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segunda-feira, 5 de março de 2012

Sucessos e Fracassos - Capítulo 2

Sucessos e Fracassos


               Se tiver as coisas realizadas da forma como você quer...
For à medida para uma vida de sucesso...
Então, alguns diriam que eu sou um fracasso.
A coisa mais importante...
É não se amargar pelas decepções da vida.
Aprender a deixar o passado para trás.
Eu reconheço, que nem todo dia... Será ensolarado.
Mas quando você se encontrar perdido na escuridão e no desespero...
Lembre-se...
É somente na escuridão da noite, que podemos ver as estrelas.
E nenhuma estrela... O guiará de volta para casa.
Então não tenha medo de cometer erros.
Ou de tropeçar e cair.
Pois na maioria das vezes...
Os melhores prêmios vêm quando se faz àquilo que você mais teme.
Talvez você consiga tudo o que deseja...
Talvez, você consiga mais do que jamais tenha imaginado...
Quem sabe onde a vida te levará?
A estrada é longa.

E no fim...
A jornada é o destino.


Primeira Parte -                

- Como está se sentindo? – Ronaldo perguntou a Valdir, enquanto os dois permaneciam sentados sobre um morro totalmente gramado e com a paisagem do pôr do sol – Está melhor?
                O silêncio pairou por alguns segundos, e então Valdir respondeu num ar triste:
                - Você faz falta, Roni. Lembro de você todos os dias da minha vida.
                 - Faça isso – Ronaldo disse com um grandioso sorriso, tocando os ombros de seu amigo – Mas lembre-se apenas das coisas boas que passamos juntos, eu, você, o Guilherme e todo o pessoal da escola. Torne-me uma boa lembrança, parceiro. Eu sempre vou estar contigo.
                - Obrigado.
                - Está na hora.
                De repente, a luz fraca do sol reverteu-se em um brilho incomparável e forte. O branco tomou conta daquele mundo...
                E então Valdir acordou, abriu os olhos e sorriu num ar confortante: Estava se sentindo melhor, muito melhor. A saudade do falecido amigo ainda batia em seu coração, mas as memórias boas ainda estavam lá. Memórias inesquecíveis que o tempo jamais apagaria.
                Levantou-se e olhou para o relógio-despertador: Eram 06h30min. Estava na hora.
                A hora de ir para a escola.


               
 A cozinha não era muito grande, mas o espaço era confortável. As paredes eram brancas com decorações douradas. Maria, mãe de Valdir, preparava os famosos ovos mexidos que seu filho tanto gostava, enquanto Paulo, o pai, lia o jornal sentado de pernas cruzadas sobre a mesa. Estava trajado a um terno escuro colocado sobre a camisa social azul clara. Tinha os cabelos escuros, lisos e relaxados. Parecia um roqueiro, mas era apenas um pai de família.
                Paulo trabalhava no famoso Terraço Itália, localizado no centro de São Paulo. Era um dos maiores prédios do Estado, com uma vista esplendida da grande metrópole. Paulo era um cozinheiro-nato, mas apenas exercia sua função fora de casa, pois jamais gostaria de abaixar a auto-estima de sua esposa.
                Maria, por sua vez, era a típica mãe de família: Aquela que cozinha, que lava roupas, que passa pano... Mas que também aconselha, abraça, ama...
                Tinha uma altura mediana, os cabelos eram curtos, até o pescoço, e eram escuros. O rosto era claro e sempre muito bem maquiado. Era bastante vaidosa, mesmo que não saísse de casa.
                E lá estava vindo Valdir Luciano, o filho dos pais que o amava. Surgira com olhos brilhantes e um sorriso exuberantemente branco. Todas as vezes que encontrava os pais era como se estivessem longe um do outro por muito tempo. Luciano amava aquela família, e não era para menos, eles eram bastante carinhosos com ele, o mimavam bastante. Mas, acima de tudo, davam-lhe o ícone mais necessário por todos os filhos:
                Amor.
                - Bom dia, meu gatão – Maria saudou com ênfase, dando uma leve tapa no bumbum do garoto – Como dormiu ontem?
                - Até que dormi bem – ele respondeu enquanto sentava-se à mesa e observava os ovos mexidos caírem lentamente sobre o prato – Estou melhor do que poderia estar.
                - Isso aí, filhão – Paulo disse, sorrindo – Não e atrase para a escola. E tente não paquerar muitas garotas ao mesmo tempo, hehe...
                - Paulo! – Maria exclamou atordoada – É isso que os pais ensinam aos filhos?!
                - Valeu pai – Valdir disse – Vou tentar não paquerar tantas assim.
                - Valdir! – Agora os olhos da mulher não sabiam quem encarar e dar a bronca.
                E, como se não houvesse escolhas, todos começaram a rir.




                E.E. Kakunosuke Hasegawa. Uma escola especializada em Nerds, Emos e muitas outras espécies de alunos. Era localizada próximo ao Ibirapuera e às vezes os alunos fugiam para ficar no parque.
                Não era uma instituição para ricos e poderosos, mas para todas as classes sociais possíveis – desde que tenham R$350,00 por mês reservados à mensalidade dos estudos.
                O lugar era grande e espaçoso. Tinha as quadras esportivas, com lugares específicos para se jogar futsal, vôlei e até mesmo basquete. Os professores eram totalmente exemplares e não criavam muitos afetos com os alunos, o que ajudava bastante na concentração dos mesmos a estudarem ainda mais.
                O Chevette cinza de Paulo parou em frente à entrada do colégio, Valdir abriu a porta e levantou-se. O vento tocou seus cabelos e rosto e ele sentiu aquele ar, o ar de estudo, professores, amigos...
                Os alunos que passavam naquele momento pela calçada certamente riam do automóvel do pai do garoto, pois não era aquele típico carrão que um pai de aluno que estuda em escola particular deveria ter. Mas isso não abalava Valdir. Ele já estava acostumado e, mesmo que não fosse das mais altas classes sociais, já ganhara vários amigos com sua nobre humildade.
                - Valeu pai – Valdir agradeceu, enquanto apertava a mão de Paulo – Bom trabalho.
                - Bons estudos, até mais – Paulo fechou a porta do carro e o mesmo partiu rapidamente de volta a pista.
                Por alguns segundos o garoto ficou parado, observando toda aquela imensidão de escola.


                Todos os dias encaramos a mesma realidade. Que o nosso tempo aqui é curto. E para honrar os que já foram, temos que viver as nossas vidas bem. Devemos perdoar quando podemos e permitir que as nossas leis comuns nos reúnam.
                Escola.
                A melhor parte da vida adolescente.


                E então, Valdir puxou a correia da mochila e foi em direção a entrada.




                Você já estudou? Ou estuda?
                Então deve saber como é bom estar dentro de um lugar onde só há pessoas da sua idade, que pensam como você, que entendem seus sentimentos, que sabem como é ser adolescente.
                Escola. É um lugar especial, onde criamos amizades que, às vezes, nos acompanharão para sempre. É onde conhecemos o nosso primeiro amor, talvez onde damos nosso primeiro beijo, onde brigamos, onde respondemos a alguém, onde aprendemos a respeitar os mais velhos, onde aprendemos cada dia um pouco mais. Um lugar onde não aprendemos apenas a ler e escrever, mas a viver.




                O corredor era longo, tão longo quanto os de supermercados e shoppings. Às diretas e esquerdas podiam-se avistar os inúmeros armários de ferro, trancados com cadeado, guardando cadernos, livros, vidas, segredos...
                Os pés eram colocados um na frente do outro a cada passo, e, do passo, um sorriso forçado tomava a aparência de Valdir Luciano, que caminhava não muito lentamente sobre a escola, procurando por sua sala.
                Talvez fosse diferente aquele ano. Talvez todas as pessoas começassem a gostar dele, vê-lo de outra forma além de um pobre coitado. Talvez ele conseguisse uma namorada aquele ano, talvez uma ficante, talvez apenas um beijo. Talvez colocasse mais amigos na sua lista, talvez amigas. Talvez não apanhasse tanto quanto apanhava ano passado. Talvez os valentões o deixassem em paz.
                Talvez. Talvez. Talvez.
                Porque ele não tinha certeza do que estava pensando. Porque sabia que as coisas nunca eram como ele desejava, e por que haveriam de ser naquele ano. A tendência era piorar ainda mais: Os valentões estavam ainda mais fortes, as garotas estavam se tornando mulheres cada vez mais exigentes e os caras não queriam ter como amigo um pobre coitado cheio de espinhas no rosto, mal vestido e medroso.
                Talvez ele estivesse completamente errado, absorto. Talvez tudo o que pensara fora nada mais do que um palpite idiota, que não levaria a lugar algum. Talvez ele devesse estar conformado com a vida difícil. Talvez devesse se conformar de que jamais seria popular, jamais conseguiria uma namorada, um beijo de alguém naquela escola...
                Enquanto pensava e caminhava distraidamente, fora barrado por Danilo e Sérgio – dois garotos totalmente fortes, tatuados, folgados, chatos...
                Valentões.
                - Olha só quem é – Danilo palpitou ao empurrar Valdir contra um dos armários, fazendo as pessoas ao redor afastarem-se amedrontadas – O pobretão do ano passado, e do retrasado...
                - Você cresceu em, guri – Sérgio disse enquanto tomava os livros das mãos do garoto – Mas a pobreza continua a mesma. Tão escroto e tão bobão... Isso me deixa com mais vontade de te dar uma surra...
                Valdir não conseguia dizer absolutamente nada. Estava atordoado e, ao mesmo tempo, conformado de ser um saco de pancadas escroto.
                Porém, antes que os valentões fizessem algo pior, Joyce apareceu e os empurrou com toda a força que tinha.
                - SAIAM DAQUI, SEUS IDIOTAS! – ela exclamou com verdadeiros olhos de coruja, encarando-os seriamente – DEIXEM-O EM PAZ. E DEVOLVAM OS LIVROS DELE!
                - Quem você pensa que é, Joyce?! – Sérgio disse com raiva na voz e aproximou-se dela.
                - Eu não tenho medo de você, Sérgio – ela disse com autoconfiança – Sei de muitos segredos seus que a escola poderia saber e sua reputação cairia a zero. Quer mesmo que eles fiquem sabendo?
                O corpo de Sérgio congelou-se. Ele sabia que tinha segredos terríveis que não poderiam ser revelados. E sabia que Joyce não teria problema nenhum em espalhá-los por ai. Então resolveu ficar calado, devolvendo os livros de Valdir da maneira mais educada possível:
                Jogando-os no chão.
                - O ano está apenas começando, frangote  - Sérgio disse e olhou seriamente para Joyce.
                E então, os dois valentões saíram de perto e continuaram a caminhar pelos corredores em busca de outra isca.

