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quinta-feira, 28 de julho de 2011

Medo da Noite

Baseado em fatos reais.

Prólogo:

Noite.
O portal para a escuridão.
O momento exato onde nossos olhos se fecham e nossos medos acordam...


Capítulo 1 –

                -... E o príncipe salvou a princesa dos ladrões e eles viveram felizes para sempre – disse Marisa, finalizando aquela história que contara ao seu filho, Júnior –. E então, você gostou?
                - Não gostei, mãe! – exclamou o garoto, insatisfeito com o desfecho daquele conto – A história é chata e eu odeio finais com ‘felizes para sempre’. E não tinha nenhuma parte de terror. Nem deu medo!
                Sua mãe sorriu, fechando o pequeno livro infantil e cobrindo o menino com um lençol de algodão.
                - Você tem apenas oito anos e este livro é para a sua idade. Então, não reclame. Quando estiver mais velho poderá ler até os livros de Stephen King.
                - Quem é ele?
                - Não importa – disse ela, beijando-o na testa –, durma com os anjos e cuidado com o bicho papão.
                Júnior sorriu e disse confiante:
                - Bicho papão não existe, mãe!
                 - Bem, contanto que você não olhe embaixo da cama – brincou e, em seguida, apagou as luzes e fechou a porta.
                Por um breve momento, Júnior sentiu certo frio no estômago, pois não gostava de dormir com a luz apagada – mesmo que nunca tenha admitido à Marisa. O escuro lhe dava a estranha impressão de que o quarto ficava maior e sem saída, e ele jamais se moveria naquela escuridão.
                Eu não posso ter mais medo do escuro. Eu já sou grande, pensou ele, encorajando-se a dormir tranquilamente. Tudo o que tinha que fazer era ligar a televisão de seu quarto, colocar no canal infantil e assistir até cair no sono. E foi o que ele fez.
                Não demorou muito e o controle remoto escapou de suas mãos:
                Ele já estava dormindo.


Capítulo 2:

