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quarta-feira, 16 de março de 2011

Quer Teclar Comigo novamente? (6)




Capítulo 6 –

               

 Aline não estava morta. Fred mentira a Carlos. Estava viva, sã e salva. Porém, ela escondia segredos...
                Ela não era necessariamente a vítima de tudo aquilo que acontecera. Na verdade, nunca fora. Seus planos estavam dando certo – com exceção das prisões de Marcos e Fred, além da morte de Éric. Mas não importava. Ela tinha um alguém que poderia ajudá-la. Poderia, e ia:
                Lucas, o inocente garoto que chegara da Europa sem mais nem menos. Na verdade, também não era tão inocente... Aprendera com seu tio Marcos técnicas de cirurgia quando era mais jovem. Queria se tornar um grande médico, assim como seu tio foi – antes de se tornar um psicopata. Seria ele o homem que ajudaria Aline a obter a salvação de sua vida.
                Aline sofria de uma insuficiência cardíaca e necessitava de um transplante de coração urgentemente. Os hospitais públicos e particulares ofereciam, sim, essa cirurgia. Mas o tempo de espera era tão longo que os pacientes já poderiam aguardar pela morte, que era certa.
                A solução mais fácil e rápida era violar a lei: Procurar um coração bom e saudável entre milhares de pessoas aglomeradas em um só lugar. Pessoas inocentes, bobas, que colocavam suas vidas em risco, confiando em estranhos que nunca viram, conheceram... Através da Internet.
                Orkut, Messenger, Facebook, Bate-Papo Redes sociais repleta de pessoas buscando amizades, namoros, sexo... Pessoas que não pensam nas conseqüências de seus atos, enviando a qualquer um que tenha uma bela foto endereços residenciais, telefones, celulares...
                Essas não merecem viver, Aline sempre dizia ao pegar uma isca pela internet. Decepcionava-se com as pessoas, mas, ao mesmo tempo, obtinha uma sensação boa, de esperança... Quem sabe agora ela poderia achar o coração perfeito para o seu corpo. Viver mais, intensamente, deixando de lado esse lado violento e cruel... Deixando de matar pessoas...
                Mas ela estava fazendo isso por motivos que achava justo. Estava salvando a sua vida, pois não queria morrer agora. Era muito cedo, a vida estava apenas começando. Ela queria viver mais, respirar mais, namorar mais, correr mais, criar mais amizades... E só haveria uma maneira disso acontecer: Um coração novo.
                ... E só haveria uma maneira de obter um coração novo: Arrancando-o das pessoas.
                ... E só haveria uma maneira de arrancá-lo das pessoas: Enganando-as.
                ... E só haveria uma maneira de enganá-las: Através da Internet.
                Perversa, sem piedade, sem alma. Assim era Aline Franco de Almeida: Um verdadeiro serial killer, que não pouparia vidas para salvar a própria.


                - Você foi uma grande amiga, Thalita – sussurrou Aline, enquanto observava as chamas da lareira queimar aquele saco preto onde, dentro, continham pedaços corporais de alguém, uma pessoa que ela conhecia, conhecia muito bem. Eram amigas inseparáveis. Eram como irmãs de carne e alma – Mas na vida é preciso fazer alguns sacrifícios para que tudo dê certo. Sinceramente, não queria que isso acontecesse com você... Mas eu precisava fazer isso... Pelo meu bem, por minha segurança... Eu sinto muito.
                Thalita. Uma grande amiga. Tivera que morrer para o sigilo dos segredos de Aline, já que o pai de sua amiga era um policial militar e as chances de ser desmascarada eram grandes.
                Thalita Letícia, que conhecera Aline no Rio de Janeiro, morrera sem saber por quê. Morrera silenciosamente, sem deixar vestígios, rastros...
                Mesmo sendo fria, Aline sentia remorso. Estava arrependida do que fizera. Ainda podia sentir aquele dia, sentir o sangue em suas mãos... O sangue de sua amiga escorrendo de seus braços... Ainda podia ver aqueles olhos abertos, arregalados, vidrados de uma inocente vítima... Aquela expressão de por que você fez isso?
                Aline ainda podia ouvir os últimos e baixos gemidos de Thalita antes de morrer... Seu coração apertou, ela teve aquela visão... Não queria relembrar...
                Mas relembrou:




                Aline estava assistindo a um filme de terror na casa de Thalita Letícia, localizada no subúrbio do Rio de Janeiro. Conhecera-a na nova escola em que se matriculou, pois se mudara há poucos dias de São Paulo, deixando sua outra melhor amiga: Thalita Andrade, que acabara de passar por momentos ruins.
                Diferente de Thalita Andrade, Thalita Letícia era mais alta, a pele branca e os cabelos loiros e os olhos azuis. Era como uma princesa. Aparentava não ser descendente do Brasil, mas, sim, de países da Europa.
                A garota ainda estava tentando se acostumar com a nova vida, a nova rotina... Mas estava feliz por obter uma nova amiga, ainda mais porque tinha o mesmo nome de sua melhor amiga de São Paulo. Ela e Thalita Letícia tinham a mesma idade – dezessete anos -.
                Enquanto comiam pipoca e visavam a T.V, as duas conversavam:
                -... E então, eu fiz várias amizades desde que você se mudara do Brasil – disse Aline, com a voz direcionada para sua amiga, mas os olhos direcionados ao filme – Aliás, Conheci uma garota em São Paulo com o mesmo nome que o seu.
                - Ah, é? – disse Thalita, sorrindo – Então você, certamente, se esqueceu de mim ao conhecê-la.
                - Eu não acredito que você está com ciúmes! – exclamou Aline, com carisma – Mudando de assunto... Eu estou namorando.
                Os olhos de Thalita se arregalaram e ela pasmou-se. Sorriu e se esqueceu do filme. Virou-se diretamente para a sua amiga e iniciou uma série de perguntas:
                - Mentira! Como ele é? De onde ele é? Quantos anos ele tem? Ele é bonito? Usa lentes de contato? (...)
                Aline soltou uma tremenda gargalhada, não suportando ouvir mais as perguntas de sua amiga histérica.
                - Chega de perguntas – ela disse – Agora eu vou dizer tudo para você, Thalita.
                Thalita engoliu em seco e se preparou.
                Então, Aline começou:
                - O nome dele é Lucas Oliveira, tem dezoito anos e mora na Itália. Ele tem a pele e os cabelos claros; usa lentes de contato verdes e é alto... Do jeitinho que eu gosto. Ele já veio ao Brasil algumas vezes me ver. Mas ninguém sabe que eu e ele estamos namorando.
                - Nossa, que gato! – Thalita disse num tom alto – Mas como vocês se conheceram?
                - Pela internet – ela respondeu – Através do Orkut. Mas ele é tão lindo... Diferente do primo dele: Fred.
                - Fred? – Thalita questionou. Não se lembrava daquele nome. Mas logo sua mente clareou – Ah... Espera. Você não está falando daquele Fred que estudava com você...?
                - Esse mesmo. Aquele nerd horroroso com quem estudei em São Paulo. Aquele que você achou bonito e ficou comentando em suas fotos do Orkut. Não sei o que você viu nele que gostou.
                - Eu amo nerds, Aline – Thalita disse, sorrindo e imaginando pequenas coisas perversas – Ah, eles são tão charmosos e bonitinhos. São fofos. Aqueles óculos, aquela timidez, a inteligência... Ai! São muito lindos!
                - Sei – sussurrou Aline, com desdém – Agora eu tenho que te avisar: Por favor, não conte a ninguém que eu estou namorando com ele. Ninguém pode saber, muito menos a Thalita que mora em São Paulo. Ela nem imagina que eu tenho um namorado. Nunca contei a ela... Só a você. Eu confio em você, amiga.
                Thalita sorriu. Aline podia perceber nos olhos de sua amiga a curiosidade. Com certeza, estaria se perguntando o porquê de não poder contar à ninguém sobre aquele relacionamento. Mas seus olhos também diziam que, aconteça o que acontecer, o segredo permaneceria oculto.
                - Eu prometo que não contarei à ninguém – Thalita disse e as duas se abraçaram, derramando as bacias de pipoca e sujando todo o sofá de veludo vermelho – Ah, que merda! – Thalita riu com um toque de constrangimento – Sujamos todo o sofá da minha mãe. Estamos fritas!
