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sábado, 26 de fevereiro de 2011

Quer Teclar Comigo Novamente? (2)

Capítulo 2:

                Jéssica teclava no Messenger através da internet. Seus exatos quinze anos eram camuflados veementes em suas fotografias quase eróticas, postadas em sites de relacionamentos e redes sociais. Seus pais não sabiam dessa sua façanha e ela estaria disposta a jamais contar.
                Além de estar conversando com amigos – e desconhecidos – no MSN, observava discretamente as fotos de seus contatos no Orkut – um site de relacionamentos gratuito que oferece ao internauta a chance de conhecer novas amizades através de fotografias, mensagens... É um espaço aberto principalmente a todos os que se sentem solitários no cotidiano e precisam se juntar a outros solitários, e assim tornam-se amigos – mesmo que, aparentemente, nunca tenham se encontrado frente a frente.
                Graças as suas fotografias de biquíni e sutiã publicadas no site, muitas pessoas – homens na maioria, mas havia algumas mulheres que também apreciaram suas fotos – enviavam-lhe convites para que ela os adicionasse como amigos e fizessem parte de sua rede.
                Mediante tantos internautas, ela escolheu apenas um que lhe chamou grandemente a atenção: Davis Hoffman – um garoto de aproximadamente dezoito anos, cabelos longos e louros, a pele branca e lisa como seda, olhos perfeitamente coloridos num tom azulado como o céu e um sorriso exuberantemente branco, com dentes enfileirados perfeitamente. Um Modelo? Um artista?
                - Uau! – Jéssica não conseguia acreditar que aquele garoto teve interesse em adicioná-la. Um modelo, aparentemente, ou um artista... Será que já o vi na TV?
                Jéssica sentiu-se importante e demasiadamente linda, pois um menino daqueles jamais adicionaria uma feiosa - pelo menos, ela se sentia assim -. O interesse bateu forte em sua mente e seus olhos queriam, mas queriam muito ver as outras 42 fotos dele que estavam aparentemente bloqueadas, sendo que somente as pessoas que o tivessem como amigos poderiam vê-las.
                Ela não pensou duas vezes: Clicou em Adicioná-lo como amigo e contemplou as 42 fotografias vaidosas, sexy e que a deixava quase excitada. Será que é ele mesmo? Perguntava-se Jéssica, até duvidando da identidade daquele contato. Era muito perfeito para ser real.
                Perfeito demais.
                “Está aceita amor. Bem vinda ao meu Orkut”, a mensagem notificou-a: Era Davis.
                Ele respondeu, ele RESPONDEU, dizia a mente de Jéssica totalmente feliz. Ele estava online e ela teria a oportunidade de conhecê-lo melhor e, quem sabe, iniciar um grande relacionamento – até mais do que uma simples amizade...
                Ela, então, iniciou a conversa:
Jéssica: Ah, obrigada amor.
Davis: E aí, você me conhece? Por que me adicionou?
Jéssica: Não, na verdade nem conheço =/... Mas achei você muito, muito lindo e resolvi te adicionar *--*... Algum problema?
Davis: Claro que não. Ao contrário, estou muito feliz de ter uma garota linda como você entre os meus contatos. ;D
                Ao ler aquela resposta Jéssica sentiu-se automaticamente uma princesa. Elogios eram bem vindos a ela, ainda mais de um garoto como aquele.
                Ela sorriu. Já se sentia a melhor amiga dele. Porém, ela queria mais... Algo mais do que uma simples amizade.
Jéssica: Ah, que lindo amor! Obrigada! Mas e então, está aonde?
                A resposta demorou a surgir. Talvez a conexão estivesse sendo interrompida por alguns instantes. A paciência de Jéssica não era seu forte e ela já começava a dar sinais de ansiedade: Batia os pés no chão freneticamente, suspirava muitas e muitas vezes... Já estava completamente impaciente.
                Porém, a resposta logo veio... Mas não era a resposta que Jéssica esperava receber:
Davis: Eu estou perto...
                Jéssica engoliu em seco. Não entendeu muito a resposta, mas sentiu um frio na barriga. Ela tentou esclarecer as coisas:
Jéssica: Como? Não entendi amor. Está perto? De onde ? :S
                A resposta demorou, mas, minutos depois, surgiu com palavras que intrigaram a garota:
Davis: Estou perto de você, Jéssica... Perto de sua casa... Estou te observando. Você é muito linda mesmo, até mais do que na foto. Mas infelizmente não se valoriza...
                O frio na barriga voltou ainda mais agonizante. Os olhos de Jéssica fitavam aquelas palavras. O medo tomou-a dos pés a cabeça. Ela se sentiu ameaçada, sozinha - e estava sozinha, já que seus pais haviam saído -, desprotegida... E Davis sabia disso... Davis? Não...
                A máscara ainda não caíra por completo, mas a garota desconfiava completamente de que aquele não era o verdadeiro nome... E aquelas fotos poderiam não ser exclusivamente dele...
Jéssica: Quem é você? Como pode dizer que está perto de mim? Está brincando comigo, seu bastardo idiota! Vou agora mesmo te excluir! Você deve ser um maldito de um Fake! Adeus!
                Rapidamente, Jéssica moveu o seu mouse em direção ao link Excluir contato do site, mas sua rapidez não fora um tanto suficiente para que deixasse de receber a última mensagem do estranho:
Davis: Jéssica, você é tão descuidada... Procura homens bonitos e perfeitos em um lugar onde habitam desconhecidos e estranhos... Você os adiciona como se fossem seus vizinhos e joga-lhes toda a sua confiança... Tão bobinha e tão idiota... Você é tão galinha no Orkut quanto na escola! É exatamente igual a sua amiga Thalita! Por isso que não merecem viver... E, de certa forma, não vão... Farei questão de doar os seus órgãos à pessoas que merecem viver!
                Jéssica não fez questão de responder e ,de imediato, excluiu aquele maldito contato. Seu coração batia forte e aparentava estar saindo pela garganta. Ela arfava e seus olhos estavam enchendo de lágrimas. Quase histérica, ela não suportou o medo e retirou o cabo da tomada, desligando o computador repentinamente, afastando-se da máquina como se ela fosse um monstro. E, de fato, era para aqueles que não soubessem domá-la.
                Aquele seu quarto agora parecia um mar de perigos. A cor rosa não distanciava o medo de si e ela não sabia o que fazer, paralisada, sentada na poltrona que ganhara junto com o computador em seu aniversário.
                A respiração forçada podia ser ouvida. Ela ainda temia que o estranho estivesse dizendo a verdade, não pelas ameaças, mas pelo que ele sabia dela e Thalita: Elas eram amigas e vizinhas, e Davis sabia disso.