                Seus escuros e grandes olhos se abriram de repente: Ele ouviu algo. Não sabia o que era, mas algum barulho o despertara daquele sonho com o Naruto.
                Júnior não estava ouvindo absolutamente nada. O silêncio era tamanho que chegava a incomodar os ouvidos. Seus olhos buscavam atentamente o teto branco, procurando por qualquer som que ecoasse sobre aquele quarto.
                Alguns sons podiam ser ouvidos sobre aquela cama: O som das ruas.
                O barulho do motor do ônibus, rugindo, os passos de salto alto de mulheres que voltavam dos mais variados tipos de trabalho; de bêbados cantarolando desafinadamente pelas calçadas até serem barrados pela polícia, ou apedrejado pelos vizinhos sonolentos.
                De certa forma, tudo aquilo confortava Júnior. Eram típicos barulhos da noite que ele estranharia se não os ouvisse.
                Ela olhou para a televisão: A programação estava fora do ar, emitindo aquele irritante barulho de chiado. O garoto procurou o controle remoto em seu colo, em sua cama, embaixo dos lençóis: Não os encontrou.
                Naquele instante, o sono já se afastara de sua mente e os seguintes acontecimentos o deixou intrigado: O miar sofrido dos gatos – que cambaleavam sobre os muros residenciais; o forte latido dos cães que, de vez em quando, avistavam pessoas passando pelas ruas, gatos, ou até mesmo seres invisíveis aos olhos humanos – dizem que animais possuem sexto sentido...
                O barulho da TV o irritava cada vez mais. Porém, levantar-se da cama e caminhar até o aparelho era um caminho muito, muito longo para Júnior. Ainda mais se sabendo o que poderia surgir no trajeto, pois o escuro é uma caixinha – negra – de surpresas.
                Um estranho vulto chamou a atenção em seus olhos, mas eles não queriam encontrá-lo e encaravam a televisão, mesmo sabendo que ‘a coisa’ estava se movimentando na janela.
                O coração pulsou mais rápido e Júnior voltou às pressas para debaixo das cobertas, enrolando-se até a cabeça, respirando com dificuldade. O silêncio do quarto proporcionava-lhe a experiência de ouvir os batimentos de seu coração. Seus olhos, por mais que tentassem, não queriam se fechar, pois Júnior sabia que a qualquer momento a ‘coisa’ poderia atacá-lo, e ele estaria pronto para se defender, atento, observando quase perfeitamente através da transparência do lençol fino.
                O chiado da TV continuava, mas o garoto acatou-o e o transformou em uma companhia sonora. Pelo menos ele não iria se sentir tão sozinho.
                De repente, o barulho parou. O silêncio desceu novamente àquele quarto, apenas deixando o soprar do vento cantarolar aos assobios pelo lugar.
                Júnior assustou-se. Quem desligou a TV? , questionou, enquanto respirava com a boca, pois as narinas já não eram os suficientes para arfar todo o ar requerido pelos pulmões, pois o seu coração estava drasticamente acelerado.
                O menino só conseguia imaginar o vulto pairando na janela, o espreitando para logo após levá-lo a Deus sabe onde.
                O vento dobrou sua força e um som de panos se rebatendo podiam ser ouvidos. Talvez a ‘coisa’ estava trajada a uma capa grande e negra que o cobriria, fazendo-o desaparecer para sempre. A imaginação de Júnior não tinha limites, nem o seu medo.
                Eu sou homem, pensou, papai disse que homens não podem ter medo de nada.
                Encorajado pelos conselhos de seu pai, ele se desenrolou numa questão de segundos e, rapidamente, olhou de frente para a janela. Não houve tempo de gritar, de xingar o monstro... Porque não havia absolutamente nada de sobrenatural ali – a não ser a velha cortina branca com bolinhas azuis que Marisa colocara há dois dias, mesmo sabendo que Júnior odiava branco.
                Ele, por sua vez, pudera respirar com calma. Voltou a deitar-se aliviado e refletiu que o monstro era a cortina, que se movimentava por causa do vento. Ele olhou para o canto esquerdo de sua cama e avistou o controle remoto no chão, com um boneco do Naruto pressionando o botão ‘desliga’ do objeto: Mais um alívio. Ninguém – nem fantasmas, nem um ladrão - havia desligado a TV, nem ela desligara sozinha. Talvez o vento da janela tivesse empurrado o boneco da garota ao lado da cama, fazendo-o cair exatamente em cima do botão de desligar do controle remoto. As coisas pareciam estar se encaixando e, de tanto refletir sobre aqueles cômicos acontecimentos, Júnior voltou a cair no sono. Parecia que as sessões de mistérios da noite finalmente haviam acabado.
                Ele dormiu.


Capítulo 3:

                Júnior acordou novamente, independente de sua vontade. Abriu os olhos e sua aparência era um tanto estressada. Não era para menos, já era a segunda vez que despertava do sonho com o Naruto, e isso o já estava irritando.
                Porém, ele não acordara por barulho algum, ou por medo, mas, sim, por necessidade: Estava com vontade de fazer xixi. E mesmo que não quisesse levantar-se da cama, não havia alternativa: Ele teria que ir ao banheiro.
                Àquela hora da madrugada já não se ouviam mais barulhos – nem mesmo os das ruas. Parecia que os cachorros finalmente se cansaram de latir, os gatos de miar e todas as pessoas estavam realmente dormindo. Isso tudo era bom para o garoto. Porém, agora ele não tinha mais companhias – nem sonoras, nem humanas...
                Júnior fechou os olhos e tentou pensar em algo para sonhar, mas apenas conseguia imaginar as palmadas que levaria de sua mãe se acordasse de manhã com o colchão molhado de urina. O aperto na bexiga aumentava e ele não teve escolha:
                Júnior levantou-se da cama.
                A princípio, ele correria em direção ao banheiro, mas à noite o caminho parecia ainda mais longo, e ele temia deparar-se com algo inesperado.
                Seus olhos reviravam o quarto: Cada objeto parecia ser um monstro naquele escuro. As cortinas flutuavam através do vento, os bonecos nas prateleiras criavam enormes sombras nas paredes – que pareciam se mexer – por causa da luminosidade das ruas. E a porta...
                A porta. Inimiga número ‘UM’ do garoto. Era o seu grande medo, pois não se sabia o que poderia haver por trás. Alguém poderia estar espreitando-o, esperando o momento certo para levá-lo Deus sabe onde.
                Àquela altura, era difícil sentir tanto medo quando o maior temor de Júnior era molhar o pijama branco com bolinhas azuis.
                Rapidamente, ele correu a pés descalços em direção a porta.
                Sua mão tocou levemente à fechadura e seus dedos giraram o trinco: A porta destrancou-se e, ao mesmo tempo, os bonecos da prateleira caíram ao chão numa reação em cadeia.
                Os olhos de Júnior sobressaltaram. O terror tocou em sua mente, abrindo a mais medonha imaginação que ele podia ter.
                Quem derrubara os bonecos? Uma força física? Ou invisível?
                As questões tomavam sua consciência, enquanto seus olhos se fecharam e proibiram-no de avistar qualquer fenômeno daquele quarto.
                De repente, o som de panos se rebatendo novamente. Júnior tinha certeza de que era a cortina e quando seus olhos abriram curiosos, observaram a mesma flutuando alto, tão alto que tocava as prateleiras, tentando arrastar tudo o que houvesse de solto pro ali. Por certo, já havia arrastado.
                Júnior olhou para os bonecos ao chão e, logo em seguida, às prateleiras: O alívio. Não fora nada demais, apenas um ato do vento e a força física. E mesmo que ele não soubesse nada de física, sabia que não haveria de se preocupar. Contudo, fora apenas o vento.
                Ele arfou. Estava mais calmo, e isso o encorajou a puxar a porta rapidamente, sem frescuras.
                Ao abri-la, deparou-se com um mar de escuridão infinito: Um vago e extenso corredor enfeitado de quadros nas paredes. Quadros de pintores. Pintores falecidos...
                O frio no estômago retornou com sobrecarga e Júnior engoliu em seco, enquanto decidia: Se arriscar e caminhar naquela passagem negra e medonha, ou voltar para a cama e urinar no colchão?
                As palmadas da mamãe doíam mais do que seu medo do escuro: Ele resolveu continuar.
                Com olhos arregalados e atentos, Júnior começou a caminhar pelo corredor, deixando a porta de seu quarto aberto – no caso do ‘monstro’ aparecer e ele precisar voltar correndo -. Os quadros nas paredes eram  assustadores à noite. Os rostos desfigurados pelos artistas deixavam a imagem com uma expressão de horror, maldade...
                Júnior odiava aquelas pinturas. Principalmente, a da Mona Lisa – que parecia sorrir demoniacamente para ele, aparentando seguir seus movimentos com os olhos, distorcendo-se no quadro. O garoto fazia questão de nem sequer observá-la.
                No lugar, havia duas portas: Uma ao lado esquerdo e outra no lado direito – que era o quarto de seus pais.
