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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

O Açougueiro


           
   O velho homem cortava os inúmeros pedaços de carne. O sangue espirrava para todos os lados. As moscas sobrevoavam as carcaças que estavam em cima da pia; o cheiro era insuportável.
Essa pessoa se mudara havia duas semanas, substituindo o antigo açougueiro do bairro. Suas carnes eram um tanto estranhas. Eu desconfiava que não fossem de boi, de vaca, ou de frango, nem tampouco suína. As pessoas também desconfiavam, mas, por algum motivo, nunca reclamavam por certo, não deveria ser tão ruim assim. Somente eu sabia que tipo de carne eram aquelas, pois fora sequestrado.
Eu, aparentemente, não era a primeira vítima, pois estava acompanhando o sofrimento e a dor de Mary minha vizinha —, que estava sendo dilacerada com uma serra por seu Zé o maldito açougueiro. Ele tinha uma aparência um tanto assustadora: um rosto muito enrugado, olhos extremamente negros, pele clara e era careca. Ele certamente se assemelhava a um psicopata de filmes de terror. Porém, era real.
Neste momento, minha família deve estar me procurando sem ter, ao menos, a ideia de onde estou. Pobre das pessoas que vêm comprar carne nesse lugar. Mal elas sabem o que estão comendo. Fico deduzindo: daqui a pouco, o bairro todo estará comendo a minha carne. Será que ninguém desconfia do estranho sabor que elas possuem? Será que a carne humana é realmente saborosa?
Isso eu jamais saberei, pois meu fim está próximo. É por isso que eu, Valdir Luciano, estou escrevendo este bilhete para que, um dia, as pessoas o encontrem e façam justiça, prendendo esse maníaco psicopata. Eu espero, rezo e torço para que ninguém mais passe o que eu estou passando. Neste momento, minha vizinha já está morta e suas tripas já estão no frigorífico, expostas para as pessoas comprarem.
Ele está vindo: é a minha vez.
Ele irá tirar minhas correntes, me colocar em cima da pia e começar o abate.
Tomara que encontrem esse papel e se deem conta do que estão comendo, cada vez que comprarem neste maldito açougue.

...

O açougueiro desamarrou Valdir e o levou à pia. Com uma marreta, começou a bater brutamente em sua cabeça, como se o garoto fosse um animal. O crânio se abriu. O sangue escorreu até atingir o chão.
Era mais uma vítima do diabólico açougueiro.
De repente, seu Zé ouviu uma voz que o chamava lá fora: uma cliente. O homem, rapidamente, limpou-se e deixou o corpo de Valdir estendido em cima da mesa. Antes de sair, encontrou o bilhete do garoto. Ele nem ao menos fez questão de lê-lo; jogou-o na rua.
Boa tarde, senhora. O que vai querer hoje? perguntou ele, surgindo atrás do balcão enquanto esfregava suas mãos no avental branco.
Bem, eu vou querer um quilo de fígado de boi respondeu Jennifer, uma moradora do bairro que sempre comprava carnes naquele açougue, desde o tempo do antigo dono.
O homem, então, pegou uma porção de fígado que certamente não era de boi e os colocou em um saco plástico.
Prontinho, senhora disse ele.
Obrigada.
Ao sair, ela pisou no bilhete, que grudou em seu sapato.
Chegando a sua casa, Jennifer foi à cozinha e começou a temperar a carne para fritá-la, sem ter ideia do que era aquilo.
Horas depois, ela e a filha, Jéssica, estavam jantando. A mulher saboreava o fígado, enquanto a filha se sentia enjoada, pois a carne fedia à pura carniça.
Filha, come logo essa comida!
Não! retrucou a garota. Essa coisa fede muito! Não sei como você aguenta!
De repente, Jennifer percebeu algo em seu sapato: o bilhete. Ela o retirou e começou a ler. Na metade do texto, o pavor tomou conta de sua expressão e ela vomitou convulsivamente, a ponto de desmaiar e cair da cadeira.
Jéssica, desesperada, tentou acordá-la, mas não conseguiu. A mãe estava em estado de choque.
A garota reparou no bilhete e também o leu. Depois, fitou o prato, observou aquela carne totalmente escura e grotesca. Teve parte da mesma reação decadente de sua mãe. Vômitos, gritos e olhos esbugalhados; a garota ficou traumatizada.
Naquele mesmo instante, ela ouviu uma série de batidas muito fortes, como se estivessem martelando algo. O barulho vinha da rua. Gritos e berros também podiam ser ouvidos.
Puxando lenta e disfarçadamente a cortina de sua janela, a menina observou a rua. Estava tudo escuro, menos uma casa, a do açougueiro.
Viu reflexos de luzes. Na janela dele, uma sombra batia fortemente contra algo que estava numa mesa, ou balcão. A mão que fazia o ato parecia estar segurando um martelo ou marreta. Os olhos da garota não piscavam e seu corpo tremia.
De repente, uma batida ainda mais forte daquela sombra e um líquido espirrou no vidro da janela do açougueiro. Ela gritou, apavorada. As marteladas pararam, seu Zé abriu a janela e olhou diretamente para Jéssica que, desesperada, fechou a cortina.
Aos choros e soluços, pegou o telefone e discou o número da polícia.

...

A polícia, porém, demorou tanto que, quando foi à casa do açougueiro, não o encontrou mais. Seu Zé fora embora. Mudou-se para outro lugar onde ninguém pudesse suspeitar de seu maléfico comércio.
Tome cuidado. Ele pode estar morando agora em seu bairro. Observe bem quais tipos de carne você está comendo, e onde está comprando. Você poderá estar comendo a carne de um amigo seu, ou de um familiar. Ou alguém poderá comer a sua carne, se você se deparar com...
O açougueiro.

Fim.
Escrito por Valdir Luciano, 2008