                Como... Como ele sabia? Como ele sabia de Thalita? – Questionava-se enquanto procurava se proteger de seu próprio medo. O horror subia-lhe os calcanhares á cabeça e ela tremia como se estivesse com bastante frio, e de fato estava, mesmo que não houvesse um sopro de brisa na rua e nenhuma nuvem no céu.
                De repente, ela ouviu o telefone tocar no andar de baixo de sua casa. Tocava e não parava. O coração bateu ainda mais forte, ela podia ouvir, e cada vez mais ela arfava como se não houvesse ar para respirar.
Quem será? Quem será? - Se perguntava enquanto aproximava-se lentamente da porta meio-aberta.
Seria o maníaco? Seria Thalita ligando para avisar que tudo aquilo não passou de uma brincadeira, e que aquele Davis era um contato Fake que ela mesma criara para assustá-la?
Seriam os seus pais ligando para avisá-la de que não ficariam dois dias fora e já estavam voltando?
As perguntas eram mais freqüentes em sua mente, tornando-se uma roleta de questões intermináveis e irrespondíveis. Mas ela teria que atender, tinha que atender. Sua mente não queria, mas seu corpo automaticamente a levava em direção ao andar de baixo, descendo as escadarias, passando pelos quadros de família pendurados ás paredes , pelo abajur á beira do último degrau e, finalmente, chegando a sala de estar totalmente decorada de branco, com móveis brancos, paredes brancas, tudo branco... Parecia uma sala de estar para anjos.
E lá estava o telefone – o maldito telefone -, tocando incansavelmente até que alguém o atenda e o faça descansar daquele maldito toque infernal e irritante.
Quem seria? Quem seria? QuemseriaquemseriaquemseriaquemseriaquemseriaquemseriaquemseriaquemseriaquemseriaquemseriaQUEM SERIA? – A mente rodava em apenas uma pergunta de duas palavras:
Quem seria?
- Alô? – ela atendeu e um chiado pôde ser ouvido na outra linha – Alô?! – ela disse mais uma vez e já estava prestes a desligá-lo e despejar todo o seu medo e apreensão quando, de repente...
- Jéssica? – uma voz tão doce, tão calma, tão confortante. Certamente não dava medo. Não podia ser o maníaco.
- Sim – ela respondeu, mesmo não sabendo quem era. Mas seu coração já estava mais calmo e ela respirava suavemente, a ponto de sorrir – Sim. Quem está falando?
- Sou eu, Jéssica. Sou eu – disse a voz, tentando convencer a garota de que ela o conhecia, mas ela não se lembrava daquela voz – Sou eu.
- Quem? Eu não estou reconhecendo essa voz. Quem está falando? Diga o seu nome.
Um silêncio por alguns segundos e finalmente ele disse o seu nome:
- Davis.
Os olhos dela sobressaltaram numa expressão de horror e ela atirou o telefone contra a parede branca, quebrando-o.
Ela não se conteve e começou a chorar de medo e desespero, não sabendo mais o que fazer: Era verdade. Ele estava em sua casa e ela estava em apuros.
De repente, a luz da cozinha acendeu-se, a luz forte e clara chamou a atenção da garota. Ela olhou em direção ao local e avistou uma silhueta aproximando-se. Seus lábios tremeram, ela arfou novamente e deu passos para trás: Era ele.
Um capuz preto, uma máscara teatral sorridente dourada e uma faca entre as mãos: Sim. Realmente, era ele.
- Sai daqui! SAI DAQUÍ! – ela exclamava ferozmente, andando para trás enquanto ele vinha em sua direção – O quê você quer? O quê quer?
Ele parou. Em seguida, retirou a máscara e ela pôde ver a face. Aquela face... Ela o conhecia... Ele estudava com Thalita...
- V-Você... – ela não acreditou na pessoa que estava vendo à sua frente. Seus olhos o fitavam – Você... Não... Por quê? O que você quer, pelo amor de Deus?
Sorrindo e fitando o corpo da garota, Fred respondeu:
- Eu quero os seus Rins.
Jéssica gritou, virou-se e correu em direção a porta da saída. Fred caminhou calmamente em direção a ela.
- Droga! Porra! – gritou Jéssica: A porta estava trancada e as chaves não estavam na fechadura. Ela se batia, chutava, arranhava com suas unhas até que quebrassem... Mas era impossível. Estava encurralada – Socorro! SOCORRO!
- Chiii... – elevou o dedo aos lábios, mandando-a se calar – Não se preocupe Jéssica, com a sua morte outra vida será salva. Agora seja uma boa menina e fique quieta enquanto eu arranco os seus órgãos.
Não havia mais escapatória. Jéssica ia morrer.
Fred estava frente a frente com ela e sua faca estava se aproximando lentamente de seu pescoço em movimentos ameaçadores.
- Depois de matar você, matarei sua amiga: Thalita.
- Não...
Ela estava quase se conformando com a morte que se aproximava, mas um impulso a tomou. Eu quero viver, eu quero viver, eu não quero morrer... EU QUERO VIVER!!
- PORRA, EU QUERO VIVER! – ela gritou com todas as forças e, antes que fosse apunhalada, chutou a perna de Fred que, agonizando, caiu no chão, derrubando a faca.
Jéssica levantou-se e correu rapidamente em direção as escadas, subindo-as em direção ao seu quarto. Antes que chegasse ao último degrau do segundo andar, virou-se para trás para ter certeza de que o garoto ainda estava caído.
Mas ele não estava.
O desespero tomou-a e repuxou o seu estômago numa sensação fria de medo. Ela entrou em seu quarto e fechou sua porta com tranca, além de colocar as coisas mais pesadas á frente dela, fazendo de tudo para que Fred não entrasse.
Enquanto se sentia segura, correu à janela, abriu-a e começou a gritar por socorro. Gritava e gritava, até que alguma bondosa alma o escutasse. A noite era escura, mas bastante estrelada. As luzes do jardim de sua casa estavam apagadas – por certo o desgraçado as apagara -. A rua asfaltada estava vazia, sem carros, pessoas, ninguém, nada...
Jéssica sentiu-se sozinha não somente em casa, mas no mundo.
- Deus – ela clamava, enquanto fechava os olhos e pedia aos céus que não a deixasse morrer – Me ajude... Eu não quero morrer...
Ela sentiu o silêncio, ouviu o silêncio. Tudo estava quieto, quieto demais...
De repente, Fred surgiu do lado de fora da janela, agarrando-a e empurrando-a para trás, entrando no quarto e, rapidamente e sem piedade, esfaqueando-a em uma série de punhaladas. Jéssica gritou, berrou, mas somente agonizava, pois ninguém a salvaria naquele momento.
- Sua vadia – ele disse, enquanto a esfaqueava com vontade – Eu pretendia doar os seus órgãos... Mas você não passa de uma galinha medíocre e desgraçada! Vai morrer e queimar no inferno!
Com olhos vidrados, Jéssica ainda agonizava, mas já não gritava. Estava á beira da morte e com a última e mais forte punhalada de Fred...
Jéssica estava morta.
Após assassiná-la, ele se limpou e sua mente apenas dizia: Thalita... Thalita... Thalita...