                Os passos dele eram lentos. Ele não queria correr e acordar, não somente os pais, mas os outros seres que poderiam estar escondidos entre aquela casa.
                O silêncio era profundo e não se ouvia nada. Ao passar pela porta de seus pais, ele sentiu-se seguro mas, ao girar sua cabeça para o lado esquerdo, deixou de respirar por alguns segundos, fazendo o suor escorrer de sua testa: Aquele era o quarto de hóspedes, vazio, quieto – quieto demais. Júnior tinha uma intuição de que alguém habitava aquele quarto. Alguém que ele não conhecia, e que não queria conhecer.
                A velocidade dos passos aumentou.
                O corredor parecia não ter fim. A visibilidade era pouca e a iluminação do lugar só poderia ser ligada através do quarto de seus pais. A respiração era forçada e o cabelo liso do garoto já estava molhado de tanta transpiração.
                Pouco a pouco, Júnior podia avistar a enorme porta do banheiro que estava quase alerta, dando-lhe a impressão de que já havia alguém lá.
                Desconfiado, ele entrou ao local escuro, batendo nas paredes para encontrar o plugin que ligava a luz. Para seu desespero, ele não encontrou, o que do deixou ainda mais amedrontado.
                A urina já estava pingando em seu shorts e Júnior não teve outra escolha a não ser urinar no escuro.
                Mesmo não enxergando nada, ele sabia que o vaso sanitário estava um pouco mais à frente. Deu alguns curtos passos a frente e abaixou a calça moletom de seu pijama: O líquido começou a sair e, logo, ouvia-se um som semelhante as águas corredeiras de um rio, ou uma torneira enchendo um balde vazio. Júnior estava sentindo o alívio percorrer o seu corpo e sair pelo órgão pequeno. Por alguns segundos, perdeu o medo e ansiedade. Fazer xixi estava sendo muito confortante para ele.
                Porém, de repente, o terror voltou em maior quantidade, fazendo seu coração saltar garganta afora: Júnior pressentiu uma silhueta humana passar rapidamente sobre os corredores... Uma silhueta branca, sem definições faciais e corporais... Como um pano coberto a um alguém...      
                Os olhos escuros cintilaram. A paralisação dos movimentos foi certa. A respiração foi bastante forçada e o medo de virar-se foi ainda mais torturante.
                Mas ele se virou. Encorajou-se e se virou.
                Não havia nada.
                Não havia ninguém.
                Medo. Ansiedade. Horror. Náuseas. Vertigem... Os sintomas tomavam o corpo daquela criança inocente e indefesa. Ele finalmente fizera suas necessidades. Percorrera todo aquele caminho para conseguir seus objetivos. Agora, o maior problema:
                Era voltar.
                A cabeça surgiu lentamente à espreita da porta do banheiro, observando o extenso, vazio e escuro corredor dominado por quadros.
                Andar.
                Correr.
                Apenas correr.
                Tudo o que ele tinha que fazer era apenas correr por todo aquele caminho reto, fechar a porta de seu quarto, pular na cama e cobrir-se. E tudo ficaria bem.
                Mas era algo muito difícil. Difícil, complicado e assustador.
                O coração pulsava fortemente, os olhos de Júnior analisavam cada centímetro do lugar, com receio de deparar-se com algo que não desejaria encontrar.
                De repente, o som tocou seus ouvidos.
                Um baixo som, ruído... Chiado.
                Um chiado de TV.
                De novo, pensou Júnior, olhando diretamente para o quarto. Mas o barulho não vinha do quarto, mas, sim, da sala...
                O garoto girou a cabeça para o outro lado do corredor, avistando a entrada da sala de estar, onde se podia avistar um pequeno brilho...
                Ele queria voltar. Queria voltar o mais rápido possível para o quarto. Mas a curiosidade o estava tomando cada vez mais. A curiosidade e o medo. O medo do que poderia ser. De quem poderia ser...
                Os passos foram lentos, calmos, em direção a sala...
                O barulho aumentava conforme ele se aproximava.
                A escuridão ainda era tamanha. O silêncio estava sendo quebrado.
                Sombras surgiam nas paredes da sala. Sombras de objetos...
                Por fim, Júnior chegou ao lugar desejado: Uma grande sala de estar, com um grande rack – estante – onde estavam guardados inúmeros DVDs, alguns brinquedos de enfeite e, no topo...