                - Você está bem? – perguntou Joyce, olhando tristemente para Valdir.
                 - Estou – ele disse num ar seco, sem expressão e sentimentos.
                Pegou os livros do chão, pôs sobre os braços e continuou a caminhar pelo corredor, deixando Joyce sozinha, observando-o a sair. Ela sabia que não estava tudo bem. Sabia que ele ainda estava tentando se recuperar da morte de Ronaldo e que estava sendo difícil estudar em um lugar onde muitos o desprezam.
                Naquele momento, Joyce sentiu pena. O sinal tocou e ela percebeu que já estava na hora de ir para a sua sala.
               

                - Bom dia, alunos da E.E Kakunosuke Hasegawa – disse a professora Inez Dias aos jovens que ali estavam – Hoje é o meu primeiro dia de aula com vocês e espero que possam se acostumar às minhas normas, regras e à minha forma de ensinar.
                A sala estava cheia, com quase quarenta alunos sentados em suas cadeiras. Entre eles estava Valdir Luciano, que aparentava não estar totalmente focado à aula. Seus olhos observavam a lousa verde, mas estavam vidrados e na verdade observavam o interior de sua mente.
                Estava pensando nas vezes em que ficava conversando com Ronaldo e Guilherme no meio da sala de aula. Os professores sempre lhe chamavam a atenção, mas eles não davam a mínima atenção. Também se lembrou das vezes e quem eles sentavam nos fundos e começavam a atirar bolinhas de papel à frente. Foram muitos risos e sorrisos...
                E agora tudo aquilo fazia falta. Muita falta.
                -... É melhor voltar para a Terra antes que a professora te leve para o planeta chamado ‘diretoria’ – disse a voz ao seu lado, fazendo-o despertar.
                Era uma suave e linda voz, de mulher. Por mais que ele estivesse triste naquele momento, sentiu um pingo de felicidade ao ouvir tal voz.
                E foi quando ele virou-se para o lado esquerdo e encontrou os olhos. Aqueles olhos...
                Olhos castanho-claros, a pele moreno-clara e um sorriso extremamente branco e perfeito. Perfeito. Muito, muito perfeito.
                Ao olhar para tal imagem divina, uma música tocou nos ouvidos de Luciano, como uma trilha sonora de amor. E então seu coração acelerou-se e ele foi contagiado por aquele sorriso... Sorrindo também.
                Linda, tão linda...
                Aquela era Cláudia Lino, a garota com quem Valdir Luciano estudou desde a quinta série, e a garota a quem ele se apaixonou secretamente. Por mais próximos que eram um do outro, por mais amigos que fossem, ele nunca tivera coragem de dizer-lhe o que sentia, porque eles eram muito amigos, e as pessoas dizem que amigos não podem namorar...
                Mas o motivo pelo qual ele jamais revelara seus verdadeiros sentimentos tinha um nome:
                Ricardo Oliveira, mais conhecido como Rick...
                Mais conhecido como: O namorado de Cláudia Lino.
                Por esse importante motivo, o amor de Valdir por Cláudia permaneceria escondido para sempre. Mas ele não se importava, porque ter aquela amizade era o bastante, e extremamente necessário.
                Enquanto fossem amigos, Valdir continuaria feliz.
                - Desculpe – ele sussurrou envergonhado, mas mantendo o sorriso – Eu não estava em mim.
                - Sinto muito pelo Ronaldo – Cláudia disse – Ele era muito amigo seu, não?
                - Sim, ele era – ele pensou por alguns momentos, mas rapidamente voltou a si – Você não foi ao enterro, não é?
                - Fui sim, com o Rick.
                 - Ah...
                Valdir sentiu-se ainda mais envergonhado. O sorriso já não estava mais exposto e ele certamente não desejara ter ouvido o nome ‘Rick’.
                 - Com licença – a professora disse em voz alta, encarando-os – Creio que vocês já conhecem as normas da escola, que proíbe o relacionamento íntimo entre alunos. Ou vocês não sabiam?
                A classe inteira começou a rir em baixas gargalhadas, enquanto Cláudia e Valdir sorriam um ao outro, claramente envergonhados por aquela situação.

               



                As horas se passaram e o sinal tocou:
                Era hora do intervalo.
                Todos os alunos começaram a sair de suas salas, caminhando pelos corredores e indo em direção ao pátio escolar.
                O corredor estava lotado, alguns jovens guardavam seus cadernos nos armários. Um deles era Valdir, que limpava sua mão ao colocar os livros que já usara dentro do armário.
                Ao fechá-lo, deparou-se com Guilherme surgindo entre a multidão, vindo em sua direção. Então, ele esperou que seu amigo parasse à sua frente. Porém, isso não aconteceu.
                Guilherme passou direto, sem olhar aos arredores. Estava com a aparência bastante séria e triste por sinal.
                - Ei, GUILHERME! – Valdir gritou, chamando a atenção de seu amigo que, envergonhado, parou e olhou seriamente para ele.
                Valdir aproximou-se dele e começou:
                - Olha, eu sei que está sendo difícil pra você. Também está sendo difícil pra mim. Mas eu não...
                - Já te chamaram de assassino?! – Guilherme interrompeu com olhos lacrimejantes e cheios de ódio – PORQUE ELES JÁ ME CHAMARAM DE ASSASSINO! TODOS ELES!
                Valdir arregalou os olhos ao ouvir tais palavras. Não era possível que a impertinência dos alunos estava chegando tal nível.
                - Eu não acredito! – Valdir exclamou – Não pode ser!
                De repente, Danilo e Sérgio apareceram passando pelo corredor, gritando indiretamente para Guilherme:
                - ASSASSINO! HÁ UM ASSASSINO ESTUDANDO ENTRE NÓS, GALERA! ASSASSINO! ASSASSINO!
                Ao chegarem bem próximos de Guilherme, eles apontaram os dedos e gritaram mais alto:
                - ASSASSINO!
                Em alguns segundos, metade dos alunos do corredor começou a gritar a mesma palavra, e então Guilherme olhou para Valdir e disse desesperadamente:
                - NÃO AGUENTO MAIS! NÃO AGUENTO MAIS ISSO!
                E então ele saiu correndo, esbarrando-se em vários alunos que gritavam em seus ouvidos.
                - Esses trouxas gostam de provocar – Joyce disse enquanto aproximava-se de Valdir.
               
                - É. Vamos ver até quando isso vai durar.
                - Vamos para o refeitório. Estou morrendo de fome.
                Valdir assentiu e, em meio todo aquele alvoroço, saíram em direção ao refeitório
               