                Antes que Aline pudesse reagir às palavras de sua amiga, um terrível pensamento a tomou: Imagens em sua mente. Imagens fortes, assustadoras, das quais ela não queria enxergar. Mas não havia escapatória. Era a sua mente e seus olhos, mesmo fechados, assistiriam àquele macabro pesadelo.
                Vozes soando em seus ouvidos. Vozes conhecidas. Na verdade, uma voz conhecida: Era a voz de Lucas, que dizia sempre a mesma frase: “Não faça isso, Aline. Não à mate. Você não precisa fazer isso para se salvar...”
                Mas o seu cérebro contrariava aquelas palavras e, quanto mais a voz pedia para Aline não fazer tal ato, a vontade e a ânsia na garota aumentavam. Ela queria matar. Tinha que matar. Não sabia o porquê, mas tinha que fazê-lo o mais rápido possível.
                As imagens em sua mente continuavam a passar como um filme: Sangue, carnificina, órgãos...
                Sim, órgãos... Coração...
                Sim. Coração...
                Era o que ela precisava: Um novo coração. Sua doença já estava dando sinais e sintomas. O tempo estava acabando.
                Eu preciso fazer, ela pensou, Preciso fazer o mais rápido possível. Preciso de um coração novo. Eu tenho que encontrar logo. Thalita... Você é tão saudável, se cuida muito... Seu coração deve estar em boas, ótimas condições...
                De repente, um outro lado de sua mente a alertou: “Não faça isso! Vai se arrepender por toda a vida! Você não é uma assassina! Não se atreva a matar a sua própria amiga!”
                Mas, novamente, o cérebro de Aline contrariou e cada vez mais ela estava disposta a cometer aquele terrível ato, para o seu próprio bem.
                Isso não é um assassinato, ela voltou a dizer a si mesma, é uma salvação. A salvação da minha vida.
                Aline despertou com os chamados de Thalita.
                - Em quê você estava pensando, amiga? – Thalita perguntou, curiosa – Será que está pensando em sexo com o Lucas, He-he!
                Aline queria dizer algo. Realmente queria. Mas as palavras não estavam sendo encontradas. A única coisa que ela pôde dizer foi:
                - Thalita, eu vou pegar mais pipoca. Fique aqui e continue assistindo ao filme.
                Thalita assentiu, jogou algumas pipocas que estavam no sofá e acomodou-se para assistir.
                Segundos depois, Aline estava na cozinha. Estava parada entre a mesa e o armário. Não sabia o que estava fazendo ali. Observava aos arredores. Aparentava estar procurando algo – que, certamente, não era pipoca -.
                De repente, começou a vasculhar o armário: Abriu as pequenas portas do lado direito, onde se encontravam os pratos. Abriu as do lado esquerdo, onde estavam os copos... Não estava achando. Mesmo não sabendo o quê, ainda não o encontrara.
                Olhou mais abaixo e avistou três pequenas gavetas. Desta vez, seus movimentos foram mais cautelosos, mais lentos. Os olhares focados naquelas gavetas... Parecia saber o que haveria lá dentro, e lá dentro supostamente encontraria o que estava procurando.
                Abriu a primeira gaveta: Encontrou panos de prato dobrados igualmente.
                Abriu a segunda gaveta: Encontrou caixas de fósforo, velas e alguns sucos instantâneos.
                Abriu a terceira gaveta: Encontrou colheres, garfos, facas...
                Facas.
                Faca.
                Sim. Faca.
                Finalmente, Aline encontrara o que sua mente estava procurando. Uma faca bem grande, daquelas bem afiadas e prontas para cortar qualquer coisa, qualquer carne, qualquer animal, qualquer pessoa...
                Ela ergueu o objeto e pôde ver seu reflexo através do inox.
                Aline sorriu. Mas não um sorriso qualquer. Havia algo a mais naquela expressão torta. Algo incomum, não-humano, diabólico.
                Sim. Diabólico.
                Enquanto isso, Thalita assistia ao filme, comendo os restos de pipoca que sobraram na bacia. Estava calma, inteiramente ligada à TV. Num instante, ela percebeu a falta e a demora de Aline e logo gritou:
                - Aline, venha logo! O assassino está matando a vadia no lago Crystal Lake. Você está perdendo o melhor do filme!