-... E minutos depois, os pais dela devem ter achado o corpo dela e acionado à polícia – disse Fred, contando mais uma de suas confissões a Carlos que, mesmo sendo frio, ficou pasmado – Após matá-la, fui matar Thalita e, depois, Aline...
- É verdade – disse Carlos, concordando com as confissões do assassino – Os pais de Jéssica disseram ter ouvido gritos vindos da casa de Thalita, já que eram vizinhos. Mas quando chegamos ao local não encontramos nem Thalita e muito menos Aline. Somente os corpos dos pais de Thalita estendidos sobre a mesa. Você me contou toda essa história, mas ainda não me disse: Onde estão os corpos de Thalita e Aline?
- Eu já disse – exclamou num tom alto – EU OS QUEIMEI!
- VERDADE? – questionou o tenente, num tom de descrença – E onde você os queimou exatamente?
O silêncio pairava nos lábios de Fred, seus olhos buscavam qualquer coisa, objeto, quadro... Qualquer coisa que não fossem os olhos de Carlos, que estava cada vez mais impaciente e começava a dar sinais de raiva, dando fortemente um soco na mesa, assustando o garoto. Ele não estava acreditando em nada do que Fred dissera.
- Eu estou perdendo a paciência, garoto – alertou o tenente, com os dentes prensados – E você não vai querer me ver nervoso...
Mas Fred estava disposto a testar a raiva de Carlos, pois não contaria a verdade a ele...
Não toda a verdade...

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Quer Teclar Comigo Novamente?

Saudações à todos! Eis que, como prometido, estou postando a continuação do bem criticado "Quer Teclar Comigo?". Espero que gostem e apreciem a leitura. Para deixar-vos mais curiosos sobre essa seqüência, postarei capítulo por capítulo - um em cada post. Ao fim do conto, juntarei-os como fiz com o anterior.

Desde já agradeço a todos pelas visitas, comentários, críticas e sugestões. O número de seguidores cresceu bastante e eu estou muito feliz por isso. Posso dizer que já é parte de um sonho realizado: Posso ver, com clareza, que estou sendo reconhecido e devo tudo isso à vocês! Muito obrigado mesmo, de coração!

Agora, chega de enrolação e melancolia e vamos partir para o Suspense, Terror e Adrenalina que, claro, encontrarão neste conto.

Let's GO!


Quer Teclar Comigo Novamente?



Prólogo:
                Aline aproximou-se da casa de Thalita, batendo á porta: Ninguém atendeu. Ela resolveu, então, entrar por conta própria.
            Abrindo-a, deparou-se com a sala de estar totalmente revirada e ensangüentada. No computador, o líquido vermelho escorria pelo monitor, onde se podia ver que alguém estivera ali e entrara em uma sala de bate-papo.
            Aline, sem perceber, pisara em algo. Ao olhar para o chão saltou num pulo e a expressão de horror tomou o seu rosto: Ela havia pisado no corpo de Thalita, que estava estendida e já em estado de putrefação. Os vermes criavam caminhos esburacados em seu corpo.
            Um efeito sonoro ecoou pelas caixas de som do computador. Aline virou-se para ele e avistou na tela uma mensagem enviada há pouco. Ela leu e seus olhos esbugalharam em uma aparência horrenda:
            “QUER TECLAR COMIGO, ALINE?”
            Sem que ela percebesse, um homem surgiu por trás e a apunhalou na cabeça com uma faca repentinamente, fazendo-a cair ao chão de olhos abertos e totalmente vidrados.
           
            Aline acordou. Estava com os lábios costurados e seu corpo amarrado sobre a pia da cozinha, ainda na casa de Thalita. Ela se revirava, tentava se movimentar, mas era impossível. Seus gemidos eram abafados e as lágrimas escorriam de seus olhos. Ela estava desesperada, com medo da morte – que era mais do que certa.
            Fred surgiu entrando ao local, segurando uma tesoura medicinal. Ele não estava com piedade naquele dia e, por conseqüência disso, Aline não estaria com sorte.
            Sem mais nem menos, o assassino iniciou uma dolorosa e lenta cirurgia no corpo da vítima: Primeiro, retirou os Rins, depois os Pulmões e, em seguida, o fígado.
            Aline estava morta.