                O lugar era totalmente espaçoso, como uma praça de alimentação de um shopping Center. A faladeira era tamanha que assemelhava a zumbido de abelhas em uma colméia. Os alunos iam e voltavam, alguns permaneciam sentados e outros de pé. As vestes que alguns usavam eram veementes caras e de grife, certamente compradas em lojas conhecidas e freqüentadas por famosos da atualidade. Tinha desde a patricinha ignorante até o playboy arrogante que, como muitos outros, usava uma jaqueta do time de futsal.
                Em meio todos aqueles seres misturados, Valdir estava sentado junto a Joyce. Estavam lanchando um hambúrguer e tomando leite integral.
                - Dia chato... – Joyce comentou enquanto tomava o leite com um canudo – Eu pensei que os primeiros dias de aula seriam empolgantes, mas...
                - Não estão sendo como planejávamos – Valdir concluiu, perfurando o pão com o garfo – Se eu pudesse ficaria em casa o resto da semana. Mas meu pai paga muito caro por isso...
                - Eu que o diga. Minha mãe trabalha até nos finais de semana para que eu continue aqui. A vida é difícil.
                De repente, toda aquela multidão calou-se com a chegada de três garotas. Os passos eram totalmente sincronizados e elas andavam como se estivessem desfilando na passarela. As vestes eram branca e rosa e por cima uma jaqueta totalmente branca com um emblema: Tigres Brancos FC.
                - Lá vem – Joyce debochou a Valdir enquanto observava o aproximar delas – Odeio elas!
                A loira era Nicole Figueiredo, a morena se chamava Cintia Sales e a ruiva era a Carla Sandoval. Ambas eram totalmente lindas e possuíam um corpo de dar inveja a muitas atrizes e modelos famosas. Elas eram classificadas pelos garotos como: Modelos Teens.
                - Adoro elas – Valdir sussurrou ao comê-las com os olhos.
                Todos, praticamente todos os homens que ali estavam não desgrudavam, não piscavam os olhos daquelas três tigresas. E elas sabiam disso e faziam questão de ficarem sensuais, jogando o cabelo para o lado, sorrindo e cruzando as pernas como se estivessem em um camarim de fotografia.
                O lugar ficou totalmente em silêncio e, então, uma delas começou:
                - PESSOAS – disse Nicole - ESTAMOS AQUI PARA CONVIDÁ-LOS A ASSISTIR NOSSO ENSAIO DE COLEOGRAFIA. O JOGO DOS TIGRES CONTRA OS URSOS É AMANHà E HOJE É O ÚLTIMO DIA DE ENSAIO. E EU SEI QUE OS GAROTOS NÃO VÃO PERDER A OPORTUNIDADE DE NOS VEREM QUASE NUAS... PROMETO QUE FAREI UM SORTEIO DE QUEM VAI GANHAR MEU SUTIÃ. SE AS GAROTAS QUISEREM, PODEM IR. MAS NÃO VÃO FAZER FALTA! É ISSO! TCHAU, FAVELADOS!
                E elas saíram da mesma forma que entraram: Desfilando.
                Em alguns segundos, a faladeira voltou.
                - Elas se acham as ‘tops da escola’! – exclamou Joyce com um pingo de inveja – Ah, EU ODEIO ESSAS VAGABUNDAS!
                - Bem, elas são ricas – disse Valdir, sorrindo e bebendo o leite – Elas podem fazer e ser o que quiserem. E elas são particularmente lindas...
                O encarar de Joyce era tão intimidador quanto os olhos de uma coruja.
                - Se você não percebeu... Você está conversando com uma mulher e não com um homem, Valdir... Então, por favor, não comente sobre mulheres quando eu estiver por perto!
                Valdir riu. Mas aquele sorriso durou pouco quando ele viu, pela porta da entrada, aqueles três garotos se aproximando.
                Seus olhos fecharam-se, ele bateu o copo de leite com força na mesa e exclamou:
                - Ah, não!
                - Ah, sim! – Joyce replicou com ênfase e um sorriso no rosto – Achou que só as garotas são gostosas aqui? Pois se enganou. Os meninos também são muito GOSTOSOS!
                Joyce estava se referindo exatamente aos três garotos que caminhavam lentamente e em conjunto em direção a eles. Ambos estavam trajados a uma jaqueta de couro preta com a etiqueta: TIGRES BRANCOS FC.
                Rodrigo, Bruno e Lucas eram as versões masculinas de modelos. Rodrigo era moreno-claro, um rosto completamente liso e perfeito, seus olhos eram castanhos e sua boca era formada por uma linha reta. O cabelo era curto, pois o que se destacava na verdade eram os músculos fortes de seu braço.
                Bruno era o mais alto, porém também era totalmente definido. Tinha o cabeço extenso e liso – de dar inveja a muitas garotas -. Era branco, quase americano, e seus olhos eram verdes. Ele usava aparelho, mas não era um problema e acabava dando ainda mais charme às garotas.
                Lucas era o tipo que não se destacava. Não era de boa aparência, mas se vestia bem. Seu cabelo era curto e seu tom de pele era pardo. Tinha algumas espinhas, mas nada que um bom dinheiro não resolvesse. Mesmo sendo o mais feio dos três, era o garoto mais rico da escola. E por isso ganhava todos os créditos possíveis, contando com a popularidade entre as garotas.
                Os três eram jogadores de futsal dos Tigres e eram como policiais dentro da escola: Tinham toda a autoridade possível.
                Em alguns segundos, os gritos e berros começaram a ecoar pelo refeitório. As meninas não resistiram e começaram a se levantar e correrem em direção a eles. Porém, eles não permitiam que ninguém os tocasse, somente os que eles fossem com a cara.
                - ESCUTA AÍ, GALERA – gritou Lucas - AMANHÃ VAI COMEÇAR O CAMPEONATO LOCAL! E OS TIGRES VÃO GANHAR! VÃO GANHAR!
                As pessoas acenavam para ele como se estivessem em um show do U2.
                - EU QUERO VER TODO MUNDO LÁ, POBRES E RICOS, BONITOS E FEIOS... TODO MUNDO! VAMOS TORCER, VAMOS VENCER ESSE JOGO! É ISSO QUE EU QUERO DE VOCÊS! AMANHÃ É O DIA! DIA DA GLÓRIA!!
                E os aplausos, gritos e pulos eram vistos e ouvidos por Valdir Luciano, que apenas observava paralisado àquela cena. Enquanto, ao seu lado, Joyce entrava no ritmo e gritava também.
                - Era só o que me faltava... – ele debochou.


               
 Quando tantas pessoas estão solitárias o quanto parecem, seria imperdoavelmente egoísta se sentir solitário sozinho...


                Os fones de ouvido estavam plugados entre as ouvidos de Guilherme Nascimento. Seus olhos observavam o aparelho de mp3. Estava escutando uma série de músicas. Músicas que Ronaldo costumava ouvir quando estavam em sua casa. As músicas eram pesadas com um tremendo rock pesado. Porém, o sentimento que Guilherme tinha era uma nobre nostalgia, não da música, mas de seu amigo.
                Ele estava sentado sobre as escadarias da escola: Um lugar que sempre ficava vazio e era ideal para quem quisesse expandir a mente, pensar e refletir. Enquanto todos estavam no refeitório, Guilherme permanecia encolhido no canto dos degraus, escutando músicas que não eram sentimentalistas, mas que o faziam querer chorar.
                De repente, pés começaram a descer as escadas e se aproximarem dele até pararem.
                Era Valdir que, ao perceber o estado de seu amigo, sentou-se ao lado e o observou por alguns segundos. E naqueles segundos pudera perceber o quão ele estava sofrendo. Parecia que Ronaldo morrera ontem, há algumas horas, minutos, segundos, naquele exato momento...  Guilherme podia sentir a batida do carro com o ônibus, o airbag salvá-lo do impacto e Ronaldo bater a cabeça fortemente contra a vidraça da janela, machucando- o e provocando um trauma cerebral.
                Ronaldo Nunes estava morto. Guilherme também estava, mas por dentro. Já não sentia mais prazer na vida, não queria mais se divertir como antes. Já não tinha todo aquele espírito de adolescente rebelde. Sentia-se sozinho, solitário num mundo obscuro sem luz, esperanças...
                De repente, sentiu uma mão tocar seu ombro e levantou sua cabeça. Percebeu que Valdir estava ali e aos poucos percebeu que não estava completamente sozinho. E não estava.
                Ao olhar para seu melhor amigo, sentiu uma luz acender e resplandecer em seu coração. E então sentiu um conforto jamais sentido antes, um calor cômodo, esperançoso...
                Sim.
                Ele sentiu que ainda havia esperança. Esperança de ser feliz, viver bem e fazer o melhor. E ele faria isso, em memória de seu grande amigo.
                -... Você não está sozinho, Guilherme. Nunca esteve, não está e jamais estará – Valdir disse suavemente,com olhos brilhantes – Eu estou contigo, Deus está contigo, seus amigos estão contigo...
                Os olhos de Guilherme se encheram...
                - ... Ronaldo está contigo...
                E então, as lágrimas escorreram em profusão e o abraço dos dois amigos foi forte e prolongado.
                - Obrigado, cara – Guilherme disse aos soluços – Você é um grande amigo!
                - Você também é – disse Valdir sorrindo.
                E então, Guilherme emprestou um fone de ouvido a Valdir e os dois permaneceram aquele fim de intervalo escutando as melhores músicas do mundo: Aquelas que o faziam lembrar-se de Ronaldo Nunes.


                O mundo está repleto de pessoas que se amam...
               
                O intervalo havia acabado e Valdir estava voltando para a sua sala. Passando pelo corredor, ele se deparou com Cláudia Lino sozinha, mexendo em seu armário. Por um momento, ele pensou em falar com ela...

                Há aquelas pessoas que nasceram prontamente para se amar umas às outras...

                Valdir abriu um largo sorriso e, antes que se aproximasse de Cláudia, foi surpreendido pelo surgimento de Rick – o namorado dela. E o sorriso sumiu automaticamente.

                E há aquelas que precisam das mãos do destino para poderem perceber que tem algo em comum, e assim se amarem...

                Rick e Cláudia se beijaram prolongadamente, enquanto uma lágrima escorreu do olhos esquerdo de Valdir, que se virou e foi embora.

                Não importa quanto tempo dure, quantas pessoas passem perto de você, quantas pessoas te beijem...
                No final, somente uma pessoa será a certa...
                E só ela poderá te amar...



Segunda Parte -
                Se você ficar procurando razões pra não ficar com alguém, você sempre vai encontrá-las, às vezes é preciso deixar as coisas fluírem por um momento e dar ao seu coração o que ele merece.
                Eu não sei se amo Cláudia Lino. Às vezes parece que sim, que todas as vezes que a vejo sinto como se ela olhasse para mim, prestes a correr em meus braços e me beijar, e me dizer:
                - É você, Valdir, a pessoa com quem eu quero estar!
                Mas então o Rick, seu namorado, surge e a beija... E então eu percebo que talvez ela não seja, jamais será a pessoa certa para mim.
                Então, qual seria a pessoa certa para mim?
                Qual a pessoa certa para você neste momento?
                Ela é próxima a você? São muito amigos?
                Se você não tem certeza, deixe o tempo lhe dizer. Mas vai uma dica:
                Às vezes, a pessoa certa pode estar bem ao nosso lado... E, cegos que somos, não percebemos...


