Translate

sábado, 3 de março de 2012

Romance: Sucessos e Fracassos - Primeiro Volume

Sucessos e Fracassos
Valdir Luciano



Prólogo:
                Séculos. Décadas. Anos. Meses. Semanas. Dias. Horas. Minutos. Segundos. Milésimos...
                O quanto vale a pena viver?
                Quanto tempo você gostaria de viver livremente, sem obstáculos, nem montanhas, nem rochas? Quanto tempo você viveria sem pessoas más, sem inveja, ignorância, obsessões, vingança?
                Quanto tempo você gostaria de viver sem maldade, apenas ao lado da bondade?
                Quanto tempo você gostaria de viver sendo a pessoa mais feliz do mundo, ao lado das pessoas mais felizes do mundo?
                Quanto tempo?
                Eu me pergunto isso todos os dias da minha vida: Como seria o mundo se apenas existisse a felicidade?
                E a resposta que me vem à mente é: É impossível haver apenas felicidade.
                Sempre existirão pessoas más, sempre existirá a ganância, a luxúria, a inveja...
                Porém, são essas coisas que nos destacam quando temos um bom coração. As pessoas percebem a nossa bondade, nossa submissão, nosso amor pelo próximo.
                E quando as pessoas vêem isso em nós, a esperança cresce. A esperança de que algum dia – um dia não muito longe – somente a felicidade existirá.
                Esse dia não vai chegar, mas é o maior sonho que levamos todos os dias de nossas vidas. E até que morramos a levaremos conosco. Porque a esperança certamente é a única que morre.
                Questões, dúvidas, choros, risos, amores, temores... Eu passei por tudo isso em minha adolescência, e me orgulho de cada beijo, briga, a cada choro, a cada riso e tristeza... Porque tudo isso foi o responsável por me trazer onde estou hoje. Foram épocas boas, ao lado de amigos, inimigos, família... Coisas boas e ruins aconteceram, mas eu agradeço a Deus por terem acontecido. Porque tudo se transformou em lembranças.
                Pequenas lembranças.
                Pequenas e boas lembranças que eu levarei comigo para sempre.
                Hoje eu não sou a pessoa mais feliz do mundo, mas sinto que estou chegando lá.
                E então eu pergunto novamente:
                O quanto vale a pena viver?
                Eu digo que vale muito a pena viver cada segundo e milésimo do que a vida nos proporciona, seja ruim ou bom. Porque no final de tudo são essas coisas que te definirão, e quando você se for, as pessoas se lembrarão de tudo o que você viveu...
                ... E se lembrarão de que você foi feliz.
                Então viva sem medo de ser feliz, porque a felicidade é a alavanca que nos empurra e nos faz seguir em frente.


Capítulo 1Partida (primeira parte)
  
