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quarta-feira, 20 de julho de 2011

A vida da Morte



            Eu mato.
            Mato. Não porque gosto, mas porque sou obrigado a matar.
            A minha ilustre e grande foice muito já ceifou. Ela é o portal entre a vida e a morte do pobre ser humano. Ela é a sentença. Ela é o fim do enorme ciclo de sobrevivência, o fim da carreira.
            Simplesmente, o fim de tudo.
            Através dela perfurei corações, atravessei artérias, eletrocutei, queimei, explodi...
            Através dela causei insuficiências cardíacas, degolações, atropelamentos, cânceres, AIDS, resfriados...
            Através da minha foice causei acidentes, puxei gatilhos, apunhalei, quebrei membros, amputei membros...
            Enfim... Através da minha foice, causei aquilo cujo nomeia o meu invisível ser:
            A morte.
            Eu mato.
            Mato. Não porque gosto, mas porque sou obrigado a matar.
            Mato sem prévio aviso, sem enviar cartas, bilhetes, e-mails, mensagens...
            Mato instantaneamente ao observar na lista a próxima pessoa a morrer.
            Não deixo despedidas, não permito que se despeçam... Simplesmente ceifo o coração e levo sua alma para descansar até o dia do juízo final.
            Não choro, não rio, não canto, nem danço. Apenas ceifo. Ceifo incansavelmente até que não haja mais seres nesse universo. Posso matar um, dois, três, dez, cem, mil, um milhão... Todos. Posso matar quantos humanos eu quiser, à hora que eu quiser...
            E ceifo. E o sangue não mancha as minhas vestes negras, porque a única coisa que levo na ponta de minha arma são as almas roubadas. E então as levo para um lugar... Desconhecido até por mim.
            Eu mato.
            Mato. Não porque gosto, mas porque sou obrigado a matar.
            Mas mesmo que não tenha sentimentos, sempre tive vontade de ser um humano. De respirar, de rir, chorar, comer, transar... E morrer...
            Eu não posso morrer, mas queria. Já tentei morrer, mas não sinto nada, não acontece absolutamente nada.
            Já apunhalei a foice em minhas vestes, mas o objeto some na escuridão e eu não sangro, não agonizo, não morro...          
            Eu queria morrer. Queria tanto morrer...
            Oh, Deus... Mestre Divino! Por que me escolhestes para matar? Por que me escolhestes para ser a encarregada de buscar as almas perdidas no mundo exterior?
            Por quê? Por quê? Por quê?
            Por que não me colocaste entre os seres vivos para respirar, para expressar sentimentos, para amar, para odiar, para salvar, para viver... Para morrer?
            Eu queria, eu quero morrer! Não importa como. Seja atropelado, assassinado, queimado, congelado, perfurado, doente... Apenas quero sentir as dores finais, fechar os olhos e abri-los em um novo mundo. Mundo esse que nem mesmo eu conheço.
            Deus... Eu faria de tudo para poder respirar o ar poluído da civilização humana. Faria qualquer coisa para nascer do ventre de uma mãe... E nascer, não importa em qual sexo. Faria tudo para engatinhar, andar, aprender a falar a língua deles... Faria o impossível para crescer, ir à escola, aprender a ler os códigos humanos... Faria qualquer coisa para chorar nas horas tristes, rir nos momentos engraçados, brigar e apanhar quando fosse necessário...
            Faria de tudo para conhecer um alguém, a pessoa certa que ficaria comigo até o fim dos meus dias na terra... Faria qualquer coisa para sentir o verdadeiro significado da palavra ‘AMOR’... Procriaria, teria filhos que continuariam a procriar de minha geração...
            Teria uma família.
            Enfim... Daria qualquer coisa para ser um ser humano e viver livremente... Até a morte.
            Ah... O que é isso? O que está acontecendo comigo?
            ...
            Meus olhos... Meus olhos... Meus fundos, negros e cintilantes olhos... O que é isso que está... Que sensação é essa? Que substância, líquido são esses que estão vazando dos meus olhos... Estão escorrendo lentamente...
            Que sensação... Triste... Gélida... Está ardendo aqui... Aqui abaixo das vestes... Entre o peito...
            Que dor é essa?
            Não. Não. Não! Não pode ser! Isso é... Isso é...
            Batimentos... Fortes batimentos... Fortes e dolorosos batimentos... Líquidos... Líquidos incessantes, doces e tristes... Não...
            Estou incrédulo... Isso que estou sentindo... Não deveria estar sentindo...
            Sofrimento. Dor. Tristeza.
            Coração.
            Lágrimas.
            Nada. Nada disso deveria estar se manifestando em mim. Eu não tenho alma... Eu sou um espírito que vaga a escuridão e luz, que paira sobre o infinito, o nada... Que é encarregado de buscar as almas para seus respectivos destinos...
            Eu sou a Morte! A Morte! Eu não tenho sentimentos. Não tenho sequer um coração!
            Eu não tenho.
            - Você tem...
            Essa voz... Essa incrível, Divina, Gloriosa voz...
            Que luz é essa? Está obstruindo toda essa escuridão... Uma luz forte, embranquecida... Que sensação boa, prazerosa, confortante...
            Senhor? Deus? Meu Lorde... Meu Mestre...
            ...
            O que está acontecendo, Senhor? Por que minhas vestes estão se dissipando com a escuridão? Por que minha foice está se desintegrando a pó? Por que essa resplandecente luz está vindo em direção a mim? Por que estou sumindo?
            Para onde essa luz irá? Para onde eu irei?
            Onde...?