                - Pronto! – gritou Joyce a Valdir e jogando o lápis por sobre o caderno aberto – Terminei! Viu, senhor espertinho, eu sou muito mais estudiosa do que você...
                Aos risos e conformado pela derrota, Valdir fechou seu caderno e disse:
                - Você sabia que ganharia de mim, professora Joyce. Afinal, eu sou péssimo em matemática.
                - É péssimo, mas não burro. Se estudar bastante, vai conseguir.
                - Bom, eu sou um péssimo estudioso. Ainda mais quando estou sozinho. Não consigo me concentrar.
                Os olhos de Joyce se fecharam e ela pensou por alguns segundos. Depois disse:
                - Okay, burrinho, eu vou me certificar de que você não perca a concentração.
                Valdir rapidamente olhou para os seios cobertos pela blusinha de Joyce e disse num tom sarcástico:
                - Bem, eu acho que vai ser muito difícil com esses dois amiguinhos grandes olhando para mim enquanto estudo.
                - Ah, que ousadia – disse Joyce num tom calmo, dando um leve empurrão em seu amigo – Como pode falar assim com uma garota?
                - Eu tenho créditos com você. Somos velhos amigos. Esqueceu que já nadamos juntos e nus na piscina da sua tia quando éramos pequenos?
                - Poupe-me dessa lembrança... Ainda me lembro do seu júnior urinando dentro da água enquanto eu nadava...
                Valdir ficou calado, imaginando aquela nostálgica época, depois riu e disse:
                - Bons tempos, não?
                - Sim, nojentos... Mas foram bons tempos... Agora, vamos. Esqueceu que estuda em uma escola de ricos? Temos que ser pontuais!
                - Certo.
                Os dois se levantaram das cadeiras da cozinha na casa de Valdir. Enquanto Joyce andava à sua frente, ele a observava com olhos brilhantes e um sorriso estampado no rosto. Estava feliz por ainda ter uma boa amizade contigo.

                
Às vezes, a pessoa certa pode estar bem ao seu lado...


                O andar era semelhante ao de modelos desfilando a passarela do Fashion Week. Elas se sentiam como se a estivessem fotografando-as, como se sentisse o flash tocar seus rostos, como se as luzes deslumbrantes estivessem focadas em seus corpos...
                Mas, obviamente, tudo aquilo era uma pura ilusão das meninas de quinze e dezesseis anos. Quando realmente voltavam a si, percebiam que estavam apenas andando pelos corredores do colégio Kakunosuke Hasegawa. Estavam bem vestidas, na verdade uniformizadas com o conjunto dos TIGRES BRANCOS – o time de futsal da escola.
                As saias eram completamente curtas, bastando apenas ajoelhar-se para enxergar tudo – tudo mesmo -. As blusinhas eram exageradamente justas e já faziam o busto jovem sobrepor e aparecer com tamanha exclusividade.
                Nicole e suas amigas – Cintia e Carla – definitivamente não estavam dando a mínima com o futuro placar do jogo contra os URSOS, contanto que toda a torcida – e até jogadores – estivesse prestando atenção em seus decotes.
                Enquanto continuavam a andar pelos corredores, o charme fazia com que os garotos parassem seus afazeres e ficassem boquiabertos com tanta beleza em conjunto, enquanto as garotas mordiam os lábios e invejavam toda aquela popularidade juvenil.
                - Ah, não tem ninguém bonito e bem vestido por aqui! – exclamou Cintia Sales, demonstrando em seu rosto moreno uma expressão enojada – Não sei porque ainda estudamos aqui!
                - Tantas pessoas feias assim só nos faz ainda mais populares e únicas aqui, amiga – Carla disse, enquanto jogava os cabelos em ambos os lados – Nós somos as únicas gostosas dessa escola e ganhamos todos os créditos. Esse é o motivo pelo qual continuamos aqui: Somos a atenção do Kaku.
                - Não – Nicole discordou ao ouvir o que suas amigas disseram – Eu sou a atenção da escola, e a mais gostosa também! Vocês duas são apenas acompanhantes que acham que ficarão populares... Na verdade são, mas não tanto quanto eu. Conformem-se com isso.
                Cintia e Carla se olharam e depois encararam Nicole com desdém. Ela, por sua vez, avistou um garoto aproximando-se e disse indiretamente:
                - Até que enfim eu encontrei alguém bonito, bem vestido e gostoso que não seja eu...
                A pessoa a quem estava se referindo era Lucas Souza, o capitão do time de futsal e garoto mais rico da escola. A popularidade dele era tamanha que era respeitado até pelos professores. Ele estudava quando queria, fazia o que dava na telha, contanto que ganhasse todos os jogos do campeonato – o que ultimamente estava dando certo.
                - Oi, meu atleta – Nicole disse sensualmente ao pará-lo no meio do caminho, deslizando suas mãos em sua blusa do time – Está pronto para hoje?
                Com um sorriso aberto, o garoto rico de pele parda respondeu:
                - Estou. Vamos ganhar o jogo hoje, não se preocupe. Espero que torça por nós.
                Com um olhar sarcástico e os dentes mordendo os lábios, Nicole disse em seus ouvidos:
                - Eu não estava falando do jogo... Se é que você me entende...
                Lucas riu e ficou cara a cara com ela, com os lábios quase se tocando um ao outro:
                - Eu entendi completamente... Depois do jogo, então, porque se for antes... Eu vou acabar ficando exausto para jogar...
                - Okay...
                Antes que ele tentasse beijá-la, ela se desviou e disse:
                - Até mais, meu Christiano Ronaldo das quadras...
                E então, Lucas riu mais ainda. Certamente, ela o estava provocando.
               

                A porta de ferro daquele armário fora fechada fortemente e, ao fechar, Valdir deparou-se com a aparência um tanto irritada de Joyce.
                - Posso saber o que houve? – ele perguntou um tanto curioso.
                - Eu NÃO ACREDITO que as aulas foram canceladas para que TODOS possam assistir a um maldito de um jogo idiota! – ela respondeu com quase toda a raiva que continha por dentro.
                Valdir a tocou de leve nos ombros e disse com um meio sorriso:
                - Calma...
                E, então, ela finalmente despejou toda a sua raiva de uma só vez:
                - CALMA O CARAMBA! EU ODEIO FUTEBOL! ODEIO! ODEEIO! E NO DIA EM QUE EU ESTUDEI PARA FAZER UMA MERDA DE UMA PROVA , NÃO... EU TENHO QUE ASSISTIR A UM JOGO CHEIO DE PIVETES CORRENDO DE LÁ PRA CÁ, SUANDO COMO MACACOS FEDORENTOS! AAAAARGH!
                - Pensei que gostasse de vê-los jogando...
                - Eu gosto – Joyce disse com desdém – Mas eu tenho muitos trabalhos a entregar e assistir a um jogo, enquanto eu poderia estar terminando meus afazeres, me deixa completamente maluca. Não acredito que estou pagando tão caro para ver uma bola indo pra lá e pra cá...
                Valdir a envolveu em seus braços e disse num ar confortante:
                - Relaxa... É porque hoje é a estréia. Até que cheguemos à final, se chegarmos... Os próximos jogos não serão obrigatórios de se assistir. E você vai ver o jogo comigo, vamos nos divertir muito. Há tempos não fazemos isso...
                Ao ouvir tais palavras, a garota sorriu novamente e teve nostalgia dos velhos tempos.
                - É verdade... – ela disse – Vai ser bom a gente se divertir novamente. Só espero que você não urine na quadra, como fez na piscina...
                Valdir riu e disse:
                - Claro que não. Não deixaria os outros me verem fazer xixi em público. Só você pode me ver fazendo.
                - Ah, seu...
                - Brincadeira! Agora vamos para a quadra, antes que fique lotada e tenhamos que ficar de pé.
                - Tudo bem, senhor mijão!
                E então, Joyce e Valdir saíram juntos, abraçados, em direção a quadra estudantil.