            Na verdade, tudo isso fora apenas uma história contada por Fred, que, após ser encontrado pelos policiais e investigadores, estava na delegacia prestando depoimento ao tenente Carlos.
            -... E foi assim que eu matei Thalita e Aline – disse Fred, num tom de voz calmo, como se não estivesse preocupado com as conseqüências de seus atos.
            - Muito bem – disse Carlos, encarando-o com olhos de águia, tentando ler os pensamentos do homem – Então, onde estão os corpos?
            Fred fez uma pausa, mas respondeu:
            - Eu... Os queimei.
            Carlos logo desconfiou. Esse garoto não tem amnésia, pensou, não pode ter se esquecido de como deu fim aos corpos... Isso se ele deu mesmo um fim neles. Não. Eu não acredito nisso. Ele deve estar mentindo. Há algo a mais por trás disso, e eu vou descobrir.
            - Queimou? – questionou num tom de descrença. O encarar dos olhos era muito tenso e Fred desviava os seus. Ele estava escondendo algo e Carlos sabia – E onde você jogou as cinzas?
            Fred, de repente, engoliu em seco. O suor escorreu-lhe da testa e a respiração era forçada. Mesmo que o policial não estivesse fazendo absolutamente nada, o garoto sentia-se pressionado, torturado mentalmente... Aquela sala pequena, estreita, abafada... A sensação de estar sendo observado por câmeras que capturariam qualquer movimento, até um piscar de olhos... Esse era o trabalho policial-investigativo: Torturar a mente do acusado. Fazê-lo dizer tudo o que seus olhos aparentam esconder. São, na realidade, completos hipnotizadores de mentes.
            - Fred? – Carlos chamou a atenção do garoto, que pensava muito, até demais... – Não vai dizer onde jogou as cinzas? Será que você jogou mesmo as cinzas? Será mesmo que queimou os corpos? Espere: Será que você matou mesmo aquelas meninas?
            Um silêncio pairou sobre a sala pouco ventilada – na verdade, não havia ventilação -. O som do tic-tac do relógio na parede podia ser ouvido, torturando cada vez mais Fred, que contava os minutos, segundos para sair dali. Se pudesse, com certeza jogaria a mesa de madeira contra o tenente e fugiria pela porta, correndo em direção a rua, até que roubasse um carro e desaparecesse do mapa. Mas não. Ele não podia nem ao menos pensar nisso. Estava em uma delegacia – o último lugar onde um bandido tentaria reagir.
            - Não vai me dizer nada? – perguntou Carlos num tom cômico, quase rindo, brincando com o sujeito. Ele estava se divertindo com aquela situação. Sentia puro prazer em fazer um vândalo sofrer e se torturar com o medo de ser preso, linchado. Por mais tempo que estivessem ali, Carlos estava disposto a não desistir e cada vez mais intimidava o garoto – Pois bem, fique quieto. Faça o que quiser. Mas lembre-se de que não vou a lugar algum. Vou esperar de boa vontade você abrir a boca e me dizer a verdade. Enquanto isso não acontece, apenas o observarei atentamente.
            Fred não dizia absolutamente nada, apenas com os olhos vidrados á mesa, enquanto os olhos do tenente não fugiam dos seus.
            Carlos riu.
            - Está com sede?
            Fred engoliu em seco, emitindo o barulho da garganta totalmente ressecada. Seus lábios estavam cortados.
            O tenente retirou uma garrafa de água totalmente gelada do chão e pôs sobre a mesa. Aquelas gotas gélidas escorrendo sobre o plástico...
Água! Pensou Fred, com os olhos contemplando aquele líquido glorioso. Ele podia sentir a água tocando sua garganta.
Água! ÁGUA, as palavras eram mais constantes em sua mente e, cada vez mais, a vontade de bebê-la tomava sua língua e garganta.
Carlos girou a tampinha do lacre e elevou a garrafa em sua boca. O líquido descera suavemente. Fred podia sentir aquela água descer e engolia em seco. A vontade. O desejo... A sede. Sim. Ele estava praticamente morrendo de sede.
            - AAAH... – o refrescar da boca de Carlos pôde ser ouvido – Muito bom e refrescante... Aposto que você está com sede, Fred. Melhor se acostumar comigo bebendo essa coisa geladinha... Aliás, é melhor se acostumar a beber a própria saliva... hehehe!
            Os lábios de Fred tremiam, os olhos brilhavam e fitavam em Carlos. O ódio estava exposto em seu rosto e, se pudesse, ele o mataria naquele exato momento. Mas apenas teria de continuar calado. Não podia dizer o que escondia. Não podia e não ia contar, mesmo que continuasse a engolir a própria saliva para não morrer de sede. Mesmo que urinasse nas calças.
            Eu não vou contar, pensava ele, enquanto encarava o tenente.
            Ah, mas você vai contar, pensou Carlos, encarando-o também.


Capítulo 1:

             

O mundo é tão pequeno, pensou Lucas, contemplando a região de Guarulhos envolta do Aeroporto Internacional em Cumbica. Acabara de chegar da Europa e já estranhava o lugar em que morava há dois anos. Sua verdadeira família morava no Brasil e ele já estava exausto de tanto ter que falar idiomas que não saíam fluentes em sua boca.
                Enquanto observava os aviões que vinham e iam, a imagem quase invisível das montanhas no horizonte e o céu completamente azulado, pensava em como seus amigos o receberiam. Será que o reconheceriam? Será que notariam certas diferenças nele?
                Claro que ele mudara um pouco: Estava mais alto, seu rosto mais claro – talvez pela gélida temperatura da Europa – e não possuía imperfeições. O cabelo crescera e fora tingido para um tom claro, quase castanho. Agora ele usava lentes de contato bem verdes – até que combinava com sua aparência séria, de garoto metido.
                Tinha dezoito anos e já se formara no Ensino Médio. Voltou para rever os amigos, a família... Mas não tinha idéia dos terríveis acontecimentos em que todos eles estavam envolvidos.
                Mas certamente ele iria descobrir e até, inocentemente – nem tão inocente assim – se envolver.
                Aline, Thalita, Carine... Como será que elas estão? Tio Marcos, primos Éric e Fred... Estou com tanta saudade de vocês...
               Saudade. Absolutamente, Lucas não estava sabendo das coisas horríveis que haviam acontecido naquela cidade...
               Mas ele haveria de saber.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Saudações Escritores e Leitores!

Essa foi a primeira parte da história da minha vida. Espero que tenham gostado e estejam preparados para as próximas duas partes que hei de postar mais tarde. Por hora, vou dar uma parada nas confissões e voltar a postar alguns contos - porque eu sei que tanta biografia enjôa...

Como muitos pediram, postarei a continuação do tão bem comentado: Quer Teclar Comigo?

Para aqueles que ainda não o leram, por favor, leiam! Não sei se vão gostar, mas não custa nada gastar alguns minutos de seu tempo lendo contos meus - pois eu sei que alguns de vocês gastam mais tempo fazendo coisas que nem vou citar aqui... ¬¬

Pôster do filme "Medo.com.br"
No momento estou meio ocupado, mas a partir de amanhã começarei a postar : Quer teclar comigo Novamente?