              As mãos do garoto faziam pequenos gestos com os dedos. Eles tocavam rapidamente o teclado, pressionando as inúmeras letras. Os olhos dele estavam atentos ao monitor. Aparentava estar teclando com alguém, e estava. A atenção era totalmente ligada ao computador. O alto Rock saia das enormes caixas de som instaladas em cima da pequena mesa ao lado da cama. O teto tremia com a vibração sonora. Mas Luciano não se importava. Seus ouvidos, seus olhos, boca e, claro, mãos, estavam interligados àquela máquina viciante.
                Ele era Valdir Luciano, um adolescente de quinze anos. Seus cabelos eram não muito longos, mas eram ondulados, escuros e cobriam as orelhas. Sua pele era clara e as inúmeras espinhas personalizavam sua aparência.
                Valdir era o típico jovem moderno: Tinha o famoso computador e, a partir dele, as mais variadas redes sociais: Orkut, MSN, Facebook, Twitter, entre outros.
                Estava teclando rapidamente, pois trocava palavras com o seu grande e melhor amigo, Guilherme Teixeira do Nascimento, através do Messenger:
Luciano:... Cara, você tem certeza?
Guilherme: Claro, mano! Meu pai vai trabalhar. Ele vai pegar o fusquinha e ai eu pego o Corsa dele e damos um rolê lá em Sampa. Não vai dar arrego, vai?
                Valdir pensou, observou bastante a palavra ‘arrego’. Sabia que aquilo era uma expressão que significava covardia, medroso... E ele não era nada disso – pelo menos seu ego machista lhe dizia isso.
                Seus pais jamais o deixariam sair no meio da noite, ainda mais para vagabundar com os amigos, ainda mais de carro, ainda mais com um carro roubado, ainda mais sendo dirigido por uma pessoa que não tinha carteira de habilitação.
                Seus pais jamais deixariam, mas eles não precisavam saber. E isso a mente de Valdir fazia questão de destacar a seus olhos e ouvidos. Ele estava calado, mas conseguia ouvir:
                - Vá... Saia com seus amigos... Você nunca pode sair... Todos eles são populares porque podem sair à noite... Seus pais não precisam saber... Minta... Minta... Minta...
                Mentir.
                Valdir teria de mentir a seus pais para que pudesse escapar. Mas ele jamais faria isso. Era um bom garoto que fora mimado quando criança. Aprendera os bons modos e a grande lição de nunca esconder nada da família.
                Ele jamais mentiria. Jamais.
                - Mãe, pai, eu vou à casa do Guilherme fazer um trabalho de Biologia – ele disse.
                - Volte cedo! - os pais dele disseram desatentos, enquanto os olhos estavam grudados na TV.
                E então, Valdir saiu pela porta com um sorriso estampado no rosto.



                - Você só disse que íamos: eu, você e o Ronaldo – Valdir sussurrou a Guilherme, enquanto observava as duas lindas garotas da mesma idade que ele sentadas no banco detrás do automóvel Corsa cinza. Ele não estava com medo das meninas, tão pouco furioso. Estava apenas envergonhado, pois não era do tipo ‘bonitão da escola’ e suas espinhas avermelhadas certamente concordavam com isso.
                Guilherme, um jovem alto com pele moreno-clara e cabelos escuros e curtos, sorriu e cutucou Ronaldo Nunes, altura mediana, cabelo moicano loiro e pele branca. Era óbvio que estavam caçoando do receio de Luciano. Ele era uma das pessoas menos populares da escola, o que não significava que não podia ter amigos populares. E Guilherme e Ronaldo claramente eram.
                - Não se preocupe, amigão – Guilherme disse, puxando Valdir e batendo de leve em sua cabeça – Não precisa ficar com vergonha. Elas estão chapadas e nem vão notar essas bolotas em seu rosto. Fica tranqüilo. Você sabe beijar?
                Valdir hesitou as palavras, envergonhado, mas disse depois:
                - Claro. Eu sei... Eu sei.
                - Então não tem problema – Ronaldo o confortou e também bateu de leve em sua cabeça – Agora vamos entrar. Hoje a noite promete!
                Guilherme riu e assentiu, enquanto Valdir Luciano apenas olhava para o céu com aparência amedrontada.
                Em quê eu fui me meter?, ele pensou.