              
  A multidão era grande, enorme. O barulho era ensurdecedor. Os alunos que estavam na arquibancada pulavam, gritavam e batiam palmas. Os berros e reverências eram direcionados ao time de futsal da E.E.Kakunosuke Hasegawa.
                - TIGRES! TIGRES! TIGRES! – gritava a multidão, com bandeiras azuis e brancas indo e vindo, sendo erguidas pela pequena brisa.
                A quadra era enorme e tinha todo o espaço necessário para todos os alunos da escola adentrar e se acomodarem. Claro que eles nem sequer permaneciam sentados. A energia era grande e era a única coisa que os jogadores do time pediam à torcida. De um lado, havia as pessoas que torciam pelos TIGRES. Do outro, a pequena – quase nula – multidão que torcia pelos URSOS.
                Valdir e Joyce gritavam arduamente, com toda a voz, o nome do time. Estavam exatamente a poucos centímetros da quadra, que era rodeada por grades de ferro, o que não importava, pois a multidão as empurrava com toda a força. Não seria surpresa se a qualquer momento as grades fossem desabadas e a boiada entrasse quadra adentro.
                - VAI, TIGREEEES! – Valdir gritou com toda ênfase possível, erguendo a bandeira do time – ACABEM COM ESSES MALDITOS URSOS!
                - ACABA COM ELES, DROGA!
                Ao ouvir tais gritos conhecidos, Valdir virou-se para o lado e avistou sua amiga Joyce. Surpreendeu-se. Há pouco ela estava totalmente calada, quieta, enraivada por estar no meio de toda aquela multidão louca por futsal, e agora estava berrando com todo coração, quase estourando as cordas vocais, o nome do time que tanto odiava.
                - Quer dizer então que a menina que odeia o time está torcendo e gritando por ele... – Valdir sussurrou aos ouvidos da garota, sorrindo.
                Joyce contagiou-se com o sorriso e acabou rindo, gritando:
                - EU NÃO ESTOU OUVINDO NADA! NADA! SÓ QUERO QUE OS TIGRES VENÇAM HOJE! VAI, TIGRES! TIGRES! TIGRES!
                A energia entrara em seu corpo como um demônio que só sai através de exorcismo. Seus braços dançavam e batiam em todos que estivessem ao redor, inclusive Valdir Luciano, que afastou-se para não ser mais atingido no estômago.
                Em poucos segundos, Joyce virou-se para o resto da torcida e gritou:
                - VAMOS, SEUS LERDOS, GRITEM O NOME DO TIME DE VOCÊS! GRITEM! TIGRES, TIGRES,TIGREEES!
                E, então, toda a platéia entrou no ritmo e começaram a gritar conforme a regência da garota.
                Dentro da quadra, as líderes de torcida dançavam em sincronia, fazendo acrobacias e coreografias espetaculares – sensuais. A líder, Nicole, estava com o vestido mais curto do mundo, quase nua: Um saia tão justa que quase terminava na cintura, uma blusinha curta e apertada para mostrar o corpo desenvolvido da garota e o cabelo hidratado totalmente solto, dançando com o vento.
                Ela comandava a coreografia e, mediante suas regências, Cintia, Carla e as outras dançavam e gritavam em uma única voz:
                - O-MAIOR-DE-TODOS-OS-TIMES...VAAAAIIII-TIGREEESS!!!!
                As garotas dançavam discretamente, porém Nicole fazia questão de mostrar seu corpo sensualmente, abusadamente, rebolando mais do que deveria para ouvir os altos gritos e as palmas dos marmanjos que estavam na arquibancada.
                - Ah, que vadia! – Joyce exclamou ao observar tal cena que inundou seus olhos – Ela não está nem aí pro jogo. Só quer mostrar seu corpo aos caras. Que galinha... Você não acha, Valdir? Valdir?... Val-dir!
                Ao virar-se para gritar com seu amigo, percebeu que os olhos dele estavam inteiramente direcionados às ‘coreografias’ de Nicole. Não era de menos, Joyce podia jurar que aquela era a primeira e única vez em que ele vira uma garota ficar quase nua à sua frente. Aquelas coreografias estavam quase se tornando um famoso striptease.
                - Ah, Deus, tenha de piedade... – Joyce sussurrou.

                De repente, todas as atenções da platéia se direcionaram para os corredores de entrada. As luzes focaram as portas e o locutor gritou:
                - VOCÊS ESTÃO PRONTOS? ESTÃO REALMENTE PRONTOS PARA ASSISTIREM A UM JOGO ESPETACULAR?!
                - SIIIIMMM... – a platéia respondeu com toda a energia.
                - HOJE É O INÍCIO DO CAMPEONATO LOCAL E O PRIMEIRO JOGO DOS TIGRES CONTRA OS URSOS! OS TIGRES VIERAM DE MUITAS VITÓRIAS E GLÓRIAS, ENQUANTO OS URSOS AINDA ESTÃO LUTANDO PARA MANTEREM A INTEGRIDADE E O RESPEITO ENTRE OS TORCEDORES! SENHORAS E SENHORES, ALUNOS E ALUNAS, PROFESSORES, DIRETORES... A ESCOLA KAKUNOSUKE HASEGAWA TEM O PRAZER DE APRESENTAR O TIME CANDIDATO Á CAMPEÃO DESSA TEMPORADA...
                ‘COM VOCÊS: os TIGRES BRANCOS!!

                Ao pronunciar tal nome, a quadra foi tomada pela gritaria, aplausos, agitação de todos os alunos e professores que ali estavam. A escola tremeu como se houvesse um terremoto. Muitos ficaram surdos, outros ficaram sem voz... Mas mesmo assim, reuniram forças para gritar com todo o coração pelo time daquela escola, um time de tradição, que era mais do que favorito para vencer aquela temporada. E certamente venceriam através de tantos votos de confiança...
                - TIGRES! TIGRES! TIGRES! – a platéia continuava a gritar incansavelmente.
                Em seguida, um a um, os jogadores apareceram uniformizados com camisas brancas com bordas azuis, calções brancos, meias brancas e chuteiras brancas. Tudo era praticamente branco naquelas vestes. Afinal, eles eram os TIGRES BRANCOS.
                Entre os onze jogadores que entravam por aquele corredor estava Rodrigo, Bruno e o capitão Lucas Souza, que, ao surgir, foi elogiado e aplaudido com pulos e berros de garotas desesperadamente apaixonadas e enlouquecidas pelo garoto rico e popular.
                - LINDO, TESÃO, BONITO-E-GOSTOSÃO! – as meninas gritaram, além de alguns homossexuais. Joyce também entrara no embalo – LINDO, TESÃO, BONITO-E-GOSTOSÃO!!
                E mesmo com os ouvidos quase estourando pela gritaria não só de todos, mas principalmente de Joyce, Valdir estava feliz. Aquele momento estava sendo divertido e bastante descontraído. Depois de tudo o que passara, era umas das melhores coisas que haviam ocorrido.
                Porém, enquanto se sentia inteiramente feliz, rapidamente lembrou-se de Guilherme Teixeira – seu bom e velho amigo -. Onde estaria ele? Será que estava no meio daquela multidão?
                Ou, então, estaria num dos corredores vazios e frios da escola, pensando na tragédia que acontecera há alguns dias. Ou, talvez, nem viera à escola. Talvez nem viria mais... Talvez ficaria preso dentro de casa, abalado, pensando em como pode perder uma vida tão próxima a ele... A vida de um amigo...
                Rapidamente, Valdir retirou o celular do bolso e discou os dígitos do celular de Guilherme. Porém, o telefone apenas chamava e seu amigo não estava atendendo.
                Naquele momento, o garoto sentiu tristeza e remorso de saber onde poderia estar ele. E como não conseguia contatá-lo, decidiu enviar-lhe uma mensagem:
                “GUILHERME, ONDE VC ESTÁ?
                APARECE, VEM AQUI NA QUADRA. O JOGO ESTÁ PRESTES A COMEÇAR. NÃO SOME, MANO. ABRAÇ – VAL.”

                E, então, ele pressionou a opção ‘Enviar’ e guardou o aparelho. Olhou para a quadra, mas seus pensamentos estavam direcionados ao seu amigo, preocupado e angustiado de como ele poderia estar.

            
    Não há desespero tão absoluto como aquele que vem com os primeiros momentos de nossa primeira grande tristeza. Quando ainda não sabemos o que é ter sofrido e tiver se curado. 
Ter se desesperado e recuperado a esperança.
               

                O celular vibrou fortemente, emitindo um abafado som. O aparelho estava no chão e Guilherme pudera ver as ligações perdidas de Valdir, além da última mensagem. Porém, ele não dava à mínima, não se importava com as mensagens e ligações no celular. Sua mente estava distante, seus olhos decaídos estavam vidrados e sua cabeça encostada sobre seu armário escolar. O corredor estava totalmente vazio, apenas com o ecoar dos gritos vindos da quadra. O brilho do sol penetrava as janelas de vidro e tocavam seu rosto, queimavam seus olhos, mas eles não piscavam. Pareciam não se importar com aquele imenso brilho.
                Seus amigos já haviam tentado reanimá-lo, mas só ele sabia o que estava sentindo. Por mais palavras bonitas de consolo que Valdir e os outros lhe disseram, seus pensamentos o acusavam de ser um assassino, de tirar a vida de uma pessoa, ainda mais um amigo seu. Fazia dias que Ronald Nunes morrera, mas as imagens ainda estavam frescas em sua memória.
                Ele olhou para o teto em um leve movimento. Estava procurando por algo, por alguém...
                - Ronaldo... – ele sussurrava, de olhos fechados e um meio sorriso – Onde você está...?
                A água cristalina das lágrimas misturou-se com o brilho do sol, tornando-se um choro brilhoso... Os lábios dele começaram a tremer, seus dentes rangiam...
                - Você precisa voltar, Roni... – sussurrou novamente, agora com dor nas palavras.
                O celular voltou a vibrar: Era Valdir ligando novamente, preocupado. Guilherme ignorou, levantando-se aos poucos, enfraquecido, se apoiando nos armários.
                Pegou aquele celular, o observou por alguns segundos, pensou em atender à ligação... Mas não estava disposto a fazê-lo.
                - Você sempre foi um bom amigo – ele disse enquanto observava o nome de Valdir exposto no aparelho – E eu nunca te escutei... Minha culpa... Por tudo...
                Em um ato repentino, Guilherme atirou o celular contra as janelas, quebrando as vidraças, emitindo um alto barulho de cacos de vidro caindo ao chão. A raiva, o desespero, o medo, a dor... Todos os maus sentimentos estavam reunidos no coração de Guilherme, e apenas lhe pediam uma única coisa. Algo que acabaria de vez com todo aquele sofrimento... Que talvez o levasse até Ronaldo novamente...
                E Guilherme, desesperado, estava disposto a fazê-lo...


               
 As palmas ainda eram evidentes, mas a torcida agora havia se acalmado para assistir ao início do jogo, que era em alguns minutos. Valdir desligou definitivamente o celular, após tantas tentativas de contatar seu amigo.
               