Bom, por hoje é só. 


Até mais!

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Confissões de um Escritor - O Nascimento (10)



Capítulo 10 –

         
   Eu acordei e percebi que era, mais ou menos, cinco da manhã. O dia estava claro e ensolarado, perfeito. Respirei fundo e senti aquela sensação de ar fresco, sem poluição. Estava frio, mas um frio gostoso. Enfim: Eu havia acordado com disposição. O motivo?
            O dia havia chegado. Sim. Aquele grande dia que eu tanto desejara: Era o meu primeiro dia de aula na pré-escola – não só o meu, mas o primeiro dia de todas as crianças da minha idade.
            Rodrigo, meu amigo, também estudaria comigo, o que me deixava completamente feliz, pois já iria com alguém conhecido. Mas eu sabia que faria muitas amizades naquele lugar – muitas delas me acompanhariam para o resto da vida.
            Escovei os dentes, tomei café da manhã bem reforçado, me arrumei com as melhores roupas que tinha – inclusive o meu tênis preferido que acendia as luzes nas laterais – e sentei-me diante da televisão, assistindo pela última vez o Vila Sésamo e Teletubbies. Depois daquele dia, eu jamais voltaria a assisti-los, pois estaria aprendendo a ler e escrever – era o que eu esperava.
            - Vamos Valdir, está na hora – disse minha mãe, saindo pela porta e esperando-me. Estava na hora. Estava na hora. Estava na hora!
            Eu desliguei a televisão e, por uns segundos, tive um momento de nostalgia, lembrando-me de todas as manhãs que acordava, deitava-me ao sofá e caía no sono enquanto assistia aos melhores programas infantis que passavam na T.V Cultura e no SBT. Mas eu não poderia ficar triste, pois estava entrando em um novo mundo, uma nova era:
            A era escolar.
           
            Quando minha mãe estava se aproximando da escolinha, avistamos aquela multidão de pais que seguravam as mãos de seus filhos, enquanto esperavam que o portão principal se abrisse e as crianças entrassem. Naquele exato momento, senti um friozinho na barriga e apertei forte a mão da mamãe. Claro que estava ansioso para entrar ao lugar, mas não sabia se poderia agüentar cinco, ou seis horas, longe dela. Acho que essa é a primeira impressão que as crianças possuem ao ir pela primeira vez á escola. Você não se dá conta de que sua mãe não vai estar lá, até que ela solta a sua mão e se despede com um beijo. E por mais que eu quisesse estudar, não queria deixá-la ir.
            O portão principal se abriu e pude ver dezenas de crianças mimadas chorando, implorando que seus pais entrassem junto com eles. Eu também era mimado e não fiquei para trás: Rastejei-me, agarrei a saia de minha mãe e não desgrudei até que ela entrasse comigo.
            - Valdir, me solta! Eu não posso entrar. Você vai entrar sozinho. Olha lá, as outras crianças não estão fazendo escândalo e estão entrando educadamente! Faça o mesmo!
            Eu não sabia de qual criança ela estava falando especificamente, pois só conseguia avistar crianças piores que eu tentando fugir do lugar, correndo pelas ruas como se uma catástrofe estivesse prestes a acontecer e elas estivessem se refugiando.
            E eu chorava, gritava, berrava, babava na roupa nova, mas, assim como no caso de ir á igreja, eu também não teria escolha: Eu seria obrigado a entrar na escolinha, sentar a bunda na cadeira e olhar para frente até o término. Seria esse mais um desafio?
           
            Olhei para frente e avistei a enorme lousa verde com vários símbolos que, aparentemente,  ainda não conhecia: Eu estava dentro da escolinha,  minha mãe já havia ido embora e eu fazia bico e já contava os segundos para ela vir me buscar. Ao meu redor, muitas crianças – umas vinte, mais ou menos – sentadas em suas cadeiras, conversando umas com as outras – por certo, muitas se conheciam, com exceção de mim -.
            De repente, vi uma pessoa entrando pela porta do local e me animei: Era meu grande amigo, e vizinho: Rodrigo. O alívio tomou conta de mim e eu tive a certeza de que, afinal, teria uma boa companhia ali.
            Aquele era o início de uma grande e longa história. Apenas o primeiro passo do destino. O primeiro passo para um grande sonho ainda não realizado, mas que - pouco a pouco - está se tornando realidade:
              Ser um Escritor.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Confissões de um Escritor - O Nascimento (9)



