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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Confissões de um Escritor - O Nascimento (3)



Capítulo 3 –

            Jardim Paineira, Itaquaquecetuba – SP. Um bairro de classe nem média e nem baixa. Os moradores até que tinham boas condições de vida – só não gostavam do lugar, e não era para menos: O bairro não era asfaltado, o ambiente era um tanto sujo e a sensação era de um mundo exilado de São Paulo, como se fôssemos banidos da sociedade. E quando queríamos fazer compras e caminhar em algumas áreas de lazer, tínhamos uma cidade ao nosso redor: Itaquaquecetuba!
            Não que a cidade seja outro mundo exilado – mas era quase isso: Não havia lojas em que se dava prazer em entrar e gastar nosso dinheiro. Não havia lanchonetes confiáveis em que pudéssemos satisfazer nossa fome sem se preocupar com as nojeirinhas contidas nos lanches. E a praça de lazer então? É melhor não comentar sobre tal lugar...
            Enfim, não imaginaria que ao nascer teria tudo isso – independente se fosse bom ou não – rodeado em minha vida. E se, atualmente, Itaquaquecetuba ainda não é um bom lugar para se morar – digo especificamente aos ricos, porque ao pobre não há lugar melhor -, acredito que antigamente era pior, pois com certeza só tinha mato naquela época. Poderiam ter criado um zoológico pelo tamanho do matagal.
            O bairro do Jardim paineira marcou minha vida, pois foi onde conheci os meus primeiros amigos. Foi onde me enturmei com a boa vizinhança. Foi onde cresci. Os moradores do lugar são muito companheiros e unidos. Minha mãe disse que quase todas as pessoas do lugar se mudaram para lá ao mesmo tempo. É como se todos resolvessem ir para um lugar, mesmo que não se conhecessem. E então, os vizinhos conversavam ao entardecer – saindo para as ruas -, comemoravam datas festivas juntos e, pouco a pouco, a amizade se construiu naquele bairro.
            O primeiro laço de amizade que minha família obteve foi com a família dos Senna. Eles se mudaram para o bairro não muito depois de nós. A família deles era constituída por três pessoas: Ayrton, Maria e Rodrigo – que nascera em 1992, um ano antes de mim -. Alguns anos mais tarde, Rodrigo teve uma irmã: Natália.
            Lembro-me perfeitamente do dia em que conheci Rodrigo – não a data, mas os acontecimentos -: Dora (apelido de sua mãe) fora á minha casa conversar com a minha mãe – por certo conhecê-la -. As duas conversavam tantas coisas e eu não conseguia entender absolutamente nada, e ficava escondido por trás da saia da minha mãe. Enquanto por trás da calça de Maria escondia-se Rodrigo, um garoto branco, do cabelo liso. Eu o reparava com olhos curiosos e ele também fazia o mesmo. Claro, éramos pequenos e a curiosidade era certa. Porém, não sei o que deu em mim e nunca soube o motivo: Peguei uma pedra e atirei-a contra ele, que começou a chorar. Crianças pequenas são um bando de capetinhas, é isso o que eu deduzo agora que estou crescido com tantos pequeninos ao meu redor.
            E, por incrível que pareça, após a pedrada, iniciei um laço de amizade com ele. É claro que ele não seria o único, pois muitos novos amigos estariam por vir.



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