 - Droga – Valdir disse a Joyce, com ar de preocupação – Acho que o Guilherme não veio.
                Joyce sequer escutou o que seu amigo dissera. Seus olhos e energia estavam interligados ao jogo que estava prestes a começar.
                Os gritos estavam ficando cada vez mais altos. Todos estavam chamando pelo nome do time. Porém, Valdir era o único que, cada vez mais, estava se distanciando daquela multidão unida e apenas concentrando-se no medo e receio de onde Guilherme poderia estar e o que estaria fazendo. Sua intuição dizia que algo muito ruim estava prestes a acontecer e, mesmo que não soubesse o que era, já era motivo para deixá-lo quase abismado.
                Mesmo sabendo que Joyce não escutaria, pois estava concentrada ao jogo, Valdir disse:
                - Joyce, eu vou sair um pouco. Logo mais eu volto.
                E depois saiu em meio àquelas pessoas aglomeradas.

                O juiz entrou ao centro da quadra, cumprimento os capitães de ambos os times, observou o tempo, ativou o cronômetro...
                O silêncio pairou por alguns segundos naquele lugar...
                E então...
                O apito foi assoprado a toda força.
                - COMEEEÇA O JOGOOO!  - anunciou o locutor, e então o time dos TIGRES iniciaram o toque de bola, em meio a gritos e vaias das torcidas.
                - VAAAI TIGRESSS! – Joyce gritou e, ao olhar para o lado, percebeu a ausência de seu amigo – Valdir?
                Lucas estava com a posse de bola. Olhou à sua frente e notou a aproximação do adversário, que estava com a intenção de tomar-lhe a bola. Rapidamente, ele tocou para o companheiro mais próximo: Rodrigo, que protegeu-se com estendendo os braços para que nenhum jogador adversário pudesse se aproximar.
                O apoio da torcida continuava energeticamente forte. A bola era passada de pé em pé pelos jogadores dos TIGRES F.C, cautelosamente, não permitindo que o adversário pudesse tomá-la de seus pés.
                Ao mesmo tempo, os passos de Valdir eram lentos e ele caminhava por um corredor quase sem fim da escola. Seu coração batia fortemente, junto com o medo e apreensão do que poderia acontecer, acontecido, ou estar acontecendo com seu amigo. Seus olhos observavam o local vazio e cheio de armários.
                De repente, parou exatamente de frente para as janelas quebradas, onde o brilho do sol entrava. Observou os cacos e vidro jogados ao chão, junto de um objeto preto, um aparelho, celular...
                O celular de Guilherme...
                Ao pegá-lo, percebeu que só havia mensagens e ligações suas que seu amigo não respondera. Percebeu aquelas vidraças destruídas e o celular jogado e deu-se conta de que Guilherme havia estado ali, e que fizera algo repentino, por impulso... Algo por motivos tristes...
                Guilherme estava fora de si, Valdir podia deduzir, e só Deus sabia o que ele poderia fazer naquele estado depressivo...
                Porém, a questão maior era:
                Onde Guilherme poderia estar?
               
               
A vida vem a nós saindo da escuridão e existem momentos em que você deve ir atrás dos medos e enfrentá-la... 

Rodrigo estava com a bola de frente para o gol adversário. A platéia ficou em silêncio, esperando o melhor acontecer. Porém, antes que pudesse chutar, Rodrigo fora atingido por um dos jogadores adversários, sendo brutalmente derrubado ao chão, fazendo toda a torcida gritar, vaiando o time contra...

         
Uma vida pode surgir em você de fora da escuridão, quem você ira escolher para encarar isso,poderia ser uma pessoa que você confia,ou ser sábio, e o amor que eles tem por você ajudará a te guaiar até a luz, ou então você se perdera nessa escuridão, será que te darão escolhas nobres?


Valdir corria desesperadamente pelo corredor central do colégio, com a respiração forçada, arfando, desesperado...

 
         
Ou será que essa pessoa é alguém que está testando, alguem novo. 

A vida exige que você saia para fora da escuridão,quando sairmos, existe uma pessoa na sua vida com quem você pode contar. 


Lucas estava com a bola em posse. A torcida elevou o tom de gritaria. Joyce já não estava tão interada ao jogo, perguntando-se onde Valdir poderia estar. Então, desviou-se dos alunos, subiu as escadas e foi em direção a saída da quadra para procurar por seu amigo...

Alguém estará te observando quando você tropeçar e cair...


Valdir já estava na saída da escola... Então, observou tal cena... Parou, dilatou os olhos, a boca se abriu num ar de medo e desespero. Elevou suas mãos à cabeça e gritou:
- NÃO!!
Um carro estava parado em meio à calçada, com manchas de sangue na frente. O motorista estava apavorado e pedia por ajuda. Abaixo do carro... Os braços e pernas de alguém que Valdir conhecia...
Era Guilherme...


E nesse momento, te dará força para encarar seus medos sozinho.
            

    Lucas estava frente a frente com o goleiro adversário...

                Valdir ajoelhou-se...

                A torcida ficou em silêncio...

                Joyce encontrou Valdir e deparou-se com tal horrível cena...

                Lucas chutou fortemente a bola...

                Joyce puxou Valdir para trás, impedindo-o de aproximar-se do local do acidente...

                A bola entrou... A platéia foi à loucura...

                ... E, então, enquanto uma multidão gritava de alegria, apenas um ser solitário gritava de dor e desespero:
                

- GUILHERMEEEE!! - gritou Valdir Luciano.


sábado, 3 de março de 2012

Romance: Sucessos e Fracassos - Primeiro Volume

Sucessos e Fracassos
Valdir Luciano



Prólogo:
                Séculos. Décadas. Anos. Meses. Semanas. Dias. Horas. Minutos. Segundos. Milésimos...
                O quanto vale a pena viver?
                Quanto tempo você gostaria de viver livremente, sem obstáculos, nem montanhas, nem rochas? Quanto tempo você viveria sem pessoas más, sem inveja, ignorância, obsessões, vingança?
                Quanto tempo você gostaria de viver sem maldade, apenas ao lado da bondade?
                Quanto tempo você gostaria de viver sendo a pessoa mais feliz do mundo, ao lado das pessoas mais felizes do mundo?
                Quanto tempo?
                Eu me pergunto isso todos os dias da minha vida: Como seria o mundo se apenas existisse a felicidade?
                E a resposta que me vem à mente é: É impossível haver apenas felicidade.
                Sempre existirão pessoas más, sempre existirá a ganância, a luxúria, a inveja...
                Porém, são essas coisas que nos destacam quando temos um bom coração. As pessoas percebem a nossa bondade, nossa submissão, nosso amor pelo próximo.
                E quando as pessoas vêem isso em nós, a esperança cresce. A esperança de que algum dia – um dia não muito longe – somente a felicidade existirá.
                Esse dia não vai chegar, mas é o maior sonho que levamos todos os dias de nossas vidas. E até que morramos a levaremos conosco. Porque a esperança certamente é a única que morre.
                Questões, dúvidas, choros, risos, amores, temores... Eu passei por tudo isso em minha adolescência, e me orgulho de cada beijo, briga, a cada choro, a cada riso e tristeza... Porque tudo isso foi o responsável por me trazer onde estou hoje. Foram épocas boas, ao lado de amigos, inimigos, família... Coisas boas e ruins aconteceram, mas eu agradeço a Deus por terem acontecido. Porque tudo se transformou em lembranças.
                Pequenas lembranças.
                Pequenas e boas lembranças que eu levarei comigo para sempre.
                Hoje eu não sou a pessoa mais feliz do mundo, mas sinto que estou chegando lá.
                E então eu pergunto novamente:
                O quanto vale a pena viver?
                Eu digo que vale muito a pena viver cada segundo e milésimo do que a vida nos proporciona, seja ruim ou bom. Porque no final de tudo são essas coisas que te definirão, e quando você se for, as pessoas se lembrarão de tudo o que você viveu...
                ... E se lembrarão de que você foi feliz.
                Então viva sem medo de ser feliz, porque a felicidade é a alavanca que nos empurra e nos faz seguir em frente.


Capítulo 1Partida (primeira parte)
  
              As mãos do garoto faziam pequenos gestos com os dedos. Eles tocavam rapidamente o teclado, pressionando as inúmeras letras. Os olhos dele estavam atentos ao monitor. Aparentava estar teclando com alguém, e estava. A atenção era totalmente ligada ao computador. O alto Rock saia das enormes caixas de som instaladas em cima da pequena mesa ao lado da cama. O teto tremia com a vibração sonora. Mas Luciano não se importava. Seus ouvidos, seus olhos, boca e, claro, mãos, estavam interligados àquela máquina viciante.
                Ele era Valdir Luciano, um adolescente de quinze anos. Seus cabelos eram não muito longos, mas eram ondulados, escuros e cobriam as orelhas. Sua pele era clara e as inúmeras espinhas personalizavam sua aparência.
                Valdir era o típico jovem moderno: Tinha o famoso computador e, a partir dele, as mais variadas redes sociais: Orkut, MSN, Facebook, Twitter, entre outros.
                Estava teclando rapidamente, pois trocava palavras com o seu grande e melhor amigo, Guilherme Teixeira do Nascimento, através do Messenger:
Luciano:... Cara, você tem certeza?
Guilherme: Claro, mano! Meu pai vai trabalhar. Ele vai pegar o fusquinha e ai eu pego o Corsa dele e damos um rolê lá em Sampa. Não vai dar arrego, vai?
                Valdir pensou, observou bastante a palavra ‘arrego’. Sabia que aquilo era uma expressão que significava covardia, medroso... E ele não era nada disso – pelo menos seu ego machista lhe dizia isso.
                Seus pais jamais o deixariam sair no meio da noite, ainda mais para vagabundar com os amigos, ainda mais de carro, ainda mais com um carro roubado, ainda mais sendo dirigido por uma pessoa que não tinha carteira de habilitação.
                Seus pais jamais deixariam, mas eles não precisavam saber. E isso a mente de Valdir fazia questão de destacar a seus olhos e ouvidos. Ele estava calado, mas conseguia ouvir:
                - Vá... Saia com seus amigos... Você nunca pode sair... Todos eles são populares porque podem sair à noite... Seus pais não precisam saber... Minta... Minta... Minta...
                Mentir.
                Valdir teria de mentir a seus pais para que pudesse escapar. Mas ele jamais faria isso. Era um bom garoto que fora mimado quando criança. Aprendera os bons modos e a grande lição de nunca esconder nada da família.
                Ele jamais mentiria. Jamais.
                - Mãe, pai, eu vou à casa do Guilherme fazer um trabalho de Biologia – ele disse.
                - Volte cedo! - os pais dele disseram desatentos, enquanto os olhos estavam grudados na TV.
                E então, Valdir saiu pela porta com um sorriso estampado no rosto.