                A garota encheu a boca de pipoca e, numa cena forte e aterrorizante em que o assassino apunhala a vítima, parou de mastigar. Ficou tensa e pasma com o que estava assistindo.
                De repente, Aline surgiu por trás do sofá e passou a faca sobre o pescoço de Thalita, cortando-o, fazendo o sangue escorrer como se fosse uma fonte de líquido vermelha. Os olhos da garota se arregalaram e a pipoca ficou entalada na garganta. A tremedeira era inevitável, mas Aline segurava o corpo dela, para que não se mexesse tanto.
                O sangue desceu ao sofá vermelho, misturando-se com a mesma cor. Enquanto o assassino do filme apunhalava a mulher, Aline esperava a morte de sua “amiga”.
                O corpo de Thalita amoleceu. Os olhos já estavam ficando vidrados, a pipoca ficara presa na boca...
                Thalita estava morrendo.
                Antes que Aline deixasse que isso acontecesse, sua mente a alertou: “Ela não pode morrer agora! O coração ainda tem que estar batendo! Não deixe-a  morrer!”
                Rapidamente, Aline ficou de frente para Thalita e, num ato de desespero, começou a apunhalá-la com toda a sua força, mas sem afetar o coração.
                Buracos estavam sendo abertos na barriga da garota e, em seguida, as partes interiores começavam a aparecer.
                Aline enfiou as mãos por dentro do corpo e vasculhou, remexeu... Mas não encontrou. Retirou os braços sangrentos afora e, sobressaltada, apunhalou o peito de Thalita, afetando diretamente o coração.
                - Droga! Porra! Eu não sei fazer isso! Não sei!
                O corpo de Thalita era idêntico a um ventríloquo. Estava sem expressão, os olhos vidrados e arregalados, a boca semi-aberta...
                Estava morta.
                Rapidamente, Aline discou oito números e elevou o celular ao ouvido direito.
                - Alô? – perguntou uma voz – Aline?
                - Sim, sou eu! Eu matei! Eu a matei, Fred! Eu a matei! Não consegui. Não sabia como retirar o coração... Eu a matei! Eu matei a minha amiga!
                - Sua idiota! Eu disse para não matá-la! Era para seqüestrá-la e eu faria a cirurgia!
                - E agora? E agora? E agora, o que eu faço?!
                - Eu estou indo à casa de Thalita Andrade. Você quer que eu a seqüestre? Ela parece saudável. Acho que tem um coração bom para você.
                 - Você pode fazer isso? Pode?
                - Posso. Agora dê um fim nesse corpo. Queime-o. Venha para São Paulo e vamos fazer o transplante em seu coração.
                Aline se acalmou.
                - Obrigada – disse ela – Obrigada Fred. Está salvando a minha vida.
                - É para isso que matamos pessoas – disse ele, friamente -... Para salvar outras. Mas não conte a ninguém sobre isso. Sabe que estamos violando a lei.
                 - Sim, está bem. Eu não disse nada a ninguém, e também não vou dizer. Eu vou para São Paulo agora mesmo. Vou pegar um taxi e chegarei aí o mais rápido possível.
                - Tudo bem. Agora vou desligar. Acabei de matar a Jéssica. Agora vou à casa ao lado, da Thalita.
                Antes que Aline pudesse dizer algo, Fred desligou o celular.
                Aline ficou observando aquele corpo jogado no sofá, pensando no que faria com ele... Sua expressão não estava mais triste, desesperada... Agora estava fria, pálida... Um olhar branco e assustador.
                O que ela estaria pensando?





                Após essas terríveis lembranças sobre a morte de Thalita Letícia, Aline levantou-se e foi para o quarto, deixando a lareira queimar os restos mortais de sua falecida amiga, que morrera em vão...
                Mas Aline prometera a si mesmo que ninguém mais morreria. Ela já tinha a pessoa ideal para doar-lhe o coração – independente de sua vontade -. Essa pessoa fora sua amiga por muitos e muitos anos.
                Essa pessoa estava ali, naquele lugar.
                Seu nome era:
                Thalita Andrade...