Capítulo 9 –

           
Eu estava completamente ansioso para ir a pré-escola. Imaginava como seria: Um monte de pessoas brincando com seus carrinhos, bonecos, correndo livremente, fazendo o que bem quisessem... Enfim, um mundo livre – um sonho.
            E todo o dia importunava a minha mãe, perguntando quando começariam as aulas, e ela sempre dizia a mesma coisa:
            - Calma, Valdir, logo-logo as aulas começam!
            - Mas quando?
            - Logo!
            - Logo quando?
            Minha impertinência chegava até certo – alto, crítico, insuportável – ponto que a Senhora Diomar já não respondia absolutamente nada, apenas contando até dez e esperando que eu parasse de provocá-la, senão eu acabaria levando um prêmio por tudo aquilo – um prêmio doloroso, que jamais gostaria de receber. Eu percebia sua irritação e, rapidamente, fechava a matraca.
            Mas era impossível guardar tanta ansiedade quando se via Márcio e Tânia chegarem do colégio, com aquelas mochilas enormes nas costas, repletas de acessórios de estudo. Meu olho era tão grande que eu abria as mochilas escondido, para ver o que eles faziam na escola. Abria os cadernos e encontrava aqueles rabiscos ilegíveis para mim e ficava imaginando o que poderia estar escrito, acabando por obter a vontade de escrever também.
            A programação na T.V já não me interessava mais. Eu já não queria sair mais para brincar na rua com os meus amigos e ficava trancado dentro de casa, com testa franzida, fazendo bochecha e cara de mau, tentando chamar atenção da minha família, para que pudessem me levar logo ao presinho.
            Durante os dias, sentava á mesa e rabiscava uma folha com o lápis que meu irmão usava. Apenas parecia estar criando aquelas artes estranhas que tanto fazem sucesso por aí, com linhas tortas, caricaturas horríveis... Ainda me pergunto por que essas coisas fazem sucesso...
            Maldita ansiedade que eu tinha naquela época! Mas é normal. Quando somos crianças, se sabemos que haverá algo grandioso e que nos interessa vindo por aí, sempre desejamos que seja logo, que seja amanhã, que seja hoje, agora. Mas nem tudo que queremos é o que haverá de acontecer, ainda mais na hora que quisermos. Mas nem pensamos nisso quando pequenos. Apenas fazemos birra, choramos, rastejamos, pulamos, fingimos estar morrendo, atiramos coisas ás paredes, tentamos fugir de casa... Enfim, fazemos de tudo até que nossos pais façam milagre e nos dêem o que desejamos.
            Em alguns dias, aprendi a escrever o meu nome com a ajuda do Márcio. Realmente os dias de estudo estavam chegando em minha vida. Eu tive certeza disso quando minha mãe me levou para fazer a matrícula na escolinha. Á primeira vista, um lugar pequeno, não muito bonito, mas para eu e os outros pequeninos era um palácio de diversão. Atrás da recreação havia um campo de futebol e, ao lado, o posto de saúde do bairro. E mais acima, a famosa escola Kakunosuke Hasegawa – o lugar onde, futuramente, eu estudaria.
            Meu grande amigo, Salomão, havia me dado de presente um kit de estudo do Batman, que incluía: dois lápis pretos, duas canetas pretas e azuis, duas borrachas e um boneco do homem morcego – que dava para encaixar sobre o lápis. Eu não era muito fã daquele herói, mas gostei muito do presente. Foi o meu primeiro material escolar que havia ganhado, mas haveria mais.
            Minha mãe fora ao centro de Itaquá e comprou os cadernos e a mochila – que eu, particularmente, havia odiado: Era colorida, pequena e com um ursinho no meio -. Mas a minha ansiedade de estudar era maior que todos os materiais que eu não havia gostado, e eu certamente estava pronto para começar aquela nova fase da vida.
            Nova fase. Sim. Uma nova e misteriosa fase de nossas vidas que passamos, passaremos e haveremos de passar – digo a todos em geral -. É inevitável. Vamos esbarrar com esse mundo paralelo, conhecer novas vidas, iniciar amizades, inimizades, brigar, namorar... É algo simplesmente incrível. É o engate para o futuro que haveremos de ter.
            Eu estava ansioso, muito ansioso, mas com medo. O medo do que poderia encontrar nesse novo caminho. Medo de ter de enfrentar obstáculos inevitáveis. Medo de afastar-me da família e dos amigos.
            Eu não tinha nem idéia do que o futuro me reservava. Não sabia, ao menos, o que queria ser daqui pra frente. Mas o destino sabia, e começava a mover as peças. Peças importantes e essenciais, que mudariam a minha vida... Para sempre.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Confissões de um Escritor - O Nascimento (8)



Capítulo 8 –

            A minha vida estava mudando aos poucos: Novas amizades surgiam, novas maneiras de pensar... É um processo normal que ocorre com o tempo. As coisas não acontecem de um dia para o outro. Leva algum tempo, certos hábitos saem e novos entram. Aquilo que gostávamos deixamos de gostar, as pessoas com quem muitas vezes conversamos acabam se afastando e muitos problemas começam a surgir. Então, certo dia, você pára no tempo e reflete: Nossa. Como as coisas mudaram...
            Minha ida aos cultos da igreja era cada vez mais freqüentes e eu sempre estava formando mais e mais amigos. Conheci a Luciane – garota com quem sempre discutia e nunca nos dávamos bem, isso todas as vezes que nos esbarrávamos pelos corredores da igreja -; também conheci os irmãos: Jhonatan e Eduardo, que eram quase da mesma idade – acho que Jhonatan era um pouco mais velho, mas não vem ao caso -. Eram dois bagunceiros que sempre chamavam a atenção – negativamente.
            E o tempo foi passado e, num piscar de olhos, eu estava começando a entrar nos tempos de escola, começando pelo lugar onde as crianças aprendiam o b.a.ba:
            A pré-escola.
            O meu novo mundo estaria para começar...

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Confissões de um Escritor - O Nascimento (7)





Capítulo 7 –

            A família dos Oliveira Costa. Grandes e inseparáveis companheiros desde a minha meninice. Tão especiais que os vejo como se fossem da minha família. Eles moravam perto de minha casa – até hoje moram – e eram constituídos por quatro pessoas: Adolfo e Jeni – que eram os pais – e Sara e Salomão – os filhos. Não lembro muito quando iniciei esse grande laço de amizade, mas me recordo perfeitamente de quando ia á casa deles, quase todos os domingos, após o término do culto de jovens. Passava o dia inteiro lá, brincando com o Salomão – um garoto que tinha, mais ou menos, uns cinco ou seis anos a mais que eu, mas que aprontava poucas e boas.
            A minha mãe era tão protetora – até em exagero – que só me deixava ir para a casa dele. Do contrário, eu não poderia sair da calçada de casa. Portanto, todos os domingos eu fazia questão de me divertir ao máximo na casa dos Oliveira Costa, porque no fim do dia eu sabia que teria mais uma longa semana preso na minha rua.
            Algo que eu e Salomão sempre fazíamos aos domingos era empinar pipas – já que eu era proibido de fazer isso perto de casa, pois meu pai não deixava. Ele tinha medo que eu me cortasse por causa do cerol na linha dos outros, ou que ficasse correndo pelas ruas movimentadas com carros atrás de pipas e acabar sendo atropelado -. Empinávamos e não contávamos á minha família, mas eu estava ciente de que minha mãe sempre ficava sabendo. Mesmo assim, ela não contava ao meu pai, pois sabia que na laje da casa do Salomão não haveria riscos e mal algum em se divertir, contanto que eu não usasse cerol e nem corresse atrás de pipas – eu não corria, mas passava cerol sim e ela nunca soube disso.
            Além do Salomão, eu tinha outro amigo que também ia á casa dele: Dener – um garoto um ano mais novo que eu, e que morava na Vila Japão -. Nós três, então, passávamos o domingo inteiro brincando até o anoitecer, quando eu tinha que ir ao culto novamente e minha alegria acabava, pois eu não gostava de ficar sentado, ouvindo tudo o que o homem lá na frente dizia. Eu não entendia absolutamente nada. Mas, por causa do Salomão – que sempre me incentivava a ir com ele pra igreja – eu acabava me distraindo e sentava ao seu lado, o vendo e ouvindo tocar seu violino na orquestra. Sim. Ele tocava bem, muito bem. E quando o via tocar sempre sentia uma vontade de estar no meio daquele conjunto musical, tocando também. Eu pegava uma flanela, enrolava-a e fingia que era um instrumento, assoprando-a e tentando entrar no ritmo da orquestra.
            Eu olhava para trás e via aquela multidão de músicos enfileirados, sentados por categorias instrumentais. Avistava o Márcio – meu irmão – tocando o seu trompete entre os demais e imaginava se algum dia poderia estar ali também, sendo mais um de muitos músicos.
            A partir de então, desenvolvi meu grande interesse pela música, não imaginando o que o futuro me reservava naquela orquestra.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Saudações Escritores e Leitores de Plantão!