                - Você só disse que íamos: eu, você e o Ronaldo – Valdir sussurrou a Guilherme, enquanto observava as duas lindas garotas da mesma idade que ele sentadas no banco detrás do automóvel Corsa cinza. Ele não estava com medo das meninas, tão pouco furioso. Estava apenas envergonhado, pois não era do tipo ‘bonitão da escola’ e suas espinhas avermelhadas certamente concordavam com isso.
                Guilherme, um jovem alto com pele moreno-clara e cabelos escuros e curtos, sorriu e cutucou Ronaldo Nunes, altura mediana, cabelo moicano loiro e pele branca. Era óbvio que estavam caçoando do receio de Luciano. Ele era uma das pessoas menos populares da escola, o que não significava que não podia ter amigos populares. E Guilherme e Ronaldo claramente eram.
                - Não se preocupe, amigão – Guilherme disse, puxando Valdir e batendo de leve em sua cabeça – Não precisa ficar com vergonha. Elas estão chapadas e nem vão notar essas bolotas em seu rosto. Fica tranqüilo. Você sabe beijar?
                Valdir hesitou as palavras, envergonhado, mas disse depois:
                - Claro. Eu sei... Eu sei.
                - Então não tem problema – Ronaldo o confortou e também bateu de leve em sua cabeça – Agora vamos entrar. Hoje a noite promete!
                Guilherme riu e assentiu, enquanto Valdir Luciano apenas olhava para o céu com aparência amedrontada.
                Em quê eu fui me meter?, ele pensou.

                O automóvel estava correndo tão rapidamente que a vista da cidade ao lado de fora era semelhante a borrões de tintas coloridas. O ponteiro apontava 150 quilômetros, e as mãos de Guilherme batiam repetidas vezes sobre a buzina, emitindo um irritante e alto barulho que alertava os carros à frente, fazendo-os desviarem do caminho.
                No banco detrás, Ronaldo beijava assediadamente uma garota de cabelos loiros. Suas mãos deslizavam por todo o corpo dela e tentavam chegar às partes mais íntimas. Porém, ela não permitia e isso o deixava ainda mais excitado. Enquanto ao seu lado, Valdir observava, paralisado, a paisagem afora da cidade de São Paulo à noite, enquanto sua companheira de cabelos morenos permanecia de braços cruzados e com aparência um tanto irritada. Ela estava esperando um pouco mais das atitudes dele, o que não estava acontecendo.
                Valdir observava as ruas, mas na verdade estava tentando não olhar para ela. O receio era tamanho que ele suava. Em sua mente passavam-se as palavras: idiota, burro, tonto, medroso... E, afinal, ele estava cooperando para ser nomeado por tudo aquilo.
                - Vai ficar mesmo quieto?! – a garota debochou olhando diretamente para ele, que fingia não estar ouvindo – EU ESTOU FALANDO COM VOCÊ, IDIOTA!
                Luciano virou-se para ela com uma aparência um tanto medrosa e disse em voz baixa:
                - Desculpe. Eu não... Não consigo...
                - Ah, pelo amor de Deus – ela exclamou e, em seguida, foi para o banco da frente para paparicar o motorista.
                - Desculpe, amor – Guilherme disse, sorrindo, enquanto seus olhos estavam atentos à direção – Motoristas não devem perder a concentração.
                A garota também sorriu e disse num tom suave e sexy:
                - Eu não vou te desconcentrar. Não muito...
                O carro continuava a correr em velocidade máxima. A garota morena aproximava-se de Guilherme, que parecia não se importar.
                E então, eles começaram a se beijar.
                Os olhos de Guilherme se fecharam e ele perdeu totalmente a concentração da direção. Valdir percebeu e gritou:
                - GUILHERME, PRESTA A ATENÇÃO NA DIREÇÃO! QUER QUE A GENTE MORRA?
                Ainda aos beijos e de olhos fechados, ele replicou:
                - Não se preocupe, cara... Essa pista é reta e longa... E não há carros por aqui... Hum...
                Certo. Não havia carros.
                Mas havia ônibus.
                Sem que ninguém percebesse, um ônibus surgiu na travessa de outra rua, ficando de frente para o carro dos garotos.
                Valdir percebeu, seu coração disparou-se em mil batimentos cardíacos e ele perdeu a respiração.
                - PÁRA! PÁRA GUILHERME!
                Guilherme interrompeu o beijo e olhou a frente. Seus olhos se dilataram e ele se espantou.
                A buzina do ônibus pôde ser ouvida e, então, um grande estrondo ecoou pela cidade de São Paulo.



Capítulo 1 – Partida (segunda parte)

O quanto vale uma vida, em sua opinião?
                O quanto vale uma respiração, um ofegar?
                O quanto vale um batimento cardíaco?
                O preço é alto. Mais alto do que se imagina. Não há Real, Dólar ou Euro que compre e nem prata ou ouro que se compare.
                A vida é um diamante que nasce com um brilho esplêndido e dura para sempre.
                As pessoas morrem, sim, mas as memórias permanecem para sempre vagando pelo universo.  Isso se chama ‘vida’. E quando elas morrem, podemos apenas oferecer nossas lágrimas.
                Lágrimas que dinheiro ou riqueza não podem comprar.

                

As lágrimas desciam lentamente em gotas seguidas umas das outras. As profundas olheiras escuras mostravam o cansaço e exaustidão que Valdir estava sentindo. Ele estava sentado em um extenso banco de espera. Suas mãos tremiam e sua aparência era amedrontada, aterrorizada, desesperada.
                O hospital não estava muito cheio, mas algumas pessoas estavam sentadas ao seu lado, pois esperavam por notícias de seus amigos, familiares, que por algum motivo estavam internados em um leito branco, sendo monitorados por máquinas e tomando medicamentos para melhorar o mais rápido possível. E Valdir Luciano era mais uma dessas pessoas que esperavam por notícias. Boas notícias.
                Ele ouviu passos lentos e podia sentir a tristeza se aproximando. Levantou a cabeça e avistou o médico que atendera ao seu amigo Ronaldo Nunes, o único acidentado da catástrofe de algumas horas atrás. Fora o único que sofrera graves ferimentos. Estava em estado grave e os profissionais estavam incertos sobre seu destino.
                Os olhos de Valdir encararam os do médico, que fechou os olhos e sacudiu a cabeça negativamente, fazendo uma linha reta com seus lábios. Suas mãos tocaram os ombros do garoto e, então, sentiu ele enfraquecer-se com a terrível notícia que não fora dita com palavras, mas com gestos e olhares:
                Ronaldo havia falecido.
                O rosto de Valdir se enrugou com tal expressão de dor e as lágrimas escorreram em tanta profusão que parecia uma forte correnteza de um rio prestes a explodir.
                O doutor abraçou o jovem e pôde sentir a mesma tristeza. Na verdade, não pudera. Somente Valdir e Deus sabiam tamanho sentimento de perda era aquele que estava sentindo.
                Guilherme surgiu vindo pelo corredor com o braço enfaixado e alguns hematomas em sua face, observou aquela melancólica cena e logo se deu conta do que acontecera: Baixou a cabeça, fechou os olhos com força e também se despejou em lágrimas ainda mais profusas que a de seu amigo, pois sabia, sentia, que fora o responsável por toda aquela tragédia. E jamais se perdoaria por tirar a vida de um grande amigo próximo. Independentes se eram amigos ou não, fora uma vida tirada de uma forma tão medíocre, infantil... E que custou caro, muito caro...
                Custou o eterno arrependimento de quem estava dirigindo o veículo.
                - Eu sinto muito, meu jovem – disse o médico, com peso nas palavras – Sinto muito mesmo. Fizemos tudo o que podíamos ao nosso alcance... Mas... Não era o que Deus queria...
                - Não... – Luciano sussurrava com dor no peito – Ronaldo... Não...não...
                As duas garotas que estavam no veículo surgiram no corredor, atrás de Guilherme. Também presenciaram aquela terrível cena e apenas se abraçaram aflitas. Todo aquele estranho e triste ar lhes dissera o que havia ocorrido. E sabiam que o melhor a fazer naquele momento era deixá-los em paz. Mas elas tinham em mente o tamanho sentimento de culpa... Na verdade, todos ali tinham, desde os jovens até os médicos que se esforçaram para não deixar que uma vida fosse embora para sempre.
                Mas, como o médico dissera, não era o que Deus queria...
                Em alguns minutos, Os pais de Valdir e Guilherme apareceram em diferentes portas de entrada. Correram, então, em direção aos filhos e ,antes que pudessem despejar toda a raiva por terem cometido um grave erro, apenas abraçaram-nos e deram todo o amor paterno possível, pois sabiam que era o único consolo possível naquele momento. Porque eles sabiam que haviam perdido um amigo, e sabiam que eram muito novos para suportarem tanta dor sozinhos.
                E então, solidários e emocionados, todos naquele corredor despejaram suas lágrimas e mais tristes sentimentos. E o silêncio pairou sobre o lugar.
               


