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quarta-feira, 9 de março de 2011

Quer Teclar Comigo Novamente? (5)



Capitulo 5 –

                O ofegar de Lucas não era de alguma enfermidade, mas, sim, de medo e remorso. Ele não deveria. Não deveria ter feito aquilo.
                Certamente não deveria.
                Mas o que eu fiz?, sua mente questionou enquanto ele abaixava a cabeça, fechando os olhos. Queria chorar. Estava arrependido do que fizera, mas não podia voltar atrás. Tudo aquilo era para o bem dela. E ninguém o impediria de salvá-la – nem que ele tivesse  de matar, ou planejar uma morte, como fizera com Roberto: Um grande amigo seu, de infância... Pobre Roberto, ele pensou arrependido. Mas arrependimento não a salvaria. Somente uma coisa a salvaria, e ele sabia o que era...
                Coração, sua mente sibilou e ele assentiu: Um coração era tudo o que ela precisava.
                Lucas estava sentado sobre o colchão macio envolvido por um forro rosa na cama. Aquele quarto tão pequeno, estreito, mas espaçoso... Tão sujo, com paredes mofadas, a tinta embranquecida descascando-se, o teto úmido, um guarda-roupa branco e velho do lado direito. Um quarto muito velho, mas seguro... Não parecia um quarto. Mas era, e fazia parte de uma pequena casa – na verdade, um esconderijo... Esconderijo esse onde polícia alguma jamais encontraria. Onde qualquer assassino pudesse refugiar-se... Assassino...
                Assassino?, refletiu Lucas  com vertigem. Os olhos vidrados e a aparência pálida, amedrontada. Não. Eu não sou um assassino. NÃO SOU UM ASSASSINO!
                - NÃO SOU ASSASSINO! – sua voz explodiu e ele babou, cuspindo com as palavras ditas fortemente. Ele levantou-se da cama, elevou as mãos à cabeça e olhou para o teto – Não sou, não sou... Não posso ser...
                Por fim, ele se desmanchou em lágrimas.
                Tombou ao chão e chorou como uma criança mimada. O suor misturava-se com as lágrimas salientes. A expressão de medo, de espanto, de pavor tomava sua face. Ela não poderia vê-lo daquela maneira. Não poderia.
                Mas viu.
                A porta do quarto se abriu devagar. As mãos tocando a madeira do objeto e a cabeça surgindo adentro. Aquele rosto... Um rosto moreno-claro, os cabelos lisos e escuros artificialmente, longos e macios. Os olhos, aqueles olhos... Tão claros e belos com um castanho-claro colorindo-os suavemente...
                “Tão linda”, Lucas sempre dizia isso ao vê-la, seja em fotografia ou frente a frente.
                E ele estava inteiramente certo: Ela era linda, com um rosto inocente e angelical. Quem a visse jamais suspeitaria que ela fosse tão diabólica e malvada quanto qualquer serial killer. Assim são os verdadeiros assassinos: Calmos, inocentes, seguros, despertam confiança nas pessoas... Até que elas se tornem suas vítimas fatais.
                - Lucas? – ela disse num tom suave, mas preocupante – O que aconteceu?
                Rapidamente, ele levantou-se do chão e ergueu a cabeça. Enxugou as lágrimas e deu um sorriso fingido.
                - Não... Nada... Está tudo bem – ele disse ainda trêmulo – Eu a estava esperando.
                - Tem certeza? – ela perguntou por educação, pois já sabia que não estava tudo bem. E sabia o que ele realmente estava sentindo.
                - Tenho... Tenho – ele tentava enganá-la com seu sorriso torto, mas também sabia que ela já estava ciente do que ele sentia. Ela o conhecia muito bem. Até demais -... E então, onde está o corpo do... Roberto? Eu pensei que ainda estaria aqui neste quarto quando o mataram.
                - Não se preocupe – ela disse num tom calmo, tentando confortá-lo. Mas, só de saber que seu grande amigo fora assassinado naquele local já era um motivo e tanto para deixá-lo aterrorizado. Ainda não estava acostumado com mortes e sangue em profusão bem de perto – Eu limpei o quarto e me livrei do corpo... O queimei na lareira. Não queria que o visse, pois eu sei que ainda não está acostumado com isso...
                Ela aproximou-se dele e tocou suavemente em seus ombros. E continuou:
                - Lucas, amor, você sabe que eu estou fazendo isso... Estou fazendo isso para me salvar... Você sabe do meu problema no coração e se eu não fizer logo esse transplante...
                Antes que terminasse, Lucas tocou seus lábios com o dedo e disse suavemente:
                - Não diga. Eu entendo muito bem. Eu só preciso de um... tempo. Eu vou me acostumar, mas espero que consigamos logo esse coração compatível com o seu. Mas, amor, sabe... Eu já disse muitas vezes, mas... Vou dizer de novo: Não seria melhor irmos a um hospital especializado, esperarmos na fila e...
                - Não vai dar tempo, Lucas – ela disse – Você sabe que não vai dar tempo. Está acabando... O tempo está acabando e, se me ama, estará comigo nessa. Você me ama, Lucas? Me ama acima de todas as coisas?
                Ele a encarou seriamente. Os olhos brilhantes nos dela. Não queria sorrir, mas sorriu.
                - Claro. Claro que sim – ele respondeu – Eu te amo. Te amo acima de todas as coisas... Ficarei contigo onde estiver, não importa o que aconteça... Se isso é o que você deseja, eu estarei nessa... Porque eu te amo.
                Após aquelas belas palavras soadas aos ouvidos da garota, eles se beijaram fervorosamente. As línguas entrelaçando, as respirações tensas e os gemidos de prazer e amor. Pouco a pouco, a garota o empurrava em direção a cama. A freqüência dos beijos aumentava: Os dois tombaram sobre a cama.
                Lucas riu.
                - Ah, como eu te amo... – ele disse num arfar, voltando a beijá-la.



                - Eu não a matei – Fred disse ao seu pai, enquanto os dois conversavam sentados em um dos bancos da prisão – Eu menti ao tenente. Ele não sabe de nada.
                - Ótimo – Marcos assentiu – Agora vamos torcer para que os policiais não encontrem o lugar onde ela está. E por falar em esconderijo, onde está a...
                Fred interrompeu:
                - Está à salva. Está bem escondida... Ela deve estar esperando contato.
                - Então está tudo certo – Marcos disse num sorriso torto – Lucas já deve estar aqui. Vai operá-la como ensinamos e ela estará a salvo.
                - Eu sei pai. Eu sei...



                Uma estrada de terra e buracos onde nenhum carro conseguiria passar. As enormes árvores daquela pacata floresta camuflavam e escondiam aquela pequena casa de reboco totalmente envelhecida, aparentando estar abandonada. Mas não estava.
                Dentro daquele lugar, um ambiente normal de um lar: Mesas, algumas cadeiras, televisor, mesa de operação, monitor cardíaco... Artefatos de cirurgia...
                Não era um lar tão comum assim...
                Diante da mesa de madeira, um notebook com um mini-modem plugado. No monitor, uma janela da internet aberta mostrava um site de bate-papo...
                Há poucos metros da mesa, uma lareira acesa. As chamas queimando os galhos que ali estavam sendo jogados.
                De repente, alguém atirou um saco preto com algo na lareira... Algo, um corpo...
                - Adeus, Thalita – a voz dizia suavemente, mas com tons de remorso – Me desculpe...
                De repente, uma mão tocou os ombros daquela pessoa: Era Lucas, segurando uma bebida quente e oferecendo-a à garota que se esquentava perto do fogo.
                - Tome – ele ofereceu a bebida – Você precisa beber um pouco.
                - Obrigada – ela pegou o copo, mas, antes de beber, foi interrompida pelo tocar do seu celular.
                - Quem será? – Lucas perguntou.
                - Minha mãe – a garota respondeu-lhe ao ver no identificador de chamadas. Ela atendeu: - Oi mãe.
                - Oi filha – disse a voz do outro lado – O que aconteceu? Não retornou minhas ligações, não respondeu minhas mensagens... Onde está? Estava preocupada. Mas não vai voltar para o Rio de Janeiro?
                - Por enquanto não, mãe – ela respondeu – Vou passar um tempinho aqui em São Paulo. Além disso, consegui um emprego.
                Lucas riu num tom baixo ao ouvir a palavra emprego.
                - Ah, é verdade? – a mãe da garota disse com felicidade – Que bom, filha! E do quê você está trabalhando?
                Com uma mão segurando o celular e a outra teclando e enviando uma mensagem à sala de bate-papo na internet, Aline respondeu:
                - Nem queira saber.




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