olhos de Jéssica fitavam aquelas palavras. O medo tomou-a dos pés a cabeça. Ela se sentiu ameaçada, sozinha - e estava sozinha, já que seus pais haviam saído -, desprotegida... E Davis sabia disso... Davis? Não...
                A máscara ainda não caíra por completo, mas a garota desconfiava completamente de que aquele não era o verdadeiro nome... E aquelas fotos poderiam não ser exclusivamente dele...
Jéssica: Quem é você? Como pode dizer que está perto de mim? Está brincando comigo, seu bastardo idiota! Vou agora mesmo te excluir! Você deve ser um maldito de um Fake! Adeus!
                Rapidamente, Jéssica moveu o seu mouse em direção ao link Excluir contato do site, mas sua rapidez não fora um tanto suficiente para que deixasse de receber a última mensagem do estranho:
Davis: Jéssica, você é tão descuidada... Procura homens bonitos e perfeitos em um lugar onde habitam desconhecidos e estranhos... Você os adiciona como se fossem seus vizinhos e joga-lhes toda a sua confiança... Tão bobinha e tão idiota... Você é tão galinha no Orkut quanto na escola! É exatamente igual a sua amiga Thalita! Por isso que não merecem viver... E, de certa forma, não vão... Farei questão de doar os seus órgãos à pessoas que merecem viver!
                Jéssica não fez questão de responder e ,de imediato, excluiu aquele maldito contato. Seu coração batia forte e aparentava estar saindo pela garganta. Ela arfava e seus olhos estavam enchendo de lágrimas. Quase histérica, ela não suportou o medo e retirou o cabo da tomada, desligando o computador repentinamente, afastando-se da máquina como se ela fosse um monstro. E, de fato, era para aqueles que não soubessem domá-la.
                Aquele seu quarto agora parecia um mar de perigos. A cor rosa não distanciava o medo de si e ela não sabia o que fazer, paralisada, sentada na poltrona que ganhara junto com o computador em seu aniversário.
                A respiração forçada podia ser ouvida. Ela ainda temia que o estranho estivesse dizendo a verdade, não pelas ameaças, mas pelo que ele sabia dela e Thalita: Elas eram amigas e vizinhas, e Davis sabia disso.
                Como... Como ele sabia? Como ele sabia de Thalita? – Questionava-se enquanto procurava se proteger de seu próprio medo. O horror subia-lhe os calcanhares á cabeça e ela tremia como se estivesse com bastante frio, e de fato estava, mesmo que não houvesse um sopro de brisa na rua e nenhuma nuvem no céu.
                De repente, ela ouviu o telefone tocar no andar de baixo de sua casa. Tocava e não parava. O coração bateu ainda mais forte, ela podia ouvir, e cada vez mais ela arfava como se não houvesse ar para respirar.
Quem será? Quem será? - Se perguntava enquanto aproximava-se lentamente da porta meio-aberta.
Seria o maníaco? Seria Thalita ligando para avisar que tudo aquilo não passou de uma brincadeira, e que aquele Davis era um contato Fake que ela mesma criara para assustá-la?
Seriam os seus pais ligando para avisá-la de que não ficariam dois dias fora e já estavam voltando?
As perguntas eram mais freqüentes em sua mente, tornando-se uma roleta de questões intermináveis e irrespondíveis. Mas ela teria que atender, tinha que atender. Sua mente não queria, mas seu corpo automaticamente a levava em direção ao andar de baixo, descendo as escadarias, passando pelos quadros de família pendurados ás paredes , pelo abajur á beira do último degrau e, finalmente, chegando a sala de estar totalmente decorada de branco, com móveis brancos, paredes brancas, tudo branco... Parecia uma sala de estar para anjos.
E lá estava o telefone – o maldito telefone -, tocando incansavelmente até que alguém o atenda e o faça descansar daquele maldito toque infernal e irritante.
Quem seria? Quem seria? QuemseriaquemseriaquemseriaquemseriaquemseriaquemseriaquemseriaquemseriaquemseriaquemseriaQUEM SERIA? – A mente rodava em apenas uma pergunta de duas palavras:
Quem seria?
- Alô? – ela atendeu e um chiado pôde ser ouvido na outra linha – Alô?! – ela disse mais uma vez e já estava prestes a desligá-lo e despejar todo o seu medo e apreensão quando, de repente...
- Jéssica? – uma voz tão doce, tão calma, tão confortante. Certamente não dava medo. Não podia ser o maníaco.
- Sim – ela respondeu, mesmo não sabendo quem era. Mas seu coração já estava mais calmo e ela respirava suavemente, a ponto de sorrir – Sim. Quem está falando?
- Sou eu, Jéssica. Sou eu – disse a voz, tentando convencer a garota de que ela o conhecia, mas ela não se lembrava daquela voz – Sou eu.
- Quem? Eu não estou reconhecendo essa voz. Quem está falando? Diga o seu nome.
Um silêncio por alguns segundos e finalmente ele disse o seu nome:
- Davis.
Os olhos dela sobressaltaram numa expressão de horror e ela atirou o telefone contra a parede branca, quebrando-o.
Ela não se conteve e começou a chorar de medo e desespero, não sabendo mais o que fazer: Era verdade. Ele estava em sua casa e ela estava em apuros.
De repente, a luz da cozinha acendeu-se, a luz forte e clara chamou a atenção da garota. Ela olhou em direção ao local e avistou uma silhueta aproximando-se. Seus lábios tremeram, ela arfou novamente e deu passos para trás: Era ele.