  Dor.
                Já se machucou a ponto de sangrar? Já se feriu tanto que sentiu aquela terrível dor?
                Todos nós já nos machucamos alguma vez na vida. E já sangramos... Muito ou pouco...
                Mas essas são feridas carnais que se curam com o tempo. Com um medicamento e cuidados logo saramos...
                Mas a verdadeira ferida que realmente dói e é difícil se curar... É  a do coração.
                Eu estou machucado com esse tipo de ferida... E não sei quanto tempo vai continuar doendo aqui dentro do peito. Não sei se vou suportar tanta dor assim... É difícil... É ruim...
                É horrível.



                O espelho refletia o terno escuro que Valdir vestia por cima da camisa social branca. Seu cabelo estava mais curto e penteado socialmente para o lado esquerdo. Sua aparência não tinha expressão, mas tinha dor. Os olhos estavam avermelhados pelo choro de ontem e as olheiras continuavam expostas abaixo dos cílios. Porém, ele sabia que não poderia ir com aquela aparência exposta à multidão. Então pegou os óculos escuros do bolso e pôs sobre os olhos.
                O quarto estava escuro, as janelas fechadas e não havia iluminação daquela manhã. Ele não queria ver o sol. Não estava no clima de felicidade. Aquele seria um dia difícil, de despedida... Uma última despedida.
                - O carro está pronto, filho – Marta, sua mãe, disse ao entrar pela porta. Estava com vestes escuras de seda. Estava de luto.
                Todos estavam de luto. O dia estava de luto, pois perdera mais uma alma.
                - Eu já estou indo, mãe – Valdir disse com um meio sorriso. Queria mostrar a sua mãe que estava bem. Mas uma mãe sabe muito bem quando um filho está bem ou não – Eu preciso de um tempo sozinho.
                Marta assentiu e fechou a porta.
                Valdir caminhou até seu pequeno guarda-roupas, abriu a primeira gaveta e puxou uma fotografia: Várias crianças reunidas e trajadas com um uniforme escolar cinza. Estavam divididas em duas fileiras. A da frente era onde Valdir estava e, ao seu lado, Ronaldo Nunes. Os dois sorriam, assim como todas as outras crianças.
                Aquela era uma fotografia da oitava série, no dia de formatura. Naquele dia ele, Ronaldo e Guilherme prometeram sempre estar juntos e serem grandes amigos dentro e fora da escola. Prometeram aquilo para todo o sempre.
                Mas, infelizmente, não haveria mais como continuar com aquela promessa...
                A única promessa que Valdir tinha em mente naquele momento... Era de nunca esquecer-se de um grande amigo e companheiro de escola, e de vida.
                Voltou a guardar a imagem na gaveta, fechou-a lentamente com sua mão direita, e viu uma lágrima cair por sobre ela.

                O ambiente gramado e verdeado era calmo e silencioso. As inúmeras lápides cinza estavam cravadas sobre o solo com nomes de pessoas que partiram desta vida. O céu estava completamente azulado, completamente sem nuvens. O sol não era forte, mas era gostoso e seus raios misturavam-se com o leve soprar do vento, que levantava as folhas secas e caídas do cemitério.
                Ali estava uma pequena multidão de amigos, familiares, companheiros e até mesmo desconhecidos que não pouparam tempo para se despedir de Ronaldo Nunes, pois não haveria outro momento para fazer isso. Aquela era a última vez.
                Diante tantas pessoas vestidas de preto, lá estava Valdir Luciano de pé, com as mãos unidas abaixo do estômago. Ao seu lado direito estavam seus amigos de escola, e no esquerdo seu amigo Guilherme Nascimento, que observava tristemente o caixão marrom descer em ritmo lento, desaparecendo aos poucos da vista de todos os que estavam ali.
                - A culpa é minha – Guilherme sussurrou e somente Valdir pôde ouvir – A culpa é minha e eu vou ter que carregar isso comigo pelo resto da vida...
                Valdir não desviou o olhar para seu amigo, mas disse indiretamente:
                - Apenas aconteceu, Gui. Aconteceu...
                A partir daquelas últimas palavras ditas, as lágrimas de Guilherme começaram a cair. Ele se sentiria culpado até o dia de sua morte. Nunca em sua vida sentiu tanta dor, tanto remorso...
                A família de Ronaldo virou-se para Guilherme, os amigos dele também... E aos poucos todos que ali estavam o encarava com olhos inexpressivos. Poderiam apontar os dedos diretamente a ele e chamá-lo de assassino... Poderiam xingá-lo, culpá-lo por toda aquela tragédia...
                Mas o que eles fizeram fez com que Guilherme despejasse todo o seu choro e se emocionasse de um modo como nunca sentira antes:
                Eles o abraçaram. Todos eles, como se fossem uma única família. Porque sabiam que o que acontecera foi uma tragédia, algo inesperado. Sabiam que Guilherme era um bom garoto, um bom amigo, que tinha um bom coração, que apenas estava tentando curtir uma vida jovem... Mas que terminou em algo que ele jamais desejaria.
                Em meio toda aquela união em luto, Valdir disse em voz baixa, observando a lápide sendo colocada:
                - Adeus, amigão...
                E na lápide estava escrito:


                “Ronaldo Nunes de Sá.
                Uma boa criança, um bom garoto, um bom amigo.
                1992-2008


                O vento estava forte, aparentava trazer nuvens escuras e carregadas. Pela varanda do segundo andar de sua casa, Valdir observava o horizonte da cidade de São Paulo. Os altos prédios cobriam parte do céu, e a visibilidade era pouca por causa da poluição.
                Passaram-se três horas desde a última despedida de Ronaldo e ele ainda não estava acreditando no que passou durante os últimos dias. Não conseguia entender por que ele e seus amigos tiveram tais experiências. Aquilo era coisa de adultos e não de adolescentes. Não podia ter acontecido, não era para ter acontecido.
                Mas aconteceu.
                E agora ele tinha que se conformar e seguir em frente, porque o ano estava apenas começando e muitas outras situações ainda haveriam de acontecer. Se eram boas ou ruins ele não sabia, mas estava se preparando a cada dia, porque o tempo estava passando... E ele estava crescendo.
                Enquanto fechava os olhos e deixava a brisa soprar em seu rosto, ele sentiu uma mão tocar suave em seus ombros. Pensou ser Maria, sua mãe, ou Paulo, seu pai. Mas não eram eles.
                - Como está se sentindo? – ela perguntou, e quando Valdir se virou percebeu que era Joyce Gomes, sua vizinha e amiga de infância, altura mediana, pele clara e cabelos castanhos cacheados.
                - Não sei – ele respondeu com um meio sorriso – Nunca presenciei algo assim. Ronaldo era meu amigo...
                - Era meu amigo também – ela completou e fechou os olhos – Eu sinto que ele vai estar entre nós para sempre. Vai estar nos nossos corações e vamos nos lembrar dos bons momentos que passamos com ele, tudo bem? Agora, temos que seguir em frente.
                - Se eu tivesse gritado mais alto... Talvez o Guilherme parasse o carro e... E...
                Joyce não permitiu que Valdir continuasse e o interrompeu com um forte e longo abraço. Ele explodiu em lágrimas, enquanto Joyce o consolava dizendo que tudo iria ficar bem. Mas ela sabia que só tempo confirmaria isso.
                Ela fechou os olhos e aquele momento afetuoso permaneceu diante do pôr do sol, escondido entre as nuvens negras de uma possível tempestade aproximando-se da cidade.


                Você já se perguntou se somos nós que fazemos os momentos em nossas vidas ou se são os momentos da nossa vida nos fazem?
Se você pudesse voltar no tempo e mudar apenas uma coisa na sua vida, você mudaria?
 E se mudasse, será que essa mudança tornaria a sua vida melhor? Ou será que ela acabaria partindo o seu coração? Ou partindo o coração de outro? Será que você escolheria um caminho totalmente diferente? Ou você só mudaria uma única coisa? Um único momento? Um momento que você sempre quis ter de volta...
Ontem eu brincava com Ronaldo, jogávamos futebol, videogame... Paquerávamos garotas, corríamos atrás de pipas... Conversávamos como irmãos, aconselhávamos um ao outro... Ríamos nos fins de tarde, passeávamos sobre a quadra da escola...
Foram bons momentos que ficaram para trás. E agora tornaram-se apenas lembranças.
Boas lembranças.
Eternas lembranças que permanecerão em minha memória.
- Faça o que tem de fazer, desde que seja feliz – ele me disse uma vez.
E em homenagem a ele que vou seguir em frente, carregando cada bom momento que tivemos juntos.
Hoje foi um dia de dor, despedida...
A partida.
Amanhã será um novo dia, e quando o sol nascer novamente eu vou abrir os olhos e seguir em frente.
Por você, Ronaldo, eu vou seguir em frente...  



E então Valdir parou de escrever, observou a última frase e sorriu. Deixou a caneta ao lado do caderno e uma lágrima caiu sobre a folha.
E então ele fechou o caderno.