                O automóvel estava correndo tão rapidamente que a vista da cidade ao lado de fora era semelhante a borrões de tintas coloridas. O ponteiro apontava 150 quilômetros, e as mãos de Guilherme batiam repetidas vezes sobre a buzina, emitindo um irritante e alto barulho que alertava os carros à frente, fazendo-os desviarem do caminho.
                No banco detrás, Ronaldo beijava assediadamente uma garota de cabelos loiros. Suas mãos deslizavam por todo o corpo dela e tentavam chegar às partes mais íntimas. Porém, ela não permitia e isso o deixava ainda mais excitado. Enquanto ao seu lado, Valdir observava, paralisado, a paisagem afora da cidade de São Paulo à noite, enquanto sua companheira de cabelos morenos permanecia de braços cruzados e com aparência um tanto irritada. Ela estava esperando um pouco mais das atitudes dele, o que não estava acontecendo.
                Valdir observava as ruas, mas na verdade estava tentando não olhar para ela. O receio era tamanho que ele suava. Em sua mente passavam-se as palavras: idiota, burro, tonto, medroso... E, afinal, ele estava cooperando para ser nomeado por tudo aquilo.
                - Vai ficar mesmo quieto?! – a garota debochou olhando diretamente para ele, que fingia não estar ouvindo – EU ESTOU FALANDO COM VOCÊ, IDIOTA!
                Luciano virou-se para ela com uma aparência um tanto medrosa e disse em voz baixa:
                - Desculpe. Eu não... Não consigo...
                - Ah, pelo amor de Deus – ela exclamou e, em seguida, foi para o banco da frente para paparicar o motorista.
                - Desculpe, amor – Guilherme disse, sorrindo, enquanto seus olhos estavam atentos à direção – Motoristas não devem perder a concentração.
                A garota também sorriu e disse num tom suave e sexy:
                - Eu não vou te desconcentrar. Não muito...
                O carro continuava a correr em velocidade máxima. A garota morena aproximava-se de Guilherme, que parecia não se importar.
                E então, eles começaram a se beijar.
                Os olhos de Guilherme se fecharam e ele perdeu totalmente a concentração da direção. Valdir percebeu e gritou:
                - GUILHERME, PRESTA A ATENÇÃO NA DIREÇÃO! QUER QUE A GENTE MORRA?
                Ainda aos beijos e de olhos fechados, ele replicou:
                - Não se preocupe, cara... Essa pista é reta e longa... E não há carros por aqui... Hum...
                Certo. Não havia carros.
                Mas havia ônibus.
                Sem que ninguém percebesse, um ônibus surgiu na travessa de outra rua, ficando de frente para o carro dos garotos.
                Valdir percebeu, seu coração disparou-se em mil batimentos cardíacos e ele perdeu a respiração.
                - PÁRA! PÁRA GUILHERME!
                Guilherme interrompeu o beijo e olhou a frente. Seus olhos se dilataram e ele se espantou.
                A buzina do ônibus pôde ser ouvida e, então, um grande estrondo ecoou pela cidade de São Paulo.



Capítulo 1 – Partida (segunda parte)

O quanto vale uma vida, em sua opinião?
                O quanto vale uma respiração, um ofegar?
                O quanto vale um batimento cardíaco?
                O preço é alto. Mais alto do que se imagina. Não há Real, Dólar ou Euro que compre e nem prata ou ouro que se compare.
                A vida é um diamante que nasce com um brilho esplêndido e dura para sempre.
                As pessoas morrem, sim, mas as memórias permanecem para sempre vagando pelo universo.  Isso se chama ‘vida’. E quando elas morrem, podemos apenas oferecer nossas lágrimas.
                Lágrimas que dinheiro ou riqueza não podem comprar.

                