Um capuz preto, uma máscara teatral sorridente dourada e uma faca entre as mãos: Sim. Realmente, era ele.
- Sai daqui! SAI DAQUÍ! – ela exclamava ferozmente, andando para trás enquanto ele vinha em sua direção – O quê você quer? O quê quer?
Ele parou. Em seguida, retirou a máscara e ela pôde ver a face. Aquela face... Ela o conhecia... Ele estudava com Thalita...
- V-Você... – ela não acreditou na pessoa que estava vendo à sua frente. Seus olhos o fitavam – Você... Não... Por quê? O que você quer, pelo amor de Deus?
Sorrindo e fitando o corpo da garota, Fred respondeu:
- Eu quero os seus Rins.
Jéssica gritou, virou-se e correu em direção a porta da saída. Fred caminhou calmamente em direção a ela.
- Droga! Porra! – gritou Jéssica: A porta estava trancada e as chaves não estavam na fechadura. Ela se batia, chutava, arranhava com suas unhas até que quebrassem... Mas era impossível. Estava encurralada – Socorro! SOCORRO!
- Chiii... – elevou o dedo aos lábios, mandando-a se calar – Não se preocupe Jéssica, com a sua morte outra vida será salva. Agora seja uma boa menina e fique quieta enquanto eu arranco os seus órgãos.
Não havia mais escapatória. Jéssica ia morrer.
Fred estava frente a frente com ela e sua faca estava se aproximando lentamente de seu pescoço em movimentos ameaçadores.
- Depois de matar você, matarei sua amiga: Thalita.
- Não...
Ela estava quase se conformando com a morte que se aproximava, mas um impulso a tomou. Eu quero viver, eu quero viver, eu não quero morrer... EU QUERO VIVER!!
- PORRA, EU QUERO VIVER! – ela gritou com todas as forças e, antes que fosse apunhalada, chutou a perna de Fred que, agonizando, caiu no chão, derrubando a faca.
Jéssica levantou-se e correu rapidamente em direção as escadas, subindo-as em direção ao seu quarto. Antes que chegasse ao último degrau do segundo andar, virou-se para trás para ter certeza de que o garoto ainda estava caído.
Mas ele não estava.
O desespero tomou-a e repuxou o seu estômago numa sensação fria de medo. Ela entrou em seu quarto e fechou sua porta com tranca, além de colocar as coisas mais pesadas á frente dela, fazendo de tudo para que Fred não entrasse.
Enquanto se sentia segura, correu à janela, abriu-a e começou a gritar por socorro. Gritava e gritava, até que alguma bondosa alma o escutasse. A noite era escura, mas bastante estrelada. As luzes do jardim de sua casa estavam apagadas – por certo o desgraçado as apagara -. A rua asfaltada estava vazia, sem carros, pessoas, ninguém, nada...
Jéssica sentiu-se sozinha não somente em casa, mas no mundo.
- Deus – ela clamava, enquanto fechava os olhos e pedia aos céus que não a deixasse morrer – Me ajude... Eu não quero morrer...
Ela sentiu o silêncio, ouviu o silêncio. Tudo estava quieto, quieto demais...
De repente, Fred surgiu do lado de fora da janela, agarrando-a e empurrando-a para trás, entrando no quarto e, rapidamente e sem piedade, esfaqueando-a em uma série de punhaladas. Jéssica gritou, berrou, mas somente agonizava, pois ninguém a salvaria naquele momento.
- Sua vadia – ele disse, enquanto a esfaqueava com vontade – Eu pretendia doar os seus órgãos... Mas você não passa de uma galinha medíocre e desgraçada! Vai morrer e queimar no inferno!
Com olhos vidrados, Jéssica ainda agonizava, mas já não gritava. Estava á beira da morte e com a última e mais forte punhalada de Fred...
Jéssica estava morta.
Após assassiná-la, ele se limpou e sua mente apenas dizia: Thalita... Thalita... Thalita...


-... E minutos depois, os pais dela devem ter achado o corpo dela e acionado à polícia – disse Fred, contando mais uma de suas confissões a Carlos que, mesmo sendo frio, ficou pasmado – Após matá-la, fui matar Thalita e, depois, Aline...
- É verdade – disse Carlos, concordando com as confissões do assassino – Os pais de Jéssica disseram ter ouvido gritos vindos da casa de Thalita, já que eram vizinhos. Mas quando chegamos ao local não encontramos nem Thalita e muito menos Aline. Somente os corpos dos pais de Thalita estendidos sobre a mesa. Você me contou toda essa história, mas ainda não me disse: Onde estão os corpos de Thalita e Aline?
- Eu já disse – exclamou num tom alto – EU OS QUEIMEI!
- VERDADE? – questionou o tenente, num tom de descrença – E onde você os queimou exatamente?
O silêncio pairava nos lábios de Fred, seus olhos buscavam qualquer coisa, objeto, quadro... Qualquer coisa que não fossem os olhos de Carlos, que estava cada vez mais impaciente e começava a dar sinais de raiva, dando fortemente um soco na mesa, assustando o garoto. Ele não estava acreditando em nada do que Fred dissera.
- Eu estou perdendo a paciência, garoto – alertou o tenente, com os dentes prensados – E você não vai querer me ver nervoso...
Mas Fred estava disposto a testar a raiva de Carlos, pois não contaria a verdade a ele...
Não toda a verdade...