Faz algum tempinho que não converso com vocês, não? Peço desculpas, estou muito atarefado - baixando episódios inéditos de The Vampire Diaries e jogando Guitar Hero Flash. Essas atividades gastam muito tempo, ainda mais com uma internet não muito boa. Além do mais, estou postando diariamente os capítulos de
Confissões de um Escritor, O Nascimento

Por falar nele, vocês estão gostando?

Quero a verdade...

Eu, particularmente, não estou gostando muito... Acho que deveria ter mais pitada de comédia, uns dramas... Mas fazer o quê, não é? É a história da minha vida e se eu adicionasse elementos e acontecimentos falsos estaria mentindo a todos vocês. Portanto, peço que suportem essa história e tentem apreciá-la da melhor maneira possível, porque não haverá outra escolha. Eu haverei de postar todos os capítulos.

E se alguns podem não estar gostando desta, há outros que adoraram o bem elogiado conto: Quer Teclar Comigo?

Eu não entendi muito o porque que gostaram - já que, na minha opinião, a história é um pouco clichê -, mas fiquei muito feliz por isso, e estão me pedindo as continuações que eu prometí postar. Prometí e postarei em breve, logo após o término da atual história.

Bom, por hoje é só. Apenas dei uma passada por aqui para não perder o costume. Espero que estejam apreciando o Blog, que está crescendo de seguidores. Obrigado mesmo. Esse Blog é pra vocês!

Até a próxima, Escritores e Leitores!


quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Confissões de um Escritor - O Nascimento (6)


 Capítulo 6 –

        
    Religião. Você tem uma? Se tiver, então deve frequentar algum lugar considerado sagrado e sua alma sente prazer em estar ali. A paz toma seu coração e você se sente seguro e livre dos problemas da vida, concentrando-se apenas em um único intuito: Louvar a Deus, o Ser todo poderoso em quem as pessoas creem – inclusive eu. Mas naquela época não era tão fácil assim uma criança de cinco ou seis anos ir de livre arbítrio a uma igreja, sentar-se educadamente ao banco e assistir ao culto, ou cerimônia, ou missa. Na verdade, isso poderia ser classificado como: Desafio.
            Sim. Era um desafio para minha família levar-me ao culto – que era três vezes por semana -. Eles pediam com calma:
            - Valdir, vamos para a igreja.
            Eles insistiam:
            - Valdir, por favor, vamos para a igreja.
            Ordenavam:
            - Valdir, vamos para a igreja, agora!
            ... E, por fim, se não houvesse alternativa:
            - Menino, venha cá! Genauro pegue a cinta!
            Desse modo, eu ia para os cultos – independente da minha vontade -. Eu podia chorar, berrar, fazer corpo mole, me arrastar, e tudo mais. Porém, o desfecho seria evidente: Eu estaria com o bumbum sentado no banco da igreja, seja ao lado do meu pai, da minha mãe, do meu irmão, ou da minha irmã. Como era pequeno e não desgrudava da minha mãe, sempre sentava no colo dela e dormia o culto inteiro.
            Mas eu não era o único a ir pra a igreja. Havia outras crianças da minha idade que também dormiam aos colos de suas mães. Foi então que, certo dia, fugindo do colo de minha mãe e correndo para o jardim – ao lado de fora da igreja – conheci uma garota: Monique Ramos, uma menina extremamente branca, de olhos azuis e cabelos longos e loiros. Sim. Ela era linda, mas não pensem que nada poderia rolar – ainda mais naquela idade -. Éramos apenas duas crianças curiosas e levadas, e acabamos por iniciar um grande laço de amizade. Amizade essa que obtenho até hoje.
            Mas os laços de amizade não acabaram por aí, e muitos outros pequeninos eu encontraria pelos corredores da igreja. Sim, eu vasculhava todo o lugar, sem saber o que estava procurando. Estava exercitando as pernas mesmo que não soubesse.
            Entre essas caminhadas, conheci dois irmãos: Jhonatan José e Michelle Karine, duas crianças extremamente levadas, mas que fariam parte da minha vida. Ás vezes, eles me metiam em confusão, como na vez em que houvera um culto especial lá em casa: Todos estavam na sala, cantando os hinos, enquanto eu apenas observava. Os pais dos dois estavam lá e haviam trazido eles. O problema era que eles não estavam na sala.
            Então, eu fui á cozinha, por mania de ficar andando sem rumo, e acabei os encontrando. A princípio, nada demais. Eu até quis me amostrar, mexendo no armário, tentando dizer que era o dono da casa, mas eles nem sequer davam atenção.
            Foi quando, de repente, eu olhei ao lado do fogão e vi Michelle e Jhonatan pendurando-se em cima do botijão de gás, fazendo-o cair no piso e assustar todos que estavam na sala. Eles saíram correndo e eu fiquei lá. Minha mãe chegou e me viu ao lado do botijão caído, pegou na minha orelha fortemente e me levou para a sala, fazendo-me ficar lá de pé até o término do culto.
            Sim. Os dois irmãos eram uns pestinhas, mas acabaram conquistando a minha amizade dessa maneira. Até hoje somos grandes amigos.
            Muitas amizades eu fiz naquela igreja e, mesmo fazendo birra para não ir ao lugar, sempre me divertia e esquecia-se de tudo ao estar lá.
            Dentre muitos companheiros, houvera uma família que conheci e que, até hoje, os considero parte da minha. Eles eram os: Oliveira Costa.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Confissões de um Escritor - O Nascimento (5)