                A televisão... Ligada misteriosamente na estática, emitindo o assustador chiado... Iluminando aquele pacato lugar...
                Agora Júnior respirava pela boca. O medo estava verdadeiramente tocando seus calcanhares.
                Quem ligou a TV?
                Os passos aproximaram-no ainda mais do aparelho ligado. Aquela imagem sem cor, estática, era tão medonha quanto um filme de terror. O receio de que a qualquer momento alguém, algo, surgiria na tela o deixava amedrontado. O suor estava escorrendo de sua testa.
                O braço esquerdo esticou-se em direção a TV. Os dedos procuravam o botão ‘desliga’ do aparelho, mas não os encontrava. O corpo do garoto tremia como se o tempo estivesse frio e seco. E estava. O ar quente saia de sua boca e narinas.
                Por fim, ele encontrou o botão e o pressionou devagar.
                Antes que o aparelho desligasse, o alto e berrante som da jornalista surgiu e a imagem colorida estampou a TV repentinamente:
                - UMA MULHER FOI BRUTALMENTE ASSASSINADA NESTA MADRUGADA, NA CIDADE DE SÃO PAULO. SEU CORPO FOI ENCONTRADO HÁ POUCO TOTALMENTE ESQUARTEJADO. OS POLICIAIS ENCONTRARAM, NO LOCAL, UMA GRANDE FACA DE AÇOUGUEIRO E UMA CORDA  QUE, SUPOSTAMENTE, FORA USADA PARA ESTRANGULAR A VÍTIMA. O ASSASSINO AINDA ESTÁ FORAGIDO...
                As mãos elevaram rapidamente aos ouvidos, tampando-os. Júnior tentou evitar de ouvir aquela terrível e assustadora reportagem do jornal da madrugada. Eles mostravam o corpo da vítima, tampado apenas com um pequeno desfoque de edição. Mas aquilo era muito para um garoto de oito anos. Ele não podia suportar.
                Seus olhos estavam fechados e seus dedos fechavam fortemente os ouvidos, para que nada daquela reportagem entrasse em sua mente. Mas era tarde demais.
                Agora, ele não podia mais desligar aquele aparelho. O medo de ouvir mais reportagens sobre mortes o deixava totalmente com receio, virando-se de costas para a TV, deparando-se com o sofá, onde podia-se avistar  o controle remoto jogado na almofada. Não só o controle, como também um celular.
                O celular de seu pai que, há poucas horas atrás, estava assistindo o noticiário noturno, ficou com sono e fora dormir – esquecendo-se de desligar o aparelho.
                Júnior era muito novo para pensar naquela hipótese. Não queria retirar as mãos das orelhas. Então, a única coisa que pôde fazer foi correr. Correr. Correr bastante.
                Correr em direção ao extenso corredor que o levaria para seu seguro e calmo quarto.
                Porém, ao entrar naquele vazio corredor, deparou-se com algo que o fez querer urinar novamente... De medo:
                A porta de seu quarto estava fechada...
                Quem a fechou? Quem está lá? , seus pensamentos perguntavam. Seu corpo enchia-se de ar pelo arfar de ansiedade. Suas mãos esfregavam os braços, tentando aquecer-se daquele estranho frio da madrugada. O som do tele-jornal ainda podia ser ouvido, mas já não o assustava. O problema naquele momento era a questão que o estava assolando:
                Quem estava no quarto?
                Seus olhos encaravam friamente os quadros nas paredes. Ele não conseguiria caminhar pelo lugar se pensasse naqueles malditos objetos pendurados, com formas abstratas que o encaravam monstruosamente.
                Júnior respirou fundo, fixou seus olhares à porta e começou a cantarolar num sussurro:
                -... O céu... Resplandece ao meu redooor...
                Os passos começaram lentos. As mãos foram elevadas ao canto dos olhos, para que ele não enxergasse as laterais do corredor, que parecia não ter fim...
                -... Como as estrelas brilham entre as... Nuvens sem fim...
                Os pés eram colocados um à frente do outro em um ritmo devagar e angustiante. O coração pulsava tão forte que era possível ouvi-lo. O calor corporal o fazia suar drasticamente. A escuridão parecia dobrar-se de tanta densidade. Pouco a pouco, os efeitos sonoros da TV começavam a se dissipar, e o silêncio pairava sobre o estreito lugar.
                -... Só a verdade vai cruzar... Pelo céu azul...
                Júnior passou pela porta de seus pais, mas não olhou. Do outro lado, os quadros... Alguns estavam tortos, outros bem pregados...
                - E a verdade vai crescer dentro... De mim...