As lágrimas desciam lentamente em gotas seguidas umas das outras. As profundas olheiras escuras mostravam o cansaço e exaustidão que Valdir estava sentindo. Ele estava sentado em um extenso banco de espera. Suas mãos tremiam e sua aparência era amedrontada, aterrorizada, desesperada.
                O hospital não estava muito cheio, mas algumas pessoas estavam sentadas ao seu lado, pois esperavam por notícias de seus amigos, familiares, que por algum motivo estavam internados em um leito branco, sendo monitorados por máquinas e tomando medicamentos para melhorar o mais rápido possível. E Valdir Luciano era mais uma dessas pessoas que esperavam por notícias. Boas notícias.
                Ele ouviu passos lentos e podia sentir a tristeza se aproximando. Levantou a cabeça e avistou o médico que atendera ao seu amigo Ronaldo Nunes, o único acidentado da catástrofe de algumas horas atrás. Fora o único que sofrera graves ferimentos. Estava em estado grave e os profissionais estavam incertos sobre seu destino.
                Os olhos de Valdir encararam os do médico, que fechou os olhos e sacudiu a cabeça negativamente, fazendo uma linha reta com seus lábios. Suas mãos tocaram os ombros do garoto e, então, sentiu ele enfraquecer-se com a terrível notícia que não fora dita com palavras, mas com gestos e olhares:
                Ronaldo havia falecido.
                O rosto de Valdir se enrugou com tal expressão de dor e as lágrimas escorreram em tanta profusão que parecia uma forte correnteza de um rio prestes a explodir.
                O doutor abraçou o jovem e pôde sentir a mesma tristeza. Na verdade, não pudera. Somente Valdir e Deus sabiam tamanho sentimento de perda era aquele que estava sentindo.
                Guilherme surgiu vindo pelo corredor com o braço enfaixado e alguns hematomas em sua face, observou aquela melancólica cena e logo se deu conta do que acontecera: Baixou a cabeça, fechou os olhos com força e também se despejou em lágrimas ainda mais profusas que a de seu amigo, pois sabia, sentia, que fora o responsável por toda aquela tragédia. E jamais se perdoaria por tirar a vida de um grande amigo próximo. Independentes se eram amigos ou não, fora uma vida tirada de uma forma tão medíocre, infantil... E que custou caro, muito caro...
                Custou o eterno arrependimento de quem estava dirigindo o veículo.
                - Eu sinto muito, meu jovem – disse o médico, com peso nas palavras – Sinto muito mesmo. Fizemos tudo o que podíamos ao nosso alcance... Mas... Não era o que Deus queria...
                - Não... – Luciano sussurrava com dor no peito – Ronaldo... Não...não...
                As duas garotas que estavam no veículo surgiram no corredor, atrás de Guilherme. Também presenciaram aquela terrível cena e apenas se abraçaram aflitas. Todo aquele estranho e triste ar lhes dissera o que havia ocorrido. E sabiam que o melhor a fazer naquele momento era deixá-los em paz. Mas elas tinham em mente o tamanho sentimento de culpa... Na verdade, todos ali tinham, desde os jovens até os médicos que se esforçaram para não deixar que uma vida fosse embora para sempre.
                Mas, como o médico dissera, não era o que Deus queria...
                Em alguns minutos, Os pais de Valdir e Guilherme apareceram em diferentes portas de entrada. Correram, então, em direção aos filhos e ,antes que pudessem despejar toda a raiva por terem cometido um grave erro, apenas abraçaram-nos e deram todo o amor paterno possível, pois sabiam que era o único consolo possível naquele momento. Porque eles sabiam que haviam perdido um amigo, e sabiam que eram muito novos para suportarem tanta dor sozinhos.
                E então, solidários e emocionados, todos naquele corredor despejaram suas lágrimas e mais tristes sentimentos. E o silêncio pairou sobre o lugar.
               


  Dor.
                Já se machucou a ponto de sangrar? Já se feriu tanto que sentiu aquela terrível dor?
                Todos nós já nos machucamos alguma vez na vida. E já sangramos... Muito ou pouco...
                Mas essas são feridas carnais que se curam com o tempo. Com um medicamento e cuidados logo saramos...
                Mas a verdadeira ferida que realmente dói e é difícil se curar... É  a do coração.
                Eu estou machucado com esse tipo de ferida... E não sei quanto tempo vai continuar doendo aqui dentro do peito. Não sei se vou suportar tanta dor assim... É difícil... É ruim...
                É horrível.