Capítulo 5 –

            Os dias passavam muito rapidamente para mim. Eu não sabia em que mês estávamos, ou que data comemorativa poderia ser. Apenas conhecia o Natal e Ano Novo, além do meu aniversário.
            A minha rotina diária era: acordar 7 horas da manhã, assistir aos desenhos enjoativos – mas que distraiam – da Warner, depois rir com as palhaçadas do Quico, na turma do Chaves, e a tarde sair para brincar com os meus amigos. Antes do anoitecer, minha mãe gritava pela janela para eu ir tomar banho e, logo após, dormir.
            Naquela época, meus irmãos ainda estudavam e quando os via chegando em casa, despedindo-se dos colegas na rua, sentia uma imensa vontade de ir á escola. Eu esperava ansiosamente que os anos passassem rápido para que eu começasse a estudar. Enquanto o dia não chegava, aprendia a escrever o meu nome com muita dificuldade, a ponto de chorar.
            Todas as noites eu esperava pela chegada do meu pai, pois ele trabalhava no Terraço Itália – localizado na Av. Ipiranga, em São Paulo -. A distância entre a capital do Estado e a cidade de Itaquaquecetuba era enorme, ainda mais para quem não tinha carro – como era o caso da minha família -. Então, meu pai saía entre quatro e cinco da manhã para pegar o Pássaro Marrom – um ônibus coletivo que fazia o trajeto por toda São Paulo – e voltava muito, muito tarde. Às vezes eu até já estava dormindo, mas sempre fazia o possível para ficar acordado, já que ele sempre me trazia algum presente. Eu era muito interesseiro. Sempre gostava de ganhar muitos brinquedos. Vivia pedindo e choramingando para ganhar o que queria, e sempre conseguia – embora naquela época nunca pudesse ter uma bicicleta, pois minha família achava um tanto perigoso, além de não poder empinar pipas, pelo mesmo motivo -.
            E os dias se passavam e as mesmas rotinas que não me cansavam: Acordar, assistir, brincar, tomar banho e dormir. Até que, Certo dia, quando eu já tinha uma idade em que podia raciocinar melhor as coisas, minha mãe ordenou:
            - Valdir, está na hora de ir á igreja!
            Logo minha testa franziu e as manhas de chorar vieram á tona. Eu não tinha vontade de ir para a igreja, e fazia mais birra ainda se fosse por obrigação.  Quando eu nasci, certamente já era levado ao lugar, mas não me lembrava e com certeza só dormia ali. Mas, naquela idade de, mais ou menos, cinco anos, eu já tinha mente suficiente para dizer Não!
            Porém, não adiantaria: Eu teria de ir, fosse por bem... Ou por mal...

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Confissões de um Escritor - O Nascimento (4)







Capítulo 4 –

            Amigos. Quem não possui um?
     Acredito que as pessoas que não possuem amigos simplesmente não existem, ou são criadas ficticiamente em novelas, filmes e seriados. Todos nós temos um amigo, pelo menos alguém em quem confiar – e que não seja da família. A verdade é que, quando somos pequenos, confessamos mais segredos a um amigo do que a uma família, pois, independente do que seja ele vai nos apoiar e não precisará dar umas palmadas disciplinares, como fazem os nossos pais.
            Minha primeira amizade, que fora com o Rodrigo, foi especificamente importante para o meu crescimento. Até hoje somos grandes amigos – gostamos de sermos classificados como primos, pela tamanha confiança que temos um ao outro-. Lembro-me perfeitamente de quando tinha entre três a quatro anos: Eu tinha mania de andar de cueca pela rua, independente dos comentários dos outros – e eles não poderiam julgar ou caçoar de uma simples e inocente criança. Se eu fizesse isso agora creio que seria bem diferente-. O meu pai, Genauro, tinha um Chevette e adorava dirigi-lo por aí comigo no banco de trás. Eu sempre chamava o Rodrigo para sair comigo – por certo andávamos segurando algum boneco, ou pano, ou chupando chupeta. Não me recordo muito -.
            Certo dia, meu pai resolveu ir ao banco de Itaquaquecetuba para pagar algumas contas, ou retirar dinheiro, não sei ao certo. Como previsto, chamei o Rodrigo para vir comigo. O resultado: Duas crianças andando dentro do lugar público apenas de cueca – daquelas cuecas bem vagabundas, de pano, que simplesmente rasgavam por qualquer coisa -. Eu não sentia vergonha daquilo. Agora me pergunto se teria coragem de fazer isso atualmente. Espero que nunca...
            Eu e Rodrigo também tínhamos umas motocas de plástico, já que ainda não podíamos andar de bicicleta. A minha era uma azul e a dele era vermelha. Eram completamente iguaiszinhas, mas eu achava a dele mais legal – não sei por que. Nós apostávamos corrida na rua, que não era meio reta. Era uma pequena ladeira. Rodrigo sempre ganhava e eu sempre chorava. Eu era um tremendo de um chorão. Mas era inteiramente difícil descer uma ladeira repleta de pedras e barro, além dos buracos e aquele pó voando na sua cara. Mesmo assim, aquela era a diversão das crianças, pois ainda não se passava na televisão os animes como Dragon ball e Yugioh. Apenas podíamos assistir ao Vila Sésamo, Punky - A levada da breca e Teletubbies, além dos desenhos enjoativos da Warner.
            E todos os dias pareciam iguais para eu e Rodrigo: Sempre brincando com as velhas motocas. A diversão era enorme, até que certo dia eu acabei quebrando um dos pedais do brinquedo. Meu pai tentou concertar, mas então as rodas começaram a sair e, por fim, vi o meu pai jogando a minha valiosa motoca azul dentro do enorme caminhão de lixo. Eu o vi amassarem-na e chorei á beça. Foi um dia difícil pra mim.
            Depois desse dia, não desgrudava do sofá e assistia diariamente aos Teletubbies.
            Alguns meses depois, me enturmei com outras crianças que já moravam ali, mas que nunca saíam de casa. Conheci o Wesley – mais conhecido como Nego, por ser um tremendo peste – e o Roger – um garoto com um ou dois anos a mais que eu e Rodrigo, mas que sempre brincava conosco.
            Depois de conhecê-los, poucamente assistia aos malditos bichos coloridos que passavam na TV Cultura.