Translate

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Confissões de um Escritor - O Nascimento (10)



Capítulo 10 –

         
   Eu acordei e percebi que era, mais ou menos, cinco da manhã. O dia estava claro e ensolarado, perfeito. Respirei fundo e senti aquela sensação de ar fresco, sem poluição. Estava frio, mas um frio gostoso. Enfim: Eu havia acordado com disposição. O motivo?
            O dia havia chegado. Sim. Aquele grande dia que eu tanto desejara: Era o meu primeiro dia de aula na pré-escola – não só o meu, mas o primeiro dia de todas as crianças da minha idade.
            Rodrigo, meu amigo, também estudaria comigo, o que me deixava completamente feliz, pois já iria com alguém conhecido. Mas eu sabia que faria muitas amizades naquele lugar – muitas delas me acompanhariam para o resto da vida.
            Escovei os dentes, tomei café da manhã bem reforçado, me arrumei com as melhores roupas que tinha – inclusive o meu tênis preferido que acendia as luzes nas laterais – e sentei-me diante da televisão, assistindo pela última vez o Vila Sésamo e Teletubbies. Depois daquele dia, eu jamais voltaria a assisti-los, pois estaria aprendendo a ler e escrever – era o que eu esperava.
            - Vamos Valdir, está na hora – disse minha mãe, saindo pela porta e esperando-me. Estava na hora. Estava na hora. Estava na hora!
            Eu desliguei a televisão e, por uns segundos, tive um momento de nostalgia, lembrando-me de todas as manhãs que acordava, deitava-me ao sofá e caía no sono enquanto assistia aos melhores programas infantis que passavam na T.V Cultura e no SBT. Mas eu não poderia ficar triste, pois estava entrando em um novo mundo, uma nova era:
            A era escolar.
           
            Quando minha mãe estava se aproximando da escolinha, avistamos aquela multidão de pais que seguravam as mãos de seus filhos, enquanto esperavam que o portão principal se abrisse e as crianças entrassem. Naquele exato momento, senti um friozinho na barriga e apertei forte a mão da mamãe. Claro que estava ansioso para entrar ao lugar, mas não sabia se poderia agüentar cinco, ou seis horas, longe dela. Acho que essa é a primeira impressão que as crianças possuem ao ir pela primeira vez á escola. Você não se dá conta de que sua mãe não vai estar lá, até que ela solta a sua mão e se despede com um beijo. E por mais que eu quisesse estudar, não queria deixá-la ir.
            O portão principal se abriu e pude ver dezenas de crianças mimadas chorando, implorando que seus pais entrassem junto com eles. Eu também era mimado e não fiquei para trás: Rastejei-me, agarrei a saia de minha mãe e não desgrudei até que ela entrasse comigo.
            - Valdir, me solta! Eu não posso entrar. Você vai entrar sozinho. Olha lá, as outras crianças não estão fazendo escândalo e estão entrando educadamente! Faça o mesmo!
            Eu não sabia de qual criança ela estava falando especificamente, pois só conseguia avistar crianças piores que eu tentando fugir do lugar, correndo pelas ruas como se uma catástrofe estivesse prestes a acontecer e elas estivessem se refugiando.
            E eu chorava, gritava, berrava, babava na roupa nova, mas, assim como no caso de ir á igreja, eu também não teria escolha: Eu seria obrigado a entrar na escolinha, sentar a bunda na cadeira e olhar para frente até o término. Seria esse mais um desafio?
           
            Olhei para frente e avistei a enorme lousa verde com vários símbolos que, aparentemente,  ainda não conhecia: Eu estava dentro da escolinha,  minha mãe já havia ido embora e eu fazia bico e já contava os segundos para ela vir me buscar. Ao meu redor, muitas crianças – umas vinte, mais ou menos – sentadas em suas cadeiras, conversando umas com as outras – por certo, muitas se conheciam, com exceção de mim -.
            De repente, vi uma pessoa entrando pela porta do local e me animei: Era meu grande amigo, e vizinho: Rodrigo. O alívio tomou conta de mim e eu tive a certeza de que, afinal, teria uma boa companhia ali.
            Aquele era o início de uma grande e longa história. Apenas o primeiro passo do destino. O primeiro passo para um grande sonho ainda não realizado, mas que - pouco a pouco - está se tornando realidade:
              Ser um Escritor.


               Fim.


Valdir Luciano, 2011