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sábado, 12 de fevereiro de 2011

Confissões de um Escritor - O Nascimento (7)





Capítulo 7 –

            A família dos Oliveira Costa. Grandes e inseparáveis companheiros desde a minha meninice. Tão especiais que os vejo como se fossem da minha família. Eles moravam perto de minha casa – até hoje moram – e eram constituídos por quatro pessoas: Adolfo e Jeni – que eram os pais – e Sara e Salomão – os filhos. Não lembro muito quando iniciei esse grande laço de amizade, mas me recordo perfeitamente de quando ia á casa deles, quase todos os domingos, após o término do culto de jovens. Passava o dia inteiro lá, brincando com o Salomão – um garoto que tinha, mais ou menos, uns cinco ou seis anos a mais que eu, mas que aprontava poucas e boas.
            A minha mãe era tão protetora – até em exagero – que só me deixava ir para a casa dele. Do contrário, eu não poderia sair da calçada de casa. Portanto, todos os domingos eu fazia questão de me divertir ao máximo na casa dos Oliveira Costa, porque no fim do dia eu sabia que teria mais uma longa semana preso na minha rua.
            Algo que eu e Salomão sempre fazíamos aos domingos era empinar pipas – já que eu era proibido de fazer isso perto de casa, pois meu pai não deixava. Ele tinha medo que eu me cortasse por causa do cerol na linha dos outros, ou que ficasse correndo pelas ruas movimentadas com carros atrás de pipas e acabar sendo atropelado -. Empinávamos e não contávamos á minha família, mas eu estava ciente de que minha mãe sempre ficava sabendo. Mesmo assim, ela não contava ao meu pai, pois sabia que na laje da casa do Salomão não haveria riscos e mal algum em se divertir, contanto que eu não usasse cerol e nem corresse atrás de pipas – eu não corria, mas passava cerol sim e ela nunca soube disso.
            Além do Salomão, eu tinha outro amigo que também ia á casa dele: Dener – um garoto um ano mais novo que eu, e que morava na Vila Japão -. Nós três, então, passávamos o domingo inteiro brincando até o anoitecer, quando eu tinha que ir ao culto novamente e minha alegria acabava, pois eu não gostava de ficar sentado, ouvindo tudo o que o homem lá na frente dizia. Eu não entendia absolutamente nada. Mas, por causa do Salomão – que sempre me incentivava a ir com ele pra igreja – eu acabava me distraindo e sentava ao seu lado, o vendo e ouvindo tocar seu violino na orquestra. Sim. Ele tocava bem, muito bem. E quando o via tocar sempre sentia uma vontade de estar no meio daquele conjunto musical, tocando também. Eu pegava uma flanela, enrolava-a e fingia que era um instrumento, assoprando-a e tentando entrar no ritmo da orquestra.
            Eu olhava para trás e via aquela multidão de músicos enfileirados, sentados por categorias instrumentais. Avistava o Márcio – meu irmão – tocando o seu trompete entre os demais e imaginava se algum dia poderia estar ali também, sendo mais um de muitos músicos.
            A partir de então, desenvolvi meu grande interesse pela música, não imaginando o que o futuro me reservava naquela orquestra.



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