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sábado, 5 de fevereiro de 2011

Confissões de um Escritor - O Nascimento (4)







Capítulo 4 –

            Amigos. Quem não possui um?
     Acredito que as pessoas que não possuem amigos simplesmente não existem, ou são criadas ficticiamente em novelas, filmes e seriados. Todos nós temos um amigo, pelo menos alguém em quem confiar – e que não seja da família. A verdade é que, quando somos pequenos, confessamos mais segredos a um amigo do que a uma família, pois, independente do que seja ele vai nos apoiar e não precisará dar umas palmadas disciplinares, como fazem os nossos pais.
            Minha primeira amizade, que fora com o Rodrigo, foi especificamente importante para o meu crescimento. Até hoje somos grandes amigos – gostamos de sermos classificados como primos, pela tamanha confiança que temos um ao outro-. Lembro-me perfeitamente de quando tinha entre três a quatro anos: Eu tinha mania de andar de cueca pela rua, independente dos comentários dos outros – e eles não poderiam julgar ou caçoar de uma simples e inocente criança. Se eu fizesse isso agora creio que seria bem diferente-. O meu pai, Genauro, tinha um Chevette e adorava dirigi-lo por aí comigo no banco de trás. Eu sempre chamava o Rodrigo para sair comigo – por certo andávamos segurando algum boneco, ou pano, ou chupando chupeta. Não me recordo muito -.
            Certo dia, meu pai resolveu ir ao banco de Itaquaquecetuba para pagar algumas contas, ou retirar dinheiro, não sei ao certo. Como previsto, chamei o Rodrigo para vir comigo. O resultado: Duas crianças andando dentro do lugar público apenas de cueca – daquelas cuecas bem vagabundas, de pano, que simplesmente rasgavam por qualquer coisa -. Eu não sentia vergonha daquilo. Agora me pergunto se teria coragem de fazer isso atualmente. Espero que nunca...
            Eu e Rodrigo também tínhamos umas motocas de plástico, já que ainda não podíamos andar de bicicleta. A minha era uma azul e a dele era vermelha. Eram completamente iguaiszinhas, mas eu achava a dele mais legal – não sei por que. Nós apostávamos corrida na rua, que não era meio reta. Era uma pequena ladeira. Rodrigo sempre ganhava e eu sempre chorava. Eu era um tremendo de um chorão. Mas era inteiramente difícil descer uma ladeira repleta de pedras e barro, além dos buracos e aquele pó voando na sua cara. Mesmo assim, aquela era a diversão das crianças, pois ainda não se passava na televisão os animes como Dragon ball e Yugioh. Apenas podíamos assistir ao Vila Sésamo, Punky - A levada da breca e Teletubbies, além dos desenhos enjoativos da Warner.
            E todos os dias pareciam iguais para eu e Rodrigo: Sempre brincando com as velhas motocas. A diversão era enorme, até que certo dia eu acabei quebrando um dos pedais do brinquedo. Meu pai tentou concertar, mas então as rodas começaram a sair e, por fim, vi o meu pai jogando a minha valiosa motoca azul dentro do enorme caminhão de lixo. Eu o vi amassarem-na e chorei á beça. Foi um dia difícil pra mim.
            Depois desse dia, não desgrudava do sofá e assistia diariamente aos Teletubbies.
            Alguns meses depois, me enturmei com outras crianças que já moravam ali, mas que nunca saíam de casa. Conheci o Wesley – mais conhecido como Nego, por ser um tremendo peste – e o Roger – um garoto com um ou dois anos a mais que eu e Rodrigo, mas que sempre brincava conosco.
            Depois de conhecê-los, poucamente assistia aos malditos bichos coloridos que passavam na TV Cultura.



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