                De repente, um dos quadros tortos caiu diretamente ao chão, emitindo um incômodo barulho e estalo: Era o quadro de Mona Lisa.
                Júnior abriu a boca, assustando-se com um olhar de horror. O ar quente fluía de dentro e seu peito enchia e esvaziava-se de oxigênio. Porém, ele não se atreveu a olhar para trás: Continuou a percorrer o curto-longo caminho em direção a maléfica porta de seu quarto.
                E continuou a cantar:
                - Como um vulcão... Que entra e-em... Erupção...
                Os passos aumentaram de velocidade. A estranha sensação de que alguém espreitava por trás o deixava em transe.
                - Só a lava a espalhar... Meio a toda fúria...
                Por fim, suas mãos tocaram a fechadura...
                -... Do dragão.
                ... E abriu a porta.
                Não havia nada.
                O vento soprava forte e empurrava as cortinas que dançavam quarto adentro. Os vários brinquedos das prateleiras estavam caídos ao chão.
                O vento estava forte. Forte demais... A ponto de empurrar a porta em direção ao trinco.
                A respiração profunda de Júnior demonstrou a calma que tomou seu coração. Deu um meio sorriso. Porém, de repente, sentiu uma estranha sensação de desconforto que vinha por trás de si.
                Virou-se e avistou as várias sombras de luz que a TV criava, fazendo o corredor piscar e mover-se numa estranha ilusão de óptica.
                O medo voltou. O vento soprou em seus lisos cabelos. Um estranho som, de passos, parecia aproximar-se do corredor, vindo em direção aquele quarto.
                Júnior fechou a porta com toda a força, trancando-a e rapidamente correndo em direção a cama. Saltou, remexeu-se, pegou os lençóis e acobertou-se desesperadamente até a cabeça.
                Seus olhos fecharam. As pequenas palavras pareciam querer sair de sua boca – aparentavam ser uma reza -. Ele queria dormir. Queria dormir o mais rápido possível, mas não conseguia domar seus pensamentos, que criavam imagens ilusórias de estranhos vultos no corredor, vozes no quarto e quadros que criavam vida.
                Os receios, as ansiedades, os medos... Júnior já não estava agüentando mais toda aquela noite que parecia não ter fim.
                De repente, do lado de fora da residência – aparentemente nas ruas – um alto, berrante e desesperante som ecoou, entrando pela janela:
                - SOCORRRO!!!! AAAAAARGH!!! SOCORRO! Me ajudaaaaaaa!!!!!! AAAAAARGHHHHH!!!
                E então, Júnior explodiu-se em medo e choque. Levantou-se desesperadamente e correu em direção à porta do quarto de seus pais. Bateu, bateu, bateu forte, muito forte. Chutou...
                E sua mãe abriu. A aparência de sono estava exposta em seu rosto. O pijama rosa cobria seu corpo e os cabelos escuros estavam bagunçados.
                - O que foi, filho? – Marisa perguntou, um tanto estressada por ter de acordar àquela hora da madrugada.
                Olhando da direita à esquerda em movimentos repetitivos, Júnior disse aos anseios:
                - POSSO DORMIR COM VOCÊS, HOJE?!
                Em meio a estresses e sono, Marisa se deu conta de que seu filho tinha apenas oito anos, que ainda teria muitos medos, pesadelos, anseios... E que ainda dormiria algumas vezes com ela por alguns anos a mais. Achou completamente normal. Sorriu, acariciou-o na cabeça e disse:
                - Claro.
                E então, o colocou dentro de seu quarto e fechou a porta.
                E então, todo aquele alvoroço da madrugada pareceu se dissipar definitivamente. Porque talvez não houvesse alvoroço... Porque talvez fosse tudo imaginação de uma criança, que tem seus medos, dúvidas, anseios...  Mas que aprenderia, com o passar dos anos, a enfrentá-los da maneira certa.
                A imaginação do ser humano não possui limites...




Epílogo:
                Vinte e três anos depois.
                As batidas à porta eram fortes e assustadoras. Àquela hora da madrugada, era complicado e misterioso saber quem poderia ser.
                Marisa abriu a porta da residência e deparou-se com um homem, vestido a um pijama azul com bolinhas azuis, segurando um travesseiro. Estava com olheiras e sua aparência era um tanto sonolenta e assustada.
                - Posso dormir com vocês, hoje? - perguntou Júnior.


Fim.
Escrito por Valdir Luciano, 2011.