                O espelho refletia o terno escuro que Valdir vestia por cima da camisa social branca. Seu cabelo estava mais curto e penteado socialmente para o lado esquerdo. Sua aparência não tinha expressão, mas tinha dor. Os olhos estavam avermelhados pelo choro de ontem e as olheiras continuavam expostas abaixo dos cílios. Porém, ele sabia que não poderia ir com aquela aparência exposta à multidão. Então pegou os óculos escuros do bolso e pôs sobre os olhos.
                O quarto estava escuro, as janelas fechadas e não havia iluminação daquela manhã. Ele não queria ver o sol. Não estava no clima de felicidade. Aquele seria um dia difícil, de despedida... Uma última despedida.
                - O carro está pronto, filho – Marta, sua mãe, disse ao entrar pela porta. Estava com vestes escuras de seda. Estava de luto.
                Todos estavam de luto. O dia estava de luto, pois perdera mais uma alma.
                - Eu já estou indo, mãe – Valdir disse com um meio sorriso. Queria mostrar a sua mãe que estava bem. Mas uma mãe sabe muito bem quando um filho está bem ou não – Eu preciso de um tempo sozinho.
                Marta assentiu e fechou a porta.
                Valdir caminhou até seu pequeno guarda-roupas, abriu a primeira gaveta e puxou uma fotografia: Várias crianças reunidas e trajadas com um uniforme escolar cinza. Estavam divididas em duas fileiras. A da frente era onde Valdir estava e, ao seu lado, Ronaldo Nunes. Os dois sorriam, assim como todas as outras crianças.
                Aquela era uma fotografia da oitava série, no dia de formatura. Naquele dia ele, Ronaldo e Guilherme prometeram sempre estar juntos e serem grandes amigos dentro e fora da escola. Prometeram aquilo para todo o sempre.
                Mas, infelizmente, não haveria mais como continuar com aquela promessa...
                A única promessa que Valdir tinha em mente naquele momento... Era de nunca esquecer-se de um grande amigo e companheiro de escola, e de vida.
                Voltou a guardar a imagem na gaveta, fechou-a lentamente com sua mão direita, e viu uma lágrima cair por sobre ela.

                O ambiente gramado e verdeado era calmo e silencioso. As inúmeras lápides cinza estavam cravadas sobre o solo com nomes de pessoas que partiram desta vida. O céu estava completamente azulado, completamente sem nuvens. O sol não era forte, mas era gostoso e seus raios misturavam-se com o leve soprar do vento, que levantava as folhas secas e caídas do cemitério.
                Ali estava uma pequena multidão de amigos, familiares, companheiros e até mesmo desconhecidos que não pouparam tempo para se despedir de Ronaldo Nunes, pois não haveria outro momento para fazer isso. Aquela era a última vez.
                Diante tantas pessoas vestidas de preto, lá estava Valdir Luciano de pé, com as mãos unidas abaixo do estômago. Ao seu lado direito estavam seus amigos de escola, e no esquerdo seu amigo Guilherme Nascimento, que observava tristemente o caixão marrom descer em ritmo lento, desaparecendo aos poucos da vista de todos os que estavam ali.
                - A culpa é minha – Guilherme sussurrou e somente Valdir pôde ouvir – A culpa é minha e eu vou ter que carregar isso comigo pelo resto da vida...
                Valdir não desviou o olhar para seu amigo, mas disse indiretamente:
                - Apenas aconteceu, Gui. Aconteceu...
                A partir daquelas últimas palavras ditas, as lágrimas de Guilherme começaram a cair. Ele se sentiria culpado até o dia de sua morte. Nunca em sua vida sentiu tanta dor, tanto remorso...
                A família de Ronaldo virou-se para Guilherme, os amigos dele também... E aos poucos todos que ali estavam o encarava com olhos inexpressivos. Poderiam apontar os dedos diretamente a ele e chamá-lo de assassino... Poderiam xingá-lo, culpá-lo por toda aquela tragédia...
                Mas o que eles fizeram fez com que Guilherme despejasse todo o seu choro e se emocionasse de um modo como nunca sentira antes:
                Eles o abraçaram. Todos eles, como se fossem uma única família. Porque sabiam que o que acontecera foi uma tragédia, algo inesperado. Sabiam que Guilherme era um bom garoto, um bom amigo, que tinha um bom coração, que apenas estava tentando curtir uma vida jovem... Mas que terminou em algo que ele jamais desejaria.
                Em meio toda aquela união em luto, Valdir disse em voz baixa, observando a lápide sendo colocada:
                - Adeus, amigão...
                E na lápide estava escrito:


                “Ronaldo Nunes de Sá.
                Uma boa criança, um bom garoto, um bom amigo.
                1992-2008


                O vento estava forte, aparentava trazer nuvens escuras e carregadas. Pela varanda do segundo andar de sua casa, Valdir observava o horizonte da cidade de São Paulo. Os altos prédios cobriam parte do céu, e a visibilidade era pouca por causa da poluição.
                Passaram-se três horas desde a última despedida de Ronaldo e ele ainda não estava acreditando no que passou durante os últimos dias. Não conseguia entender por que ele e seus amigos tiveram tais experiências. Aquilo era coisa de adultos e não de adolescentes. Não podia ter acontecido, não era para ter acontecido.
                Mas aconteceu.
                E agora ele tinha que se conformar e seguir em frente, porque o ano estava apenas começando e muitas outras situações ainda haveriam de acontecer. Se eram boas ou ruins ele não sabia, mas estava se preparando a cada dia, porque o tempo estava passando... E ele estava crescendo.
                Enquanto fechava os olhos e deixava a brisa soprar em seu rosto, ele sentiu uma mão tocar suave em seus ombros. Pensou ser Maria, sua mãe, ou Paulo, seu pai. Mas não eram eles.
                - Como está se sentindo? – ela perguntou, e quando Valdir se virou percebeu que era Joyce Gomes, sua vizinha e amiga de infância, altura mediana, pele clara e cabelos castanhos cacheados.
                - Não sei – ele respondeu com um meio sorriso – Nunca presenciei algo assim. Ronaldo era meu amigo...
                - Era meu amigo também – ela completou e fechou os olhos – Eu sinto que ele vai estar entre nós para sempre. Vai estar nos nossos corações e vamos nos lembrar dos bons momentos que passamos com ele, tudo bem? Agora, temos que seguir em frente.
                - Se eu tivesse gritado mais alto... Talvez o Guilherme parasse o carro e... E...
                Joyce não permitiu que Valdir continuasse e o interrompeu com um forte e longo abraço. Ele explodiu em lágrimas, enquanto Joyce o consolava dizendo que tudo iria ficar bem. Mas ela sabia que só tempo confirmaria isso.
                Ela fechou os olhos e aquele momento afetuoso permaneceu diante do pôr do sol, escondido entre as nuvens negras de uma possível tempestade aproximando-se da cidade.


                Você já se perguntou se somos nós que fazemos os momentos em nossas vidas ou se são os momentos da nossa vida nos fazem?
Se você pudesse voltar no tempo e mudar apenas uma coisa na sua vida, você mudaria?
 E se mudasse, será que essa mudança tornaria a sua vida melhor? Ou será que ela acabaria partindo o seu coração? Ou partindo o coração de outro? Será que você escolheria um caminho totalmente diferente? Ou você só mudaria uma única coisa? Um único momento? Um momento que você sempre quis ter de volta...
Ontem eu brincava com Ronaldo, jogávamos futebol, videogame... Paquerávamos garotas, corríamos atrás de pipas... Conversávamos como irmãos, aconselhávamos um ao outro... Ríamos nos fins de tarde, passeávamos sobre a quadra da escola...
Foram bons momentos que ficaram para trás. E agora tornaram-se apenas lembranças.
Boas lembranças.
Eternas lembranças que permanecerão em minha memória.
- Faça o que tem de fazer, desde que seja feliz – ele me disse uma vez.
E em homenagem a ele que vou seguir em frente, carregando cada bom momento que tivemos juntos.
Hoje foi um dia de dor, despedida...
A partida.
Amanhã será um novo dia, e quando o sol nascer novamente eu vou abrir os olhos e seguir em frente.
Por você, Ronaldo, eu vou seguir em frente...  



E então Valdir parou de escrever, observou a última frase e sorriu. Deixou a caneta ao lado do caderno e uma lágrima caiu sobre a folha.
E então ele fechou o caderno.
Continua.