            Dor. Gritos. Berros. Agonia...
            Choro. Um choro abafado. Um choro pequeno, comovente.
            Um choro de criança.
            As mãos do médico seguravam aquele perfeito recém-nascido de algumas gramas e poucos centímetros, que naquele momento engatinhava o início de uma vida inteira.
            - É um milagre... – o cirurgião disse emocionado, com olhos brilhantes direcionados àquela batalhadora mãe.
            - Não – ela contradisse com graça e alegria na voz –. Foi Deus quem fez isso... Ele me prometeu... E cumpriu a promessa...
            Aquela mulher, então, segurou aquele pequenino ser humano que chorava incansavelmente... Ela sorriu e chorou ao mesmo tempo, e sussurrou ao menino:
            -... Você é o filho que eu tanto sonhei... Renan...
            Renan – significa: Renascido em Deus.
            Vitória, até a alguns meses atrás, era uma mulher com diagnóstico de infertilidade. Não podia engravidar. Jamais teria um filho.
            Ela rezou. Pediu a Deus que lhe desse um filho. Deus lhe prometeu.
            E então, a promessa fora cumprida.
            Renan de Souza – um menino que não fora planejado... Mas que, de algum lugar no universo, fora escolhido por Deus para nascer daquele ventre, do ventre de uma mulher que nunca perdera as esperanças... Esperanças de que o momento chegaria... O momento em que um ser nasceria de suas narinas...
            Renan. De onde viera? Onde estaria antes de seu nascimento?
            Onde os bebês estão antes de entrarem no ventre das mães?
            Onde estão?
            Ninguém sabe...
            Porém, Renan sabia... E mesmo sendo um recém-nascido, sua mente lembrava-se aos poucos de onde viera... Da escuridão... Do infinito, do nada... Do mundo interior.
            Ele cresceria. Sim. Cresceria saudável, ficaria doente em algumas vezes, choraria, entristeceria, sorriria, namoraria, se casaria, teria filhos, seria avô... E morreria...
            E durante esse processo, aos poucos esqueceria como viera àquele mundo dos humanos... Porque os próprios jamais entenderiam os motivos pelo qual ele nascera...
            E então, ao morrer, a alma de Renan teria seu desejo realizado: Teria vivido até o último dia que lhe restasse, fecharia o ciclo humano e voltaria de onde veio...
            Quem é a morte?
            Quem?
            Como ela é?
            Como?
            Não sabemos, jamais saberemos.
            Ela pode estar entre nós, com nós... Ou, então, poderá ser uma de nós... Porque não sabemos se ela vive, ou está morta, se respira, se chora, se ri... Não sabemos...
            A morte é um mistério. Talvez ela já tenha vivido entre nós. Talvez ainda viva...
            Não importa como, seja em carne ou osso... Em alma e espírito... A dona Morte sempre nos espreitará, com sua grande e afiada foice, esperando pelo momento certo em que nos ceifará e nos levará para o mundo do além... Um mundo ainda desconhecido pelos vivos... pelos mortos e pela Morte...
            Morte. Não é homem, nem mulher... É um espírito perdido no mundo...
            Ela mata. Não porque gosta, mas porque é obrigada a matar.
            A morte faz parte da vida.
            A vida – quem sabe – já fez parte da morte...

Fim.
Escrito por Valdir